Um olhar sobre a Venezuela megadiversa, por Sucena Shkrada Resk

26/03/2013 17:19
Ampliar a leitura sobre países vizinhos ao Brasil na América do Sul, é um exercício de aprendizado interessante. No caso da Venezuela, conhecida mundialmente pela figura de seu ex-líder Hugo Chávez, que faleceu recentemente, e por ser uma potência petrolífera mundial e extrativista de minérios, tem um patrimônio biodiverso, em constante ameaça, relevante para o mundo, algo que pouco é aprofundado. O país figura na lista dos 17 países megadiversos do planeta, que exibe um ecossistema amplo (amazônico, andino, caribenho e atlântico) e mais de 140 mil espécies (conhecidas) de fauna, flora, microorganismos, entre outras categorias.

A região leste e a bacia de Orinoco venezuelana(onde há  exploração de petróleo)  integram a Pan-Amazônia junto a áreas da Bolívia, do Brasil, da Colômbia, do Equador, da Guiana, do Peru, Suriname e da Guiana Francesa. Isso faz com que sua importância se torne ainda maior para a conservação socioambiental da região e no enfrentamento das mudanças climáticas. Além da área continental, o país ainda é composto por quase 320 ilhas, o que o caracteriza ainda como uma importante referência de ecossistema marinho.

Atualmente a Venezuela mantém parques nacionais, monumentos naturais, reservas da biosfera, refúgios, reservas de fauna silvestre e parques recreativos, que totalizam cerca de 160 unidades de conservação. Segundo o Governo, cerca de 60% do território está sob algum tipo de proteção ambiental.

Essa exuberância natural, entretanto, está sob ameaça principalmente da ação humana decorrente do próprio modelo de desenvolvimento econômico extrativista, que se acentua desde a década de 30.

Apesar de manter uma legislação ambiental, desde 1965 (Lei Florestal de Solos e de Água) e a Orgânica do Ambiente, a partir de 1976, algumas das causas desse descompasso seriam atribuídas a situações que envolvem contrabando, mineração ilegal... e imigração ilegal, como é relatado nas considerações finais do artigo “Entre a norma e a prática: A questão ambiental na Venezuela”, da Doutora em Sociologia, pela Universidade de Brasília – UnB, Doris Aleida Villamizar Sayago, nos anos 2000.

O petróleo é extraído principalmente do Lago Maracaibo e responde por cerca de 80% das exportações. A Venezuela, por esse potencial, é o único país do continente, membro da Organização dos Países Produtores e Exportadores de Petróleo (OPEP).

 As contaminações e problemas de saneamento ambiental ainda são outros aspectos apontados por estudiosos e ambientalistas a serem enfrentados no país.

Esse processo de mobilização começou simultaneamente às legislações na área, nos anos 70, quando se deu início à criação de organizações socioambientais e de iniciativas de educação ambiental. E nos anos 80, foram instituídos os Planos de Ordenação Territorial. Já em 99, com a nova Constituição, ficou definido que o Estado desenvolveria a política de ordenação do território, atendendo às realidades ecológicas,geográficas, populacionais, sociais, culturais, econômicas, políticas de acordo com as premissas do desenvolvimento sustentável”

Em junho do ano passado, a Venezuela ficou em 18º lugar no ranking (-0,3) de Índice de Riqueza Inclusiva (IRI), que avalia o crescimento sustentável anual per capita do mundo criado pelo Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), novo indicador de sustentabilidade, que tem o componente ambiental. No primeiro ficou a China (2,1).

A Venezuela, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20),  afirmou que promove o eco-socialismo e apoia o desenvolvimento de tecnologias limpas, aplicada à indústria de hidrocarbonetos. O objetivo seria diminuir o seu impacto ambiental, como é o caso da utilização de gasolina mais limpa, o uso prolongado de gás, além da  aplicação de tocologia HDH + em refinarias venezuelanas (a eliminar a produção de coque de petróleo). A matriz energética no país é em 70% oriunda de fonte hidrelétrica e depois do gás.

Outras iniciativas venezuelanas importantes, segundo dados disponibilizados na Convenção da Diversidade Biológica, em 2010, seriam investimentos no sistema nacional de áreas protegidas do país, que previnem a sedimentação que, de outra forma, poderia reduzir ganhos oriundos da exploração agrícola em aproximadamente US$ 3,5 milhões por ano.

PRESSÃO CONSTANTE

Segundo a Conservation International (CI), a região dos Andes tropical da Venezuela está entre as que mais sofrem pressão no planeta (hotspot*). O Corredor Norte de Conservação dos Andes que segue à Colômbia, é um motivo de preocupação dos especialistas.

Algumas das áreas estratégicas, por apresentarem espécies endêmicas, ficam na região sul do país – Guianan - localizada entre os rios Orinoco e Amazonas; e na bacia do rio Caura. Nesse trecho do país, vivem anuros (anfíbios), que só são encontrados nessa região do planeta..

No Parque Nacional de Canaima, fica a Angel Falls (979m), considerada a cachoeira mais alta do mundo. Esse salto proveniente do rio Churún desde o Auyantepui, no Estado de Bolívar, fica próximo à fronteira Brasil-Guiana. E o ponto mais alto do país é o Pico Bolívar, com 5.007 metros.

O contexto de geração de energia no país está interligado à importância da conservação da biodiversidade. A Barragem de Guri, na região de Paragua, que fornece a maior parte de energia elétrica na Venezuela, está em uma bacia desprotegida, segundo levantamento da CI.

Nesse rico ecossistema, povos indígenas Ye'kwana e Sanema tentam sobreviver diante da pressão do desenvolvimento. Outra etnia importante venezuelana é a dos yanomâmis, que também vivem no Brasil, o que estreita a relação fronteiriça entre os países.

Recentemente, em fevereiro, um grupo de 12 comunidades indígenas fez reféns militares (depois libertados), em uma região de mineração no sudoeste do país. O grupo condicionou a libertação à anulação de um decreto que outorga ao Estado a administração da exploração de ouro, entre outras reivindicações de preservação de territórios indígenas. Como no Brasil, os aborígenes defendem seu direito de consulta. Outro episódio, em dezembro de 2012, foi o de um grupo exigir de volta uma pedra (kueka) retirada há 14 anos de um parque nacional, que está exposta em Berlim.

As estratégias para diminuir os impactos sobre os ecossistemas do país, segundo a organização ambientalista,  é de se promover o incentivo à manutenção de hortas orgânicas, cultivo de plantas com funções fitoterápicas, além de apoio do ecoturismo com base comunitária. Nesse sentido, o exemplo, de acordo com a CI, é a Rota del Quinó, na Sierra Nevada e parques nacionais.

MONTE RORAIMA

Divulgação

Mas sem dúvida, entre as características ambientais singulares venezuelanas, está o Monte Roraima ou Tepui (devido ao seu formato de mesa), que fica na área de tríplice fronteira com Brasil e Guiana. Esse grande maciço rochoso é de tirar o fôlego e um dos lugares mais antigos da Terra. No trecho venezuelano, a escalada é de 1,7 mil m e chega a ser feita em três dias (de acordo com agências especializadas), mas seu ponto mais alto é de 2.734 metros de altitude . A subida começa nas proximidades da aldeia indígena Paraitepui. Na área, também se encontra o Vale dos Cristais, com grande quantidade de quartzo e poços naturais, que remetem a um cenário lunar.

Basta dizer que  O Mundo Perdido, do escritor Arthur Conan Doyle, de 1912, foi inspirado nesse destino amazônico, como também, UP – Altas Aventuras, da Disney-Pixar, em 2009 .

Essas e tantas outras riquezas venezuelanas são desconhecidas e revelam o quanto há a se valorizar nesse país sul-americano.

Glossário:
Hotspot*: área prioritária para conservação, com alta biodiversidade e ameaçada no mais alto grau (com pelo menos 1.500 espécies endêmicas de plantas e que tenha perdido mais de três quartos de sua vegetação original). O conceito foi criado pelo ecólogo inglês Norman Myers, em 1988. Fonte: CI.

IRI*: O indicador aplica informações referentes ao capital humano, natural e manufaturado de 20 países para mostrar um panorama mais amplo que o PIB (Produto Interno Bruto). Fonte: Pnuma.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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