Quanto da Mata Atlântica matamos dentro e fora de nós?, por Sucena Shkrada Resk

30/07/2012 15:48

Mais de 120 milhões de pessoas vivem na Mata Atlântica (https://www.mma.gov.br/biomas/mata-atlantica), que ocupa 1.315.460 km2 em 17 estados, do PI ao RS (correspondente a praticamente o tamanho do País de Gales), num país de quase 192 milhões de pessoas. Essa região representa 70% do Produto Interno Bruto (PIB) nacional. Ao ter contato com esses dados, tudo aparece em termos superlativos. Mas o contexto é bem outro, quando nos deparamos com a realidade. Restam apenas 7,9% de remanescentes florestais em 98% do território pesquisado do bioma, que também apresenta o maior número de espécies da flora ameaçadas (276) no país, seguida pelo Cerrado (131), da Caatinga (46), da Amazônia (24), do Pampa (17) e do Pantanal (2), segundo o Sistema Nacional de Informações Florestais (SNIF).

Pau-Brasil, Imbuia, Canela – Sassafrás...Até quando elas subsistirão, entre tantas dezenas de outras espécies? E como o ecossistema funcionará sem elas, se o desmatamento continuar?

As informações contidas no Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica 2012 (https://www.sosma.org.br/projeto/atlas-da-mata-atlantica/), uma iniciativa da Fundação SOS Mata Atlântica e do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE/MCTI), dão a nítida sensação de que a nossa vida é subtraída a cada destruição, principalmente quando saímos das estatísticas da visão georreferenciada e começamos a olhar ao nosso redor. Afinal, nossa "eco" (casa) está por um fio e não nos damos conta disso...

As condições mais críticas se encontram nos estados de Minas Gerais, Bahia, Mato Grosso, Santa Catarina e Espírito Santo. E os municípios que lideram esse ranking são: Águas Vermelhas (MG), Canavieiras (BA) e Jequitinhonha (MG). Os três tiveram respectivamente 1.367 ha, 1.337 ha e 1.270 ha devastados. O mais incrível é que essas florestas estão sendo transformadas em carvão e substituídas por eucaliptos (quando ocorre), no chamado reflorestamento econômico, para no final virarem bens de consumo novamente. E quem se preocupa em recompor a mata nativa? Em outros locais, a monocultura e a pecuária extensivas comprometem os solos.

Aí se eleva a importância do encaminhamento do novo Código Florestal sancionado recentemente e sua nova redação que voltou à apreciação do Congresso (que deverá ter novas propostas de emendas analisadas); ressurgem no contexto da Mata Atlântica e dos demais biomas com mais força com relação ao real significado de reserva legal e de área de preservação permanente (APP).

Outra questão colocada em xeque é o real significado do“manejo florestal sustentável”. Ao recorrer às informações do Serviço Florestal Brasileiro (SFB), a explicação é a seguinte: ‘administração da floresta para obtenção de benefícios econômicos, sociais e ambientais, respeitando-se os mecanismos de sustentação do ecossistema objeto do manejo e considerando-se, cumulativa ou alternativamente, a utilização de múltiplas espécies madeireiras, de múltiplos produtos e subprodutos não-madeireiros, bem como a utilização de outros bens e serviços florestais’. E o ponto-chave na realidade: há ainda um abismo quanto ao respeito dos mecanismos de sustentação do ecossistema.

Com essa série de constatações, outra mais contundente evidencia que além das dezenas de espécies ameaçadas da flora, desde o período do Descobrimento, outras centenas da fauna estão identificadas com extintas na natureza, mas criadas em cativeiro (EW) ou extintas (EX), e viraram objeto de literatura e imagens retratadas em nanquim e, por muitas vezes, nem isso. Algo que, de alguma forma, deixa um vazio, em todos os sentidos.

Entre as que constam no Livro das Espécies da Fauna Brasileira Ameaçadas de Extinção, estão desde a libélula (Acanthagrion taxaense) a arara-azul-pequena (Anodorhynchus glaucus). Em praticamente 50% dos casos a extinção foi constatada em unidades de conservação (UCs), o que demonstra um desafio maior, na implementação e manutenção das mesmas.

E para tentar reverter o processo de perigo de extinção, algumas espécies estão na lista dos Planos de Ação Nacionais para a Conservação das Espécies Ameaçadas de Extinção ou do Patrimônio Espeleológico (PAN), como a ave Mutum do Sudeste, os mamíferos Muriqui e os Ouriços Pretos.

Eu, que moro em São Caetano do Sul (SP), não me sinto mais confortável, por causa disso, de não estar hipoteticamente no olho do furacão. No estado, por sinal, foram desmatados 216 ha, no período. E a razão é simples. Não é possível analisarmos essa situação com bairrismos ou isoladamente. O mercado é global e, de alguma forma, todos temos nossa parte nessa destruição, afinal somos consumidores e alimentamos ativamente ou passivamente a prática predatória de extração e/ou devastação (mesmo que involuntariamente).

Se soubéssemos todos os caminhos do que chega às prateleiras realmente ficaríamos assustados ou não? Esse é o meu receio. O quanto a conscientização é capaz de mudar atitudes em um modelo de desenvolvimento permissivo.

Quando retrocedemos nos últimos 25 anos, o comprometimento da Mata Atlântica, no período, foi 1.735.479 ha. Ano a ano o rankeamento sofre alterações nas primeiras colocações, mas o fato é incontestável: o problema continua. Por quê?

Todos os caminhos levam à educação ambiental e ao padrão de produção e consumo. Como se aprende a entender o valor da conservação e da vida em toda a sua extensão de biodiversidade? Como compreender que o ar que respiramos, a brisa, a chuva, a harmonia das aves, que nos encantam, ou as centenas de cores verdes de nossas folhagens e do colorido de nossas flores, dependem de nós...? Que o alimento, a fitoterapia, o que vestimos e onde vivemos dependem dos recursos naturais?

Como entender a importância dos pequenos sistemas agroflorestais, da necessidade de implementação de planos de manejo em unidades de conservação, da composição dos corredores ecológicos, do que significa manter as matas ciliares, os manguezais e as restingas? E por que o oceano Atlântico depende da harmonia de tudo isso...e nós dependemos dele?

Cada animal, do unicelular ao maior dos mamíferos, pertence à nossa família nessa cadeia. Alguém tem dúvida quanto a isso? Já nos perguntamos de onde a terra se alimenta e quem se alimenta da terra? Ou de onde nossas águas emergem para nos possibilitar a vida? Então, novamente o porquê ressurge forte.

O modelo de consumo, que corresponde às nossas pegadas ecológica, hídrica...sinaliza o que está errado nessa matemática da destruição. As respostas, em um primeiro momento, parecem fáceis: precisamos consumimos para viver. Mas quando refinamos os questionamentos, outro cenário se forma. E para viver necessitamos de quanto da natureza? E o que ela pede de mim em troca?

E a violência de saber que restam 7,9% dos remanescentes de Mata Atlântica toma as suas devidas proporções. Dá até um arrepio imaginar como somos vorazes ou apáticos diante dessa constatação. E o medo de não ouvir mais o som do bem-te-vi, da maritaca, do vento soprando, de não sentir mais o orvalho e só encontrar a terra seca, com sulcos tão profundos, que dela só se extrai poeira, que nos cega diante da realidade. E pior – de não ouvir mais a nossa respiração. Enfim, depois de tantos questionamentos, quanto da Mata Atlântica deixamos morrer dentro de nós em cada atitude do dia a dia?

Pesquisar no site

Blog

25/01/2019 14:43

Um olhar mais atento para os caminhos da habitação popular/social

Por Sucena Shkrada Resk* A população cresce ano a ano e o déficit habitacional segue a mesma trajetória no Brasil e é superior a 7,7 milhões de moradias necessárias para suprir essa demanda por imóvel próprio. Os dados são baseados em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do...
21/01/2019 14:10

Narrativa de agricultora familiar nos leva à valorização ecossistêmica e humanística

Por Sucena Shkrada Resk* Ouvir a narrativa de agricultores familiares sempre é algo revigorante e que nos leva à ligação afetiva à terra, à água, à fauna e flora. Estimula nossa recepção sensorial e dá sentido à máxima de que quanto mais simples, mais estamos sintonizados com o equilíbrio...
16/01/2019 14:48

Os oceanos apelam todos os dias: #plásticosnão

Por Sucena Shkrada Resk* A imagem é desconcertante e dramática. Olhamos de um lado e de outro e os oceanos têm mais plásticos do que peixes. O ano é 2050. Cena de filme de ficção? Longe disso. Este é um prognóstico mais próximo do real descrito em estudo da fundação da navegadora Ellen MacArthur e...
14/01/2019 11:21

Temas “Refugiados” e “Migrantes”: não existe geopolítica baseada em visões unilaterais

Por Sucena Shkrada Resk* Em um mundo em que a maioria das pessoas e “nações” aspiram pela manutenção da democracia e da paz mundial, as relações diplomáticas internacionais exigem como alicerce o constante diálogo e o princípio de que as decisões sejam o mais consistentes e equilibradas para a...
10/01/2019 16:03

O Quênia e seus exemplos inspiradores: da resiliência ao socioambientalismo

Por Sucena Shkrada Resk * Sim. Exemplos inspiradores vêm do leste do continente africano e especialmente de países como o Quênia, e não se restringem a resultados na tradicional corrida de São Silvestre por aqui e chegam à esfera socioambiental, além do fato de Nairobi ser a cidade-sede do Programa...
09/01/2019 14:09

O Princípio da Precaução tão urgente e ao mesmo tempo, tão esquecido

Por Sucena Shkrada Resk* Memória, ah, essa memória histórica, que dá sentido e é importante para começos e recomeços. Nesse recuperar do tempo, o Princípio 15 – da Precaução (precautio-onis, em latim), instituído da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), que...
29/11/2018 15:20

Conservação de Paranapiacaba e entorno frente a projetos de novos empreendimentos

Por Sucena Shkrada Resk* Empreendimentos que por sua natureza econômica causam passivos ambientais devem obrigatoriamente, por determinação legal, antes de serem licenciados, esclarecer da forma mais transparente possível todos os cenários possíveis do comprometimento relacionado à sua atuação, que...
28/11/2018 16:54

A miopia de gestão sobre as mitigações e adaptações às mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk* Às vésperas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima (COP 24), o Brasil desenha um quadro desestruturador das medidas quanto a mitigações e adaptações às mudanças climáticas. Diplomaticamente falando, a desistência da...
08/11/2018 15:43

Vivemos um hiato temporal brasileiro socioambiental

Por Sucena Shkrada Resk* A agenda socioambiental brasileira sofre, nas últimas décadas, de um anacronismo crescente, no qual o que muito do que está escrito nas legislações nacionais e, inclusive, em tratados internacionais ratificados pelo país, não se configura na prática da realidade diária....
08/10/2018 12:48

2018: a crônica ambiental dos 30 anos

Por Sucena Shkrada Resk  O ano de 2018 é simbólico por representar o aniversário de 30 anos de importantes acontecimentos na trajetória do ambientalismo brasileiro. Apesar de não ser totalmente infundado o velho ditado de que no Brasil temos memória curta, essas histórias ainda pulsam, pois...
26/08/2018 16:33

Refugiados: os diversos contextos das fronteiras humanitárias

Por Sucena Shkrada Resk* As relações humanas trafegam em linhas tênues que reúnem processos culturais centenários, questões socioeconômicas, religiosas e limites geográficos, que integram a geopolítica, que ora se fundem, e ora segregam. Historicamente é isto que vimos em diferentes partes do mundo...
14/08/2018 18:30

O mercúrio nas veias da Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre “mercúrio” fosse um assunto somente de interesse da pauta astronômica? Voltando à realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contaminação pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em...
11/07/2018 18:00

Entrevista da semana - Defensor público fala sobre o desafio do combate ao uso de agrotóxicos em São Paulo e em todo o Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O advogado Marcelo Carneiro Novaes, defensor público do Estado de São Paulo, que integra a coordenação do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, que começou a se reunir em novembro 2016, é o entrevistado desta semana do Blog Cidadãos do Mundo...
17/06/2018 14:35

Refugiados: uma situação que reflete o modelo de desenvolvimento de uma humanidade adoecida

Por Sucena Shkrada Resk Século XXI em andamento. O que, em princípio, seria um período a evocar um status ‘positivo’ de modernidade, revela um momento histórico em que lacunas cíclicas de humanização são refletidas na quantidade de refugiados pelo planeta, que segundo o Alto Comissariado das Nações...
14/05/2018 14:29

PANCs: um universo da segurança alimentar a explorar

Por Sucena Shkrada Resk  O tema da segurança alimentar é rico em multiplicidades de enfoques, sendo que um deles trata do reconhecimento da importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O termo foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, resultando no livro...
07/05/2018 14:08

O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk Desmatamento, mudanças climáticas e consequentemente a facilitação para um aumento de vetores de doenças infectocontagiosas são o cenário perfeito, que está sendo construído, nos últimos anos, na Amazônia brasileira, onde um dos indícios desta pressão é a ascendência de...
20/04/2018 17:36

Século XXI: a cartografia da violência no campo

  Por Sucena Shkrada Resk   O mapeamento do processo de violência no campo revela um Brasil com janelas de oportunidades perdidas sob um modelo perverso, que tem no centro a disputa da terra. Os estados do Pará (21), Rondônia (17), Bahia (10), Mato Grosso (9), Amazonas (3), Minas...
04/04/2018 13:27

O simbolismo do adeus à Sudan, o último rinoceronte-branco do norte (macho) do planeta!

Por Sucena Shkrada Resk O ancião Sudan, no alto dos seus 45 anos e cerca de 2,3 mil quilos e 1,82m de altura, não venceu a batalha que travava contra uma infecção que atingiu sua pata direita traseira, no mês de março. O último exemplar macho de rinoceronte-branco do norte do planeta foi submetido...
03/04/2018 09:05

#Pulverizaçãoaérea: Sabemos realmente as externalidades negativas do ciclo do que comemos?

Por Sucena Shkrada Resk O quadro de vulnerabilidade a que somos expostos com a “insegurança” alimentar e ataque aos direitos humanos mais básicos é cada vez maior no Brasil. Inúmeros casos de sobrevoos de pulverizações aéreas de agrotóxicos são notificados pelo país, mas a maioria de nós, sequer...
27/03/2018 12:29

Jogo de titãs: O implacável Antropoceno x a resiliência ecossistêmica

Por Sucena Shkrada Resk  Hoje 75% da superfície terrestre estão impactadas pelas atividades humanas e a projeção é de que essa destruição atinja 85% até 2050  e já afeta pelo menos 3,2 bilhões de pessoas no planeta. Alguém acha pouco? Mais de 100 pesquisadores de 45 países da Plataforma...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk