Um Outono que já marca as nossas vidas, por Sucena Shkrada Resk

30/06/2013 21:34

“Meu partido é meu país”, “Reforma política”, “Você não me representa”, “País rico é país sem corrupção”, “Chega de corrupção”, “Vem pra rua que a luta é sua - #insatisfação”, “Desculpe o transtorno, estamos mudando o país”, “Verás que um filho teu não foge à luta”, “O gigante acordou”, “O povo acordou, o povo decidiu ou para a roubalheira ou paramos o Brasil”, “Não são só centavos, são bilhões de desigualdade”, “Queremos escolas e hospitais com padrão FIFA”, “Na luta por moradia”, “Copa para quem?”, “Professor te desejo um salário de deputado e o prestígio de um jogador de futebol”, “Imposto demais, serviços de menos”, ...Essa quantidade imensa de pautas começou no Outono, o que confere um período simbólico, e cresce e mobiliza brasileiros nessas últimas semanas, marcando um novo momento histórico no país. Estima-se que mais de 20 milhões foram às ruas em mais de 200 cidades (além das mobilizações e debates virtuais) e esse quadro de insatisfação da população continua e já é acompanhado pelo mundo.

Estou buscando pela memória se vivemos um mês de junho pós-Ditadura tão intenso como este? Um outono em que o vento metaforicamente soprou com tamanha força fazendo redemoinhos em nossas vidas e mudando paradigmas de modelo de desenvolvimento...Certamente que não. Nem no período da mobilização das “Diretas Já” tivemos algo, de tamanha proporção e cobrança popular. Como analisa o pensador catalão Manuel Castells, o espaço público reúne a sociedade em sua diversidade e por isso abriga desde a "direita", a "esquerda aos sonhadores, realistas e revoltados.

Mas dar respostas precisas agora sobre os possíveis resultados do fenômeno dos protestos que invadem as mídias sociais, as ruas e, acima de tudo, a relação de cidadãos com o Estado e os poderes constituídos, seria achismo em qualquer vertente, seja antropológica, sociológica ou no campo da Ciência Política. Cada um de nós, de alguma forma, é protagonista nesta história em construção e consciente ou inconscientemente essa constatação se dá por meio da abertura de uma “caixa de pandora”, que estava "entalada" na garganta da maioria da sociedade brasileira.

Muito além da reivindicação da redução dos R$ 0,20 nas tarifas de transporte ou a gratuidade, que foram o estopim aparente em São Paulo pelo Movimento Passe Livre (MPL), o que vimos no Brasil é o despertar de cidadãos comuns com ligações ou não com outros movimentos - sem uma liderança específica - que combatem o desgaste de um modelo de governabilidade que acarreta por décadas a falta de qualidade na mobilidade urbana, nas áreas da saúde, da educação, socioambiental, de direitos humanos, na capacidade do país na geração de empregos de qualidade para parte da população, e acima de tudo, revela que o brasileiro está dando um basta à corrupção e exige transparência e participação no acompanhamento da aplicação das verbas públicas. O aumento do custo de vida em detrimento da qualidade de vida permeia todas as agendas das manifestações.

Alguns analistas comparam a mobilização brasileira à Primavera Árabe, ao movimento dos Indignados e a outras formas de manifestação mundiais. O que, no entanto, é perceptível em todo o processo é a constatação que aos poucos nós, brasileiros, começamos a ter maior esclarecimento do que é direito da coletividade e o verdadeiro sentido da palavra “público”. Isso quer dizer: que cada um dos poderes instituídos é mantido por toda sociedade e deve trabalhar para o bem coletivo.

Extra as cenas de violências pontuais – por pessoas que desagregam as manifestações pacíficas ou reações desmedidas de órgãos de segurança em algumas localidades – o que vivemos hoje pode ser analisado como algo salutar. Grande parte dos que se mobilizam das maneiras mais diferenciadas demonstram que palavras vãs não bastam. A reação dos governantes e do Congresso, nos últimos dias, comprova que esse momento histórico é encarado com aparente seriedade por quem foi eleito pelo voto democrático. Há um quadro de insatisfação crescente com relação ao sistema corroído de barganhas políticas que diluem o conceito teórico de Estado democrático.

A cogitação de um plebiscito para a reforma política anunciado pela presidente Dilma Rousseff, a derrubada da PEC 37 (que retiraria o poder de investigação do Ministério Público) no Congresso e a votação em tempo recorde de projetos, como da corrupção ser enquadrada como crime hediondo, e de incentivos às reduções de transporte público, demonstram que o povo, de alguma forma, mexe nas estruturas do poder. A questão a partir de agora é: as mudanças para melhor a todos nós e à nação como um todo realmente serão uma constante daqui para frente ou circunscritas ao atual momento? Qual será o reflexo nas urnas e na estrutura do modelo de governança no país e a relação com o empresariado, os movimentos e organizações e à sociedade em geral?

*Blog Cidadãos do Mundo  - jornalista Sucena Shkrada Resk

 

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