Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus

28/08/2016 16:31

Por Sucena Shkrada Resk

Região do rio Juruena. Crédito da foto: Sucena Shkrada ReskMais de 15 mil focos de incêndio/queimadas, neste ano, colocam o Mato Grosso em primeiro do ranking no país atualmente. E boa parte destes registros ocorre no bioma amazônico ao norte e noroeste do estado. Colniza, a pouco mais de mil quilômetros de Cuiabá, é o município que mais desmata na Amazônia. Percorrer estradas vicinais e rodovias nestas áreas a trabalho, tem revelado um cenário desolador, neste período de seca, que está cada vez mais longo em relação à fase de chuvas no bioma. É perceptível um processo gradual e acentuado de savanização decorrente das práticas de monoculturas e pecuária extensivas, de alguns pontos de mineração ou passivos ambientais de garimpos, e da extração ilegal de madeira.

O solo praticamente arenoso, em muitos trechos, revela a possibilidade de uma Amazônia desertificada. Poucos proprietários se preocupam com o restauro das áreas degradadas e o que se vê é, inclusive, zonas de topo de morro descampadas. Reservas legais e áreas de proteção permanente (APPs) são cada vez mais fragilizadas. A matemática é simples, quanto menos plantas, menos chuva, menos animais, menos polinização e menos vida. Os níveis dos rios e afluentes estão bem abaixo dos seus níveis normais, como o Teles Pires e o Juruena. Em algumas áreas, quando se atravessa as pontes de madeira (muito comuns nestas localidades), nem um fio d`água é visível.

O cientista brasileiro Carlos Nobre tem relatado esta problemática no bioma amazônico, como um todo, há alguns anos, no Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas. O Programa de Grande Escala da Atmosfera-Biosfera da Amazônia (LBA), que envolve instituições internacionais e a Universidade de Brasília (UnB), entre outras, registra a aceleração da paisagem em cerrado, bioma próximo a essa região. Uma das observações é que nos locais em que a largura desmatada é de pelo menos 150km², há uma alteração na formação das nuvens e no ciclo de chuvas, segundo os pesquisadores.

O que se percebe, em especial, neste trecho do centro-oeste brasileiro, é que longas extensões de terra são dissecadas a tal ponto que dificulta a sua recuperação. Os cupinzeiros se alastram como formigas dando o sinal de alerta de que o solo já não aguenta tanta agressão. Os componentes nutricionais são reduzidos ou extintos, o que torna a capacidade de resiliência menor, conforme estudos científicos recentes.

Quando nos deparamos com poucas cabeças de gado tentando pegar uma sombra em uma única árvore esquecida no pasto, a cena nos remete à falta de preparo de grandes latifundiários. As grandes castanheiras sucumbem pois ficam solitárias e frágeis. Muitas ilegalmente são destruídas pelo fogo, em queimadas criminosas junto com outras espécies, neste período proibitivo, que se estende de julho até metade de setembro (podendo ser prorrogado, de acordo com a condição climática).

O cinza e preto da fuligem retratam esse lado obscuro de práticas que causam danos ao meio ambiente e à saúde humana. O alto grau de toxidade leva centenas de pessoas aos sistemas de saúde de municípios carentes em retaguarda. Apesar de haver experiências que vão na contramão da destruição, ainda são exceções. Precisam ser multiplicadas exponencialmente.

A falta de regularização fundiária em muitos trechos é mais um componente de externalidade que contribui para este quadro complexo no estado.

Um leigo, a olho nu, consegue detectar estas mudanças na paisagem na Amazônia mato-grossense. E os governantes, até quando serão pouco eficientes e efetivos para que haja o cumprimento da legislação ambiental no país? Até quando a pasta de agricultura seguirá caminhos opostos aos da ambiental? O que vale mais: o mercado ou a qualidade de vida? Quem vai pagar a conta da savanização? Fica a pergunta.

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