Refugiados: uma situação que reflete o modelo de desenvolvimento de uma humanidade adoecida

17/06/2018 14:35

Por Sucena Shkrada Resk

Século XXI em andamento. O que, em princípio, seria um período a evocar um status ‘positivo’ de modernidade, revela um momento histórico em que lacunas cíclicas de humanização são refletidas na quantidade de refugiados pelo planeta, que segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), ultrapassam 20 milhões de pessoas (refugiados e solicitantes de refúgio) e mais de 36,6 milhões de deslocados internos. A mola propulsora deste quadro desagregador continua sendo conflitos, guerras e o avanço de extremos climáticos. Reflexo do Antropoceno, que escancara as “limitações” de nós, seres humanos, no que se refere às relações entre nós e com o meio ambiente. Em 20 de junho, Dia Mundial dos Refugiados, se reforça nesta data simbólica, mais uma oportunidade de repensar a forma de sermos agentes ativos nesta mudança na engrenagem de vida no planeta.

A abertura das nações para receber estes cidadãos (ãs) que ultrapassam as fronteiras geopolíticas fica cada vez mais delicada, pois envolve configurações culturais, socioeconômicas e políticas. Aqui no Brasil, passamos por esta experiência no que tange, por exemplo, aos haitianos, sírios e venezuelanos, entre outros povos. Segundo o governo brasileiro, em 2017, havia no país 10.141 refugiados, provenientes de 80 países e mais de 30 mil pedidos a serem analisados pelo Comitê Nacional para os Refugiados (Conare). Estamos em 2018, e esse processo é ascendente.

Ao mesmo tempo, os imensos campi de refugiados pelo mundo são o retrato de um cenário, que tende a se agravar. Como não se impactar ao ver a situação em Dadaab, no Quênia, que abriga principalmente refugiados da guerra civil da Somália. São praticamente 500 mil pessoas. Por mais de uma vez, já foi anunciado que iria ser fechado. Ou então, observar o campo de Dollo Ado, na Etiópia, e Kakuma, também no Quênia e Jabalia, na Faixa de Gaza (Palestina). Sãos crianças, adultos e idosos, que se veem praticamente exilados da “vida”, em um processo de resiliência que é difícil mensurar.

Quando vimos a situação das populações de países insulares, com o aumento do nível do mar; ou em nações, nas quais a seca provoca um êxodo cada vez maior, percebemos que o problema é ainda mais complexo.

A existência de mecanismos jurídicos e legais nacionais e internacionais não é suficiente para chegar à cerne do problema. O arcabouço é formado pela Convenção sobre Refugiados, de 1951, e seu protocolo sequente em 1967, com adesão de 150 países signatários; como também, pela Declaração de Nova York para Refugiados e Migrantes, de 2016, que teve a participação de 193 estados-membros. Afinal, as raízes do problema são reflexo do modelo de desenvolvimento adotado. Portanto, se permanece com os mesmos pilares, é difícil haver resultados diferentes.

Nas propostas da Agenda dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da Organização das Nações Unidas (ODS/ONU), até o ano de 2030, o parágrafo 4 propõe que “ninguém será deixado para trás e que objetivos e metas serão atendidos para todas as nações e povos e todos os segmentos da sociedade”.

A ACNUR destaca que no parágrafo 23, há a seguinte menção: “aqueles cujas necessidades estão refletidas na agenda incluem [...] pessoas refugiadas e deslocadas internas (para que se possa) tomar novas medidas e ações efetivas, de acordo com o direito internacional, a fim de remover obstáculos e restrições, fortalecer o apoio e atender às necessidades específicas das pessoas que vivem em áreas afetadas por emergências humanas complexas e em áreas afetadas pelo terrorismo”.

O que na prática, é possível fazer neste quebra-cabeças geopolítico requer princípios individuais e coletivos, que vão desde doações, trabalhos voluntários, e principalmente possibilitar a mudança de olhar sobre este tema... pois o mesmo não está distante como equivocadamente possamos pensar.

Caso observemos com mais atenção, os próprios processos internos migratórios brasileiros são um exemplo disso. Quando os direitos de quilombolas, povos indígenas são desrespeitados, por muitas vezes, há estes deslocamentos forçados. Quando sabemos que há 52 milhões de pessoas abaixo da linha da pobreza no Brasil, será que não é um indício mais do que emergente que nos faça pensar na mudança de paradigmas neste mundo, partindo do local para o global? Muitos se tornam deslocados internos, outros não têm a chance de sobreviver.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

01/07/2014 – Uma relação humana mundial a ser repensada: número de refugiados aumenta
09/03/2014 - Uma Ucrânia remexida em suas raízes

16/02/2014 - Os seres humanos que roubam sonhos

21/09/2012 - Refugiados: o quanto compreendemos dessa realidade?

07/08/12 - Políticas fragmentadas e mudanças climáticas intensificam crise na África

10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato

09/11/2011 - Refletindo sobre o Estado do Futuro

07/08/2011 - O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1)

31/07/2011 -  Um diálogo com a Ecosofia

22/07/2011 - Alerta sobre o flagelo africano

28/06/2010  - A relação das APPs e as enchentes nordestinas

01/02/2010 -  Esp.FSM 2010 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?,

10/12/2009 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome – Tuvalu

06/12/2009  - Copenhague vira o centro do planeta

29/11/2009 - O caminho da economia verde

13/09/2009 - Qual 'casa' podemos construir para nós?

18/05/2009 - Especial II FCS - 3 - Um jornalismo mais comprometido

10/12/2008 - DHs: começam pelo princípio de dar dignidade à vida

01/04/2008 - Parte 1 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas

05/09/2007 - As fronteiras das zonas de conflito
*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

Pesquisar no site

Blog

26/08/2018 16:33

Refugiados: os diversos contextos das fronteiras humanitárias

Por Sucena Shkrada Resk* As relações humanas trafegam em linhas tênues que reúnem processos culturais centenários, questões socioeconômicas, religiosas e limites geográficos, que integram a geopolítica, que ora se fundem, e ora segregam. Historicamente é isto que vimos em diferentes partes do mundo...
14/08/2018 18:30

O mercúrio nas veias da Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre “mercúrio” fosse um assunto somente de interesse da pauta astronômica? Voltando à realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contaminação pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em...
11/07/2018 18:00

Entrevista da semana - Defensor público fala sobre o desafio do combate ao uso de agrotóxicos em São Paulo e em todo o Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O advogado Marcelo Carneiro Novaes, defensor público do Estado de São Paulo, que integra a coordenação do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, que começou a se reunir em novembro 2016, é o entrevistado desta semana do Blog Cidadãos do Mundo...
17/06/2018 14:35

Refugiados: uma situação que reflete o modelo de desenvolvimento de uma humanidade adoecida

Por Sucena Shkrada Resk Século XXI em andamento. O que, em princípio, seria um período a evocar um status ‘positivo’ de modernidade, revela um momento histórico em que lacunas cíclicas de humanização são refletidas na quantidade de refugiados pelo planeta, que segundo o Alto Comissariado das Nações...
14/05/2018 14:29

PANCs: um universo da segurança alimentar a explorar

Por Sucena Shkrada Resk  O tema da segurança alimentar é rico em multiplicidades de enfoques, sendo que um deles trata do reconhecimento da importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O termo foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, resultando no livro...
07/05/2018 14:08

O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk Desmatamento, mudanças climáticas e consequentemente a facilitação para um aumento de vetores de doenças infectocontagiosas são o cenário perfeito, que está sendo construído, nos últimos anos, na Amazônia brasileira, onde um dos indícios desta pressão é a ascendência de...
20/04/2018 17:36

Século XXI: a cartografia da violência no campo

  Por Sucena Shkrada Resk   O mapeamento do processo de violência no campo revela um Brasil com janelas de oportunidades perdidas sob um modelo perverso, que tem no centro a disputa da terra. Os estados do Pará (21), Rondônia (17), Bahia (10), Mato Grosso (9), Amazonas (3), Minas...
04/04/2018 13:27

O simbolismo do adeus à Sudan, o último rinoceronte-branco do norte (macho) do planeta!

Por Sucena Shkrada Resk O ancião Sudan, no alto dos seus 45 anos e cerca de 2,3 mil quilos e 1,82m de altura, não venceu a batalha que travava contra uma infecção que atingiu sua pata direita traseira, no mês de março. O último exemplar macho de rinoceronte-branco do norte do planeta foi submetido...
03/04/2018 09:05

#Pulverizaçãoaérea: Sabemos realmente as externalidades negativas do ciclo do que comemos?

Por Sucena Shkrada Resk O quadro de vulnerabilidade a que somos expostos com a “insegurança” alimentar e ataque aos direitos humanos mais básicos é cada vez maior no Brasil. Inúmeros casos de sobrevoos de pulverizações aéreas de agrotóxicos são notificados pelo país, mas a maioria de nós, sequer...
27/03/2018 12:29

Jogo de titãs: O implacável Antropoceno x a resiliência ecossistêmica

Por Sucena Shkrada Resk  Hoje 75% da superfície terrestre estão impactadas pelas atividades humanas e a projeção é de que essa destruição atinja 85% até 2050  e já afeta pelo menos 3,2 bilhões de pessoas no planeta. Alguém acha pouco? Mais de 100 pesquisadores de 45 países da Plataforma...
23/03/2018 10:29

#Recursoshídricos: o pedido de socorro ao ecossistema

Por Sucena Shkrada Resk O Informe Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018, lançado nesta semana, tem como mote “as soluções baseadas na natureza” (SbN) para a gestão das águas, um conhecimento milenar mas que conceitualmente tem sido desenvolvido desde 2002....
19/03/2018 15:00

Março de 2018: seca e estiagem marcam a realidade brasileira, na semana dos fóruns das águas

Por Sucena Shkrada Resk Diante da realidade, não há meias palavras, quando se trata de insegurança hídrica e do cenário das mudanças climáticas. Neste mês das águas, em que fóruns internacionais ocorrem em Brasília para discutir o tema em diferentes ângulos e propor soluções, dezenas de municípios...
08/03/2018 13:00

Usinassolares: do protagonismo chinês às iniciativas que começam a se destacar timidamente na matriz nacional brasileira

Por Sucena Shkrada Resk   A energia solar fotovoltaica se projeta de forma gradativa no mundo, desde os anos 2000. No contexto das implementações de usinas e fazendas solares (fontes centralizadas), estão a China - ainda o maior poluidor do mundo, por causa do carvão, e ao mesmo tempo o...
05/03/2018 14:55

Mês das Mulheres: A relevância permanente das contribuições socioambientais de Wangari Maathai

Por Sucena Shkrada Resk  Quando em 25 de setembro de 2011, a queniana Wangari Maathai faleceu, devido a um câncer, escrever no dia seguinte um artigo a respeito de sua trajetória de vida (veja também abaixo, artigo: Wangari Maathai: um exemplo a seguir), como manifestação de respeito ao...
19/02/2018 19:33

Quilombos: O simbolismo da força de séculos dialoga com a decisão do STF

Por Sucena Shkrada Resk Homenagear postumamente lideranças quilombolas, como Dandara e Zumbi dos Palmares (século XVII), Tereza de Benguela, do Quilombo de Quariterê, MT (século XVIII) e Helen Moreira, do Quilombo Ilha de Vera Cruz, BA; como também, Maria Trindade da Silva Costa, do Quilombo...
07/02/2018 10:17

#Pílulassocioambientais - A arte voltada ao combate ao racismo

Por Sucena Shkrada Resk   Sensibilidade, criatividade e reutilização de recursos em forma de bonecas artesanais, com um propósito maior: combater o racismo, que nada mais é do que incentivar o respeito às diferenças e valorização das identidades de gênero, cor, raça e cultura... Nessas...
29/01/2018 17:06

#Saneamentoambiental – Tamanduateí, um rio metropolitano em agonia

Por Sucena Shkrada Resk  A nostalgia de recordar do Tamanduateí sinuoso e límpido (Tamanduá grande, em tupi), na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que já foi conhecido como Rio Piratininga, talvez esteja ainda nas memórias de bisavós e tataravós e de alguns relatos em bibliografias...
26/01/2018 14:56

#Saneamentoambiental – 2018: lixões e aterros controlados, uma realidade ainda gritante no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O Ano era 2010, e a  Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) trouxe a esperança de que a gestão pública brasileira, de uma forma geral, iria se redimir dos sucessivos erros no quesito infraestrutura, ao longo de décadas. Mas do papel à realidade,...
19/01/2018 17:52

#Saúdeambiental - O que tirar de proveito no Brasil do exemplo da mobilização pela recuperação da bacia hidrográfica do Tejo, na Europa?

Por Sucena Shkrada Resk Quem um dia viu o rio Tejo, o mais extenso da Península Ibérica (da Espanha a Portugal), com 1.007 km e cuja bacia hidrográfica ocupa 80,6 mil km 2, poluído, quase sem vida e seco em vários trechos, há alguns anos observa um esforço para o processo de revitalização, de forma...
17/01/2018 08:51

#Saúdeambiental - Até quando políticos não priorizarão solução para esgoto em agenda da gestão pública?

Por Sucena Shkrada Resk Falar sobre a situação do esgotamento sanitário no Brasil é um assunto “espinhoso”, imprescindível, mas que raramente faz parte da pauta de campanhas políticas nacionais, estaduais e municipais e de programas de gestão pública de boa parte de municípios deste Brasil de...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk