Reflexão: a desertificação e o consumo inconsciente, por Sucena Shkrada Resk

14/01/2013 19:39

Quando se trata do tema “desertificação”, a integração de ações antrópicas e processos naturais refletem o processo de fragilidade presente em vários pontos do planeta. O certo é que a série histórica demonstra que se intensificam os eventos extremos a cada década. Tanto as secas como as estiagens se estendem por mais tempo e hoje cerca de 40% da superfície terrestre é suscetível à desertificação, onde vivem 15% da população do planeta e estima-se que 92% da água consumida seja na agricultura. Esse é o cenário do estado do mundo próximo à realização da 2ª Conferência Científica da Convenção das Nações Unidas sobre Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos de Secas (UNCCD), em Fortaleza, CE, entre os dias 4 e 7 de fevereiro.

A situação do Brasil – inclusive por causa de sua dimensão continental - é um exemplo claro de que é necessário melhorar a retaguarda de adaptação e mitigação (redução de danos), tendo em vista que enfrenta desde o ano passado, a maior seca em quatro décadas. Vale registrar: desde o século XIX já existem registros a respeito. Não é um assunto de "ocasião".

Segundo o Ministério do Meio Ambiente, atualmente 16% do território correspondem a áreas em processo de desertificação. Essa grande faixa de aridez corresponde a 1.488 municípios, onde vivem 31.663.671 pessoas. Praticamente 20% da população do país, ou seja, um quinto dos habitantes. O mais gritante é que o quadro está logicamente associado à pobreza e pelo menos oito milhões de pessoas se encontram nessa situação.

Com a instabilidade climática ascendente, pesquisas científicas associadas com o tema demonstram o aumento da vulnerabilidade. Em um dos levantamentos expostos no livro “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” (Andrea Jakobsson Estúdio), o professor José Alves Siqueira, da Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), de Petrolina, PE, ressalta esse aspecto no artigo“A extinção inexorável do Rio São Francisco”, que representa 70% da oferta regional de água. O trabalho é resultado de ações em campo entre 2008 e 2012, quando ocorreram 212 expedições.

Ao mesmo tempo, vimos anúncios do governo de previsão de investimentos cada vez mais altos nas obras de transposição do São Francisco. De R$ 4,5 bi já se prevê R$ 8,2 bi até o final. Até agora já estariam concluídas 43% das obras, segundo o Ministério de Integração Nacional. A obra iniciada em 2007, com previsão inicial de término em 2011, tem novo prazo: 2015. Recebe duras críticas de especialistas e é alvo de investigação do Tribunal de Contas da União (TCU). Tem sucessivos atrasos em diferentes trechos, alguns tiveram de ser refeitos e outros são “flagrados” parados. O que se prevê, se o projeto for cumprido, é o benefício a 400 municípios em quatro estados. Mas as tendências apontadas pelas pesquisas científicas não são de seu futuro desaparecimento?

A remoção da vegetação da Caatinga é mais um forte fator de pressão, como é destacado no livro “Desertificação e Mudanças Climáticas no Semiárido Brasileiro”, do Instituto Nacional do Semiárido (INSA/MCTI). As monoculturas e extração extensivas de recursos naturais se somam ao ciclo climático, que impulsionam o esgotamento.

Com tantos poréns calcados nas dúvidas quanto ao futuro em algumas décadas, é incontestável que a escassez e desperdício se retroalimentam no problema da desertificação brasileira. Os processos de irrigação são as principais ações de consumo de água, que até hoje não foram otimizados. O país figura como 4º colocado no ranking mundial, atrás de China, Índia e Estados Unidos, de acordo com o estudo americano da Hoekstra, veiculado na publicação National Academy of Sciences (PNAS), no ano passado.

Quais caminhos de política pública estão sendo adotados e o quanto terão de efeito “remediador”? Hoje foi lançada a Política Nacional de Irrigação, que em seu texto diz: ... “...que o objetivo da nova lei é incentivar a ampliação da área irrigada no país, aumentando a produtividade de forma sustentável e reduzindo os riscos climáticos para a agropecuária.” ...e a proposta é ampliar o crédito para obtenção de equipamentos com uso eficiente da água, modernizar instrumentos e implantar sistemas de suporte à irrigação. Mas uma questão importante a levantar: a legislação está associada à educação para o consumo sustentável? A algo mais amplo que é a pegada hídrica?

Mais um anúncio, às vésperas da Conferência das Nações Unidas, é da catalogação e difusão de métodos de convivência com o Semiárido e de minimização de efeitos de secas prolongadas, a partir de março, por meio do lançamento de projeto do Insa/MCTI em parceria com a Rede de Articulação no Semiárido Brasileiro (ASA), com o apoio do Ministério do Meio Ambiente (MMA). O público-alvo são agricultores nordestinos e de parte de Minas Gerais.

Difícil dizer o quanto essas ações terão efeitos significativos na vida das milhares de pessoas que sofrem com a seca. Isso, tendo em vista como o formato do modelo de produção e consumo brasileiro acompanha essas medidas. Aquecimento global, mudanças climáticas...cenário de savanização previsto pelo 4º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas...São quadros instáveis que se concretizam dia a dia.
OS EXEMPLOS GLOBAIS

No outro lado do mundo, os eventos extremos também sinalizam tempos difíceis. A Austrália parece um caldeirão efervescente, com temperaturas acima de 50 graus. Nos últimos dias, por exemplo, um incêndio de grande proporção já causou danos no observatório australiano do espaço, na Nova Gales do Sul, entre outras regiões. Tempestades de “poeira” gigantescas são registradas no país.

Mais de 100 países sofrem com a desertificação mundialmente e desde 2010 vivemos na Década sobre Desertos e de Combate à Desertificação, instituída pela ONU. Mas o que se percebe, é que falta entrosamento dessa agenda com as decisões tomadas no âmbito da Biodiversidade e das Mudanças Climáticas. Sem essa postura, será difícil a construção de novos cenários mais positivos

Pesquisar no site

Blog

18/10/2017 09:33

Do papel à realidade, existe um “gap” na mitigação (redução de danos) e adaptação aos eventos extremos no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O que dizer sobre o “Velho Chico” agonizando, e pessoas e animais tendo de dividir a pouca água que resta, entre outras centenas de cenas desoladoras por todo país? Imagens que ficam gravadas para sempre. As manchetes sobre eventos extremos e desastres naturais no Brasil,...
16/10/2017 08:42

Ivaporunduva ecoa vozes pelos direitos quilombolas no Brasil

O Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk coletou dois depoimentos, há algumas semanas, em Eldorado, SP, de lideranças do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, em defesa dos direitos adquiridos pelas comunidades em todo o Brasil, com o decreto 4887/2003, que regulamenta a...
11/10/2017 11:35

Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro Maria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A...
09/10/2017 17:53

Justiça socioambiental: centenas de vozes ecoam homenagem póstuma à pescadora Nicinha, no Rio de Janeiro

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro  A pescadora Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida por Nicinha, liderança feminina do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no estado de Rondônia, defendia os direitos das populações afetadas pelo Complexo Hidrelétrico, no rio Madeira e seus...
25/09/2017 12:22

Gameleira traz um exemplo propositivo de afirmação identitária quilombola

PÍLULAS SOCIOAMBIENTAIS Por Sucena Shkrada Resk O Museu Gídio Veio, da Comunidade de Remanescentes Quilombolas de Gameleira, em São Tomé, no Rio Grande do Norte, é uma prova de que o senso de pertencimento étnico ao território pode ser ‘perpetuado’ por meio de ações proativas, que tragam o resgate...
21/08/2017 16:06

Ser quilombola: um diálogo com a memória ancestral

Por Sucena Shkrada Resk, em Eldorado (SP) - 20/08/2017 “Eu tenho uma memória ancestral que diz quem eu sou”, destaca o quilombola Ronaldo dos Santos, coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa afirmação nunca foi tão...
01/08/2017 11:40

Mobilização nacional defende comunidades remanescentes quilombolas contra retrocessos em direitos estabelecidos

Por Sucena Shkrada Resk Nos últimos anos, está sendo construído um cenário de retrocessos no campo dos direitos humanos no Brasil, que ferem a Constituição de 1988. Atualmente, uma causa que ganha visibilidade é a das comunidades remanescentes quilombolas. Isso acontece, porque o julgamento...
09/07/2017 18:10

O discurso da invisibilidade no contexto da injustiça socioambiental e no campo

Por Sucena Shkrada Resk Vivemos tempos de invisibilização acentuada de povos e comunidades tradicionais e indígenas promovida pelos modus operandi das políticas de infraestrutura, que ferem os direitos instituídos legalmente, no âmbito nacional e internacional. Algumas das agendas com maior número...
22/01/2017 18:21

O ônus socioambiental da contemporaneidade “Flex”

  Por Sucena Shkrada Resk   Quando dizemos que um indivíduo ou uma nação têm "palavra", o sentido implícito nesta frase implica retidão, ética e relação de confiança. Mas nos deparamos hoje na contemporaneidade com uma fragilidade que reflete um mundo em que leis, direitos instituídos e...
18/12/2016 10:34

Guerra na Síria: o retrato da desumanização no século XXI

Por Sucena Shkrada ReskQuem cura as cicatrizes das feridas profundas das guerras civis que marcam o século XXI, em especial, na Síria? Os acordos geopolíticos demonstram que impera a crueldade imposta pelas polaridades, que armam os lados opostos internos com aparato bélico e financiamento e causam...
12/12/2016 21:38

A legislação socioambiental sob o ataque da artilharia ruralista no Congresso Nacional

Por Sucena Shkrada Resk Agora, querem destruir as regras do licenciamento ambiental O desgaste político brasileiro na agenda socioambiental chega a beirar o surrealismo. Tal qual uma artilharia, com tanque de guerra, a bancada ruralista tem assumido o ataque, por meio de projetos que tramitam no...
05/09/2016 17:41

A longevidade em tempos de mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk Caso fôssemos fazer uma enquete para saber se as pessoas querem envelhecer em um planeta com o aumento da temperatura média acima de dois graus Celsius até o final do século com relação à era pré-industrial, muitas talvez não tivessem a noção do que essa pergunta significa....
28/08/2016 16:31

Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus

Por Sucena Shkrada Resk Mais de 15 mil focos de incêndio/queimadas, neste ano, colocam o Mato Grosso em primeiro do ranking no país atualmente. E boa parte destes registros ocorre no bioma amazônico ao norte e noroeste do estado. Colniza, a pouco mais de mil quilômetros de Cuiabá, é o município que...
26/06/2016 22:35

Mortes de ativistas socioambientais não podem se perder nas estatísticas

Por Sucena Shkrada Resk Muitos nomes em algumas lápides por este Brasil podem ser anônimos para a maioria de nós, mas representam o descaso cada vez maior com a vida de cidadãos e cidadãs, que fazem parte de comunidades indígenas, que pleiteiam a demarcação de terra que se estende em processos...
24/04/2016 14:53

Agrotóxicos – Parte 2: mais um projeto polêmico na Câmara

Por Sucena Shkrada Resk Quando imaginamos que está chegando o momento de bonança, vem mais uma notícia que exige um olhar atento da sociedade quanto à temática dos agrotóxicos e a tentativa de mudança de nomenclatura e regras, que ferem o direito do consumidor. Tramita na Câmara dos Deputados, o...
11/04/2016 12:44

Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

Por Sucena Shkrada Resk Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e...
03/04/2016 09:44

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o...
23/02/2016 20:34

Esgotamento sanitário mais uma vez relegado a segundo plano no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk Bactérias, vírus e parasitas, coliformes fecais, produtos químicos, metais pesados...  Sinto muito dizer, mas 42% da população convivem com este contexto de saneamento, porque não têm acesso a um direito mínimo, que é a coleta de rede de esgoto. O endereço dessa...
09/02/2016 07:27

As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta

Por Sucena Shkrada Resk Três meses se passaram e a conclusão a que se chega é que a expressão “tragédia anunciada” se materializou no acidente do rompimento da barragem de rejeitos minerais(de ferro) do Fundão, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton, , em...
31/01/2016 14:00

Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda

Por Sucena Shkrada Resk Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk