Uma brasileira chamada Nise da Silveira...uma rebelde a favor da humanização

26/12/2017 11:45

Por Sucena Shkrada Resk

Exposição no Itaú Cultural - 2017. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk “...Nunca me fizeram a pergunta que eu queria ouvir em minha vida: onde estão os homens e mulheres que pintaram estas obras artísticas...? Este teor de questionamento quanto ao interesse da imprensa feito pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), em documentário sobre sua trajetória na defesa da humanização no tratamento psiquiátrico no Brasil é de uma profundidade, que talvez resuma o valor de sua contribuição que se prolonga postumamente.

Já aposentada dizia – “...Enquanto eu viver, intervirei... Sou uma cidadã do mundo, quando eu vir um elefante sofrendo, se eu puder ajudar eu ajudo...O menino em Biafra, tudo isso me angustia...”. Essa era a característica desta “rebelde” a favor da humanização. E encontrava no pensamento de Antonin Artaud, um pouco das respostas ao que acreditava: “...Há 10 mil modos de ocupar-se da vida e de pertencer à sua época...”. Abolia os modelos cartesianos e preferia reler por várias vezes, Machado de Assis, literatura na qual encontrava prazer em conhecer a fundo suas personagens. E encontrava num pequeno gesto de "melhora" de seus pacientes, como um beijo no rosto (de quem antes só ficava com o semblante fechado), algo que lhe trazia um  grande bem-estar. 

A arte e o afeto animal

Do acervo do Museu Imagens do Inconsciente. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk A expressão pela arte e o afeto animal foram suas ferramentas ao longo de décadas, que resultaram primeiramente na criação da seção terapêutica ocupacional do Centro Psiquiátrico Pedro II, em Engenho de Dentro, no Rio de Janeiro, em 1946, em colaboração ao colega Fábio Sodré. A partir de 1952, ela constituiu o Museu Imagens do Inconsciente, que conta atualmente com um acervo de 350 mil obras e consequentemente manifestações de histórias de vida.

Incansável, no ano de 1956, inaugurou a primeira clínica psiquiátrica no Brasil em regime de externato - a Casa das Palmeiras. A psiquiatra começou sua atuação com princípios freudianos e depois seguiu com os Junguianos no país e organizou o primeiro grupo de estudos sobre o psiquiatra. Seguiu as orientações dele sobre estudar os arquétipos, a mitologia para compreender as mensagens nas mandalas, quando o encontrou pessoalmente no exterior. Desde o início até a velhice, Nise combateu o modelo manicomial, que se pautava em eletrochoques, lobotomia e confinamentos e excessos de medicamentos, que chamava de “camisas de forças químicas”. Não tinha “papas” na língua e criticava uma política que privilegiava multinacionais em detrimento dos seres humanos e modelos fechados, que consideram mais cômodo fazer os pacientes dormirem.

Ocupação Nise da Silveira, no Itaú Cultural. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk Seu aspecto franzino escondia uma fortaleza e rebeldia instigantes, que a fez superar vários obstáculos ao longo de sua trajetória. Como dizia, não conseguia trabalhar sem unir o científico e o filosófico, nas linhas de substratos de suas pesquisas.

Mais um pouco desta figura humana e singular se revela, entre 15 e 19 de abril de 1986, quando o jornalista Leon Hirszman entrevista Nise da Silveira, que aposentada, ainda continuava atuante e com uma memória e narrativas cativantes. Posteriormente, esse registro se transformou no documentário Nise da Silveira: Posfácio: Imagens do Inconsciente. Contundente, ela diz em dado momento: “...Eu não sou uma senhora filantrópica de jeito nenhum. Eu sou uma pessoa curiosa do abismo, embora tenha consciência de que o abismo é tão profundo que eu apenas passo nas bordas...”.

Ocupação Nise da Silveira, no Itaú Cultural. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk A psiquiatra revela o que sempre foi primordial para ela: “... (é preciso) aceitar a dignidade do trabalho seja ele qual for...O trabalho não é uma coisa servil, é algo que exprime a alma da pessoa...”. Assim ela encarava a sua atuação por décadas e observava o ofício desenvolvido por diversas pessoas, com paciência e respeito. E traz nessa afirmação também o que considerava como um aspecto favorável na terapia ocupacional (não, aos velhos moldes, como frisava), no tratamento dos doentes. “Considero as atividades como um meio de expressão da problemática interna dos doentes...e que estas, de alguma maneira, podem agir sobre esta problemática, compensando, desviando, segundo os casos”.

Chegou a ser presa por dois anos, durante a Ditadura Vargas, como comunista (por sua identificação com o Marxismo), quando conheceu Olga Benário e Graciliano Ramos, que cita esta passagem em “Memórias de Um Cárcere”. Ficou afastada do serviço público, entre 1936 e 1944. Sua biografia é contada no livro “Nise da Silveira: caminhos de uma psiquiatra rebelde, de Luiz Carlos Mello”. Na telona, o longa-metragem Nise – O Coração da Loucura, dirigido por Roberto Berliner e estrelado por Gloria Pires, em 2016, também possibilita conhecer um pouco mais sobre esta personagem que transcendeu seu tempo.

Ocupação Nise da Silveira, no Itaú Cultural. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk A sua contribuição transpôs fronteiras geográficas... e o seu arquivo pessoal integra desde 2014, o Programa Memória do Mundo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO).

Casada com o respeitado sanitarista Mario Magalhães, formava com ele uma dupla que transpirava em suas ações a palavra humanização. Ao longo de sua vida, escreveu mais de 10 livros, desde sua tese de Doutoramento “Ensaio sobre a criminalidade da mulher no Brasil” (1926) a “Gatos, a emoção de lidar” (1998), pela Léo Christiano Editorial, um ano antes de sua morte. Nesta bibliografia, a autora escreveu títulos sobre Jung e as Memória do Inconsciente, que dizem muito sobre o que acreditava.

Falar de Nise da Silveira é algo para muitos capítulos e não é por acaso que é considerada uma das mulheres mais importantes do século XX, pela essência e profundidade de sua contribuição. Certamente eu teria muito orgulho em entrevistá-la como jornalista. 

* Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk - tiradas na Exposição Ocupação Nise da Silveira, no Itaú Cultural, em dezembro de 2017 - acervo cedido pelo Museu Imagens do Inconsciente

Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk 

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