#Protagonismofemininoindígena: da comunicação à incidência política

05/01/2018 08:59

Entrevistada da semana: Telma Taurepang

Por Sucena Shkrada Resk

No Brasil e em outros países da América Latina, o papel da mulher indígena se destaca cada vez mais. No universo da comunicação, existe a iniciativa Comunicadoras y Realizadoras Indígenas, que tem incentivado este protagonismo na AL. Em abril passado, uma iniciativa interessante foi a criação da Agência de Notícias de Mulheres Indígenas e Afrodescendentes, a Notimia, no México, que está em pleno vapor. No Peru, está ocorrendo o fortalecimento da Red de Comunicadores Indígenas del Perú. Aqui no Brasil, mídias indígenas também têm consolidado a participação feminina, como na Rádio Yandê e na área de cinema, no projeto Vídeo nas Aldeias. Existe um processo ascendente, neste sentido, que não tem volta.

A força feminina na incidência política teve um capítulo importante no Brasil, durante o Acampamento Terra Livre (ATL), de 2016, em Brasília, com a participação de mais de 1 mil mulheres indígenas, com uma pauta extensa que envolve saúde, educação, segurança alimentar, preservação de valores ancestrais, questão de gênero e demarcação de terras, e a crescente violência contra indígenas, neste contexto e empoderamento político e econômico, entre outras. Um documento, resultado da contribuição de 282 mulheres de 104 povos, constituiu uma pauta nacional de demanda no campo de direitos, que foi entre à ONU Mulheres.

Em 2016, A Rádio Yandê chegou a fazer uma pequena biografia da história de 100 personagens femininas indígenas, que são uma amostra desta pluralidade de vozes. Postumamente também são reconhecidas mobilizadoras importantes neste processo histórico, como Rosane Kaingang (que faleceu em 2016), que foi homenageada no ATL. 

Hoje, entre esse grupo que cresce gradativamente, estão Sônia Guajajara, do MA, coordenadora-executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB); Joênia Wapichana, primeira advogada indígena formada no Brasil, do Conselho Indígena de Roraima (CIR); Valdelice Verón, liderança Guarani-Kaiowá, no MS; Francinara Soares Baré, coordenadora-executiva da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) e Telma Taurepang, coordenadora da União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira (UMIAB), como também lideranças femininas do povo Munduruku, PA e a xamã Rucharlo Yawanawá, AC. No espaço das artes e etnomidiático, Renata Tupinambá, roteirista e produtora; Naine Terena, comunicadora e especialista em arte e etnomídia, Patrícia Ferreira, do povo Mbyá-Guarani, RS, uma das cofundadoras do Coletivo Mbyá-Guarani de Ci­nema, e centenas de milhares de mulheres que são referências às suas comunidades e povos.

 Telma Taurepang - Arquivo pessoalSão necessárias muitas entrevistas e matérias para poder tratar dos papeis desempenhados por estas indígenas, com suas peculiaridades e contribuições, que exige fôlego e tempo. Nesta semana, o Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, tem como entrevistada convidada, Telma Taurepang, coordenadora da UMIAB. Seu povo está concentrado em Pacaraima e em terras indígenas no estado de Roraima fronteira com a Venezuela. Por seis anos, foi secretária geral do Movimento de Mulheres Indígenas do CIR.

Hoje Telma Taurepang também participa do Conselho de Mulheres da COICA e integra o projeto A Voz das Mulheres Indígenas, na Organização das Nações Unidas (ONU). “...Quero transmitir por meio de minha fala, uma imagem de uma mulher indígena que não quer usar gravata, e que não tem medo de colocar sua cara no mundo e falar da realidade que a sociedade precisa ouvir...”. Vejam a íntegra da entrevista:

Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk - Hoje qual é a importância da incidência política feminina indígena no Brasil?

Telma Taurepang – A importância é o fortalecimento dos povos indígenas, de um modo geral, de ampliar forças para garantir os direitos adquiridos e não respeitados, de ocupar a área política em todas as suas instâncias, para que tenhamos voz e vez.

 

Blog Cidadãos do Mundo - Quais são as principais ações desenvolvidas pela União das Mulheres Indígenas da Amazônia Brasileira? E suas bandeiras de luta?

Telma Taurepang – São seminários, oficinas, rodas de conversa e fortalecimento das assembleias dos povos indígenas do Brasil, nas quais sempre estamos em conjunto com o movimento indígena e suas decisões, para que os diferentes povos tomem conhecimento do que acontece em seu entorno. Integrei o grupo de mulheres no Acampamento Terra Livre e em setembro de 2016, participei da delegação indígena brasileira em Genebra, na 33ª Sessão do Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas (UNHRC), para nos mobilizar no combate à violência contra os povos indígenas. Na UMIAB, nossa bandeira de luta é que os direitos das mulheres indígenas sejam respeitados, como um todo.

Blog Cidadãos do Mundo - Como a mulher indígena contribui para a cosmovisão indígena relacionada aos patrimônios imateriais e espirituais?

Telma Taurepang – A mulher indígena já nasceu com o dom de ter uma percepção maior, entre seu povo, de cuidar, de ter um olhar diferenciado ao cuidado com a mãe Terra; como também, de conversar com os animais e suas plantas e de preservar a família. Sim, há muita diferença entre os povos indígenas, mas o legado é o mesmo, de defender seu povo e sua raça, no direito que hoje o assegura perante uma Constituição que teve a participação dos povos indígenas, no contexto de Direito.

Blog Cidadãos do Mundo - Como é tratado o tema "feminismo" no universo indígena?

Telma Taurepang -
O termo feminismo para as mulheres indígenas é secundário. A mulher indígena é mulher em sua essência. Somos filhas de uma única mãe, a Mãe Terra. Para nós, aquela que está dentro da aldeia luta sempre pelo coletivo, para assegurar os direitos para todos.

Blog Cidadãos do Mundo - Em muitos povos, há as figuras das "mulheres guerreiras indígenas". O que pode dizer a respeito desta representatividade nos dias de hoje?


Telma Taurepang - A mulher indígena é uma guerreira nata. Ela não precisa ser cacique ou uma liderança dentro da comunidade, pois já nasce com a força de cuidar do bem-viver de sua aldeia. Está sempre à frente como parceira, no conhecimento tradicional da medicina de curar, com a própria espiritualidade dela. Quando existe, por exemplo, uma retomada de posse de terra, quem está à frente? As mulheres junto com os seus filhos, seus jovens. O esposo cacique ou liderança (tuxaua) também a consulta. 

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