#Saúdeambiental - Febre amarela, do século XIX a 2018: o que Oswaldo Cruz faria nos dias de hoje?

09/01/2018 10:34

Por Sucena Shkrada Resk

 Final do século XIX e 2018. Neste ir e vir da história, a questão sanitária no Brasil é ainda o calcanhar de aquiles que permeia a condução da gestão pública no país. Hoje o aumento do número de casos comprovados e suspeitos de febre amarela silvestre (pelos vetores Haemagogus ou o Sabethes, que transmitem o vírus RNA) acenderam a luz amarela para a versão urbana da doença, sobre a qual não há registros desde 1942, cujo vetor é o Aedes Aegypti.

Por que a situação exige extrema vigilância? O Brasil enfrenta um surto, em especial, em municípios do Sudeste que se tornaram pautas recorrentes das manchetes dos grandes veículos de imprensa, como a de hoje - "Sobe para 13 o número de mortos por febre amarela, desde o ano passado..." ou "Minas Gerais tem 21 cidades com alto risco de febre amarela". Em 2018, o país continua a computar uma estatística de perda de vidas por causa da doença. A Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) identificou no ano passado alterações do genoma viral da febre amarela, o que está requerendo aprofundamento, segundo os pesquisadores. O Ministério da Saúde chegou a anunciar em 2017, que o país estava livre do surto, mas vimos que a situação é outra. Entre dezembro do ano anterior e agosto de 2017, houve a confirmação de 777 casos, sendo que 261 resultaram em óbito.

A vacina entra no calendário vacinal. A necessidade de prevenção se amplia, porque as regiões mais afetadas têm alta densidade demográfica e retratam que o desenvolvimento à custa de uma precária infraestrutura de saneamento ambiental é um dos pontos mais fragilizados dos governos. Afinal, nas áreas urbanas, onde o vetor da doença é o Aedes Aegypti, há maior temor, pois a época de chuvas começou e o perigo da existência de centenas de criadouros é grande. Fazendo uma retrospectiva, seria interessante saber o que sanitaristas pioneiros como Oswaldo Cruz (1872-1917) e Emílio Ribas (1862-1925) diriam a respeito deste cenário atual, não é?  

Ações consorciadas

Oswaldo Cruz tinha uma visão racional do que era necessário realizar ações consorciadas para combater as causas e efeitos da doença, no ano de 1903, como é descrito em sua biografia. Apesar de muitos considerarem que sua postura era radical, as suas ações foram de relevante importância em um país que vivia sucessivas epidemias. Tanto que uma das primeiras medidas que tomou no Rio de Janeiro, que sofria com a febre amarela, foi de iniciar uma campanha e incorporar à Diretoria da Saúde Pública, o pessoal médico e da limpeza pública do município. Com isso, o número de mortes caiu consideravelmente.

O sanitarista se pautava em uma visão holística do problema. Para isso, adotava o critério de multas e intimações a proprietários que não zelavam pela higiene e condições sanitárias dos imóveis; ao mesmo tempo, brigadas anti-mosquitos para atuar na limpeza dos possíveis criadouros e encaminhamento dos doentes para devido tratamento.

As medidas que tomava eram inspiradas na então teoria do médico cubano Carlos Finlay de que o transmissor da doença (nas áreas urbanas) era o mosquito Aedes aegypti, na época conhecido como Stegomyia fasciata ou Culex aegypti, nestes últimos anos tão conhecido por nós associado também à Dengue, à Febre chikungunya e ao Zika Vírus. Um questionamento pertinente: onde está o gargalo da vigilância sanitária no país? Será uma política que lida só com sazonalidades e não é de longo prazo? Ficam as perguntas.

Agora, nas áreas silvestres, o Haemagogus ou o Sabethes, que estão causando apreensão em municípios principalmente do Sudeste, desencadearam os processos de vacinação em massa em várias regiões. Os animais silvestres (primatas) contaminados estão sento sentinelas, de certa forma. Infelizmente as suas mortes revelam o perigo presente. Pode parecer óbvio, mas o contágio a humanos pelos mosquitos perde fronteiras, desde que o mesmo esteja infectado. A circulação de pessoas pelo país é uma constante.

O Ministério da Saúde fez um acompanhamento maior da doença pela última vez, em 2008, quando à época houve uma campanha nacional. Agora a atenção a este novo surto aciona o MS, principalmente com o encaminhamento das vacinas a todos os estados, em especial para a BA, ES, MG, RJ e SP. Cerca de 40 milhões de doses até o momento. Agora, não é mais só uma exigência quando viajamos às então chamadas áreas de riscos.  

Neste processo histórico, é interessante observar que a vacina começou a ser fabricada, nos anos 40, pela Fiocruz, com financiamento do então empresário norte-americano Rockfeller (e não, por investimento interno). O cerco contra a doença se estabelecia e agora vimos se repetir a necessidade, no século XXI. Falar em febre amarela não está circunscrito mais à região amazônica e cerrado principalmente. A chamada febre amarela urbana, por via de transmissão pelo Aedes Aegypti, passa a ser uma possibilidade iminente, segundo especialistas. Diante da proliferação da mosquito-fêmea nos últimos anos e a incidência de chuvas, que facilita a eclosão dos ovos, a preocupação redobra.

E fica a pergunta: como o sanitarista Oswaldo Cruz avaliaria e agiria, no contexto atual da febre amarela no país? Talvez seja preciso recobrar o ontem para avaliar as conduções do hoje...

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
31/01/2016 - Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda
07/04/2013 - Dengue: brechas na prevenção no Brasil 
11/12/2012 - Doenças raras e negligenciadas: o direito à informação
24/08/2012 - Coleta e tratamento de esgoto: como será quando chegarmos a 2050?
08/09/2010 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (II)
20/02/2010 - Dengue: prevenção não pode ser sazonal
 

Pesquisar no site

Blog

24/08/2019 15:16

A carência de uma visão e ação integradas panamazônicas

Artigo nº 761/Podcast 8 – Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk* Neste ano de 2019, a evidência de posturas de governanças isolacionistas reacende uma discussão nas entranhas sul-americanas. Vivemos décadas após décadas, a carência de uma visão e ação...
13/08/2019 16:32

#ODS_4: O incentivo à leitura forjado em bibliotecas cidadãs

Atitudes de pessoas comuns fazem a diferença em suas comunidades e municípios e são fonte de inspiração em um país no qual o analfabetismo é ainda um desafio a se superar; são exemplos na busca do Objetivo do Desenvolvimento Sustentável 4 (ODS-4), na seara da educação   Por Sucena Shkrada...
06/08/2019 14:02

Poluição do ar: um assunto transversal nos 17 Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU

Análise é feita pelo médico-patologista e pesquisador Paulo Saldiva, diretor do Instituto de Estudos Avançados da Universidade de São Paulo (IEA/USP), em entrevista especial ao Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk* Não é por acaso que o sistema da...
24/07/2019 13:26

Mananciais - Billings exemplifica um dos maiores desafios nas regiões metropolitanas: planejamento urbano

As leis de proteção dos mananciais existem desde os anos 1970 (com atualização em 1997) e o problema da poluição das águas formadoras do reservatório já é discutido desde aquela época. Por Sucena Shkrada Resk* Aos 94 anos, a Represa Billings, na Bacia Hidrográfica do Alto-Tietê, é considerada como...
18/07/2019 12:57

Entrevista - Endocrinologista brasileira alerta sobre os riscos da obesidade na infância e adolescência

FAO avalia a obesidade como uma pandemia mundial e constatação é um dos desafios para o cumprimento de alguns Objetivos do Desenvolvimento Sustentável, da ONU Por Sucena Shkrada Resk A roupagem da malnutrição se dá de diferentes formas: não só pela fome/subnutrição, mas também pela obesidade, e um...
10/07/2019 17:39

As baleias-jubarte têm muito a nos ensinar

Por Sucena Shkrada Resk* Companheiras, acolhedoras, resilientes, volumosas, ágeis e com um fôlego de dar inveja. Se pensarmos bem, temos muito a aprender com elas. Vocês já descobriram quem são estas personagens com tantos atributos? Não? Então, vamos desvendar este mistério: são as baleias-jubarte...
18/06/2019 13:56

Artigo e Podcast 7 – Blog jornalístico Cidadãos do Mundo: Cidadania ambiental tem rosto e nome

Por Sucena Shkrada Resk* Atitude é tudo, não é? Personagens anônimos nos revelam dia a dia um Brasil rico em significados de cidadania ambiental. Estas experiências vêm ao nosso encontro, quando estamos receptivos e olhamos ao nosso redor. Vivenciei um desses momentos, no último domingo, 16 de...
12/06/2019 13:05

Microplásticos: microscópicos e invasivos

Por Sucena Shkrada Resk* Nós comemos e respiramos microplásticos diariamente. Mesmo parecendo absurdo, isto já é comprovado cientificamente e revela os bastidores da relação de produção, consumo e descarte. Apesar de minúsculos e microscópicos, estes fragmentos menores que cinco milímetros são...
05/06/2019 16:48

Poluição do ar: Qual é o valor de cinco segundos?

Por Sucena Shkrada Resk* A maioria de nós provavelmente nunca pensou quanto valem cinco segundos nos dias de hoje, não é? Valem literalmente uma vida, pois neste curto espaço de tempo morre uma pessoa no mundo em decorrência de doenças associadas à poluição do ar, correspondendo anualmente a 7...
23/05/2019 13:15

Podcast 6 – Blog Cidadãos do Mundo: Assustador é não ouvir mais os zumbidos das abelhas

Por Sucena Shkrada Resk* Ouvir os zumbidos das abelhas para muitos pode ser algo assustador, mas ao contrário do que você possa pensar, mais assustador é justamente não ouvir esses zumbidos. A resposta é simples: esses agentes da natureza responsáveis pela maior parte da polinização no planeta...
21/05/2019 14:33

Brasil sai do protagonismo em decisões internacionais da área ambiental

Por Sucena Shkrada Resk* A linha histórica dos esforços mais intensivos em cooperações multilaterais internacionais no campo ambiental já soma quase meio século, com a Declaração de Estocolmo (1972), mas desde a Segunda Guerra Mundial houve um impulso a este propósito, com a Declaração dos Direitos...
10/05/2019 17:12

O cenário conturbado da gestão ambiental brasileira

Por Sucena Shkrada Resk* A condução da gestão socioambiental no Brasil, neste ano de 2019, causa apreensão aqui e no exterior. Uma série de medidas está sendo tomada pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), sob comando do ministro Ricardo Salles, e tem causado polêmica ao acelerar a redução da...
07/05/2019 10:50

Artigo - Podcast 5 - Blog Cidadãos do Mundo: Um dia de second life nas teias socioambientais

Por Sucena Shkrada Resk* Será possível viver sem utopias? Na concepção de grande parte da humanidade, consciente ou inconscientemente, talvez não. Por quê? Uma das respostas possíveis é um sentimento que nos move e que se chama esperança. O que faríamos sem ela? Neste artigo também na versão do...
04/05/2019 12:49

Podcast 4: Saúde ambiental não existe sem prevenção - um alerta no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk*   Neste quarto podcast do meu blog jornalístico Cidadãos do Mundo, falo com vocês a respeito da importância da prevenção na saúde ambiental. É uma questão que está sempre no nosso calcanhar, não é? Quer queira, quer não. E me faz lembrar deste trecho da música dos...
12/04/2019 13:41

Podcast 3 - Blog Cidadãos do Mundo - as facetas das desigualdades sociais no Brasil, por Sucena Shkrada Resk*

Olá, compartilho hoje com vocês o terceiro podcast do meu Blog jornalístico Cidadãos do Mundo. Estou trazendo para este espaço algumas reflexões sobre a questão da desigualdade social que historicamente tem afetado o Brasil, e que traduz aquela lacuna de desenvolvimento, que revela as facetas ainda...
02/04/2019 15:05

Podcast 2 - Blog Cidadãos do Mundo - Uma imersão no turismo de base comunitária, por Sucena Shkrada Resk

Olá, estou tratando no segundo podcast do meu Blog jornalístico Cidadãos do Mundo, da reflexão sobre o turismo de base comunitária e o etnoturismo, que saem da esfera convencional que conhecemos e trazem um ingrediente importante: a junção da proposta da conservação ambiental com a valorização...
27/03/2019 17:39

Primeiro podcast do Blog Cidadãos do Mundo traz reflexão sobre os efeitos do ciclone Idai na África

Olá, neste ano de 2019, eu, Sucena Shkrada Resk, estou ampliando o formato de linguagem do meu blog jornalístico Cidadãos do Mundo, com a introdução de podcasts periódicos, no qual faço comentários e reflexões sobre temas socioambientais, de sustentabilidade e cidadania, além dos artigos e...
25/03/2019 13:20

Podcast - Agricultura orgânica: grupo de mulheres revela o casamento da faceta da raiz cultural às sementes crioulas

Por Sucena Shkrada Resk  A entrevistada desta semana, do Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk, é a agricultora familiar pernambucana Vilma Martins (terceira à direita na foto), radicada em São Paulo, que integra a composição feminina do Grupo de Agricultores Urbanos...
20/02/2019 14:05

Tietê permanece adoecido na região metropolitana devido ao mau planejamento urbano

Por Sucena Shkrada Resk* A sensação de déjà-vu é contínua. Entra ano, sai ano, esta é a realidade perversa que vivemos diariamente nas regiões metropolitanas. De um lado, algumas nascentes que resistem, sabe-se lá até quando à pressão humana e, por outro, rios que são engolidos, em diversos...
08/02/2019 12:42

Rompimentos de barragens de rejeitos minerais revelam cenário de insegurança no país

Por Sucena Shkrada Resk* Ausência e/ou ineficiência nas precaução e prevenção, manutenção, em monitoramento e investimento em tecnologias mais seguras e em fiscalização contínua na destinação e tratamento de rejeitos minerais. Essa série de potenciais causas tem demonstrado um verdadeiro campo...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk