Políticas fragmentadas e mudanças climáticas intensificam crise na África, por Sucena Shkrada Resk

07/08/2012 13:28

07/08/2012 13:28
O grau de vulnerabilidade pelo qual passam os cidadãos de vários países da África se intensificou nos últimos meses, com o quadro de seca e consequente desertificação. Países do Sahel (Chade, Mali, Mauritânia e Níger, Senegal e as regiões do norte do Camarões e Nigéria), do Chifre da África (Somália, Djibuti, Etiópia e Eritréia), o Congo, a Costa do Marfim... passam por uma crise humanitária sem precedentes. Somado a isso, guerras civis - principalmente no Congo, Somália e Senegal, além de registros de violências sexuais em algumas localidades. A desnutrição crônica é real e tem como principais vítimas as crianças.

O "crescimento na economia" africana registrado nos últimos anos (5,2% em 2011), conforme o Relatório do Desenvolvimento Humano de África 2012: em Direção a um Futuro de Segurança Alimentar, do Programa das Nações Unidas sobre Desenvolvimento (PNUD), simplesmente na prática é destoante com o quadro de miserabilidade. Como justificar que praticamente 900 milhões de pessoas estejam subnutridas?

Ao ler as notícias sobre a situação atual dessas mulheres, homens e crianças e fazer um paralelo com o que se torna chamada de capa em dias seguidos pela mídia a fora, eu me pergunto quando iremos acordar para o sentido do que realmente importa na agenda da "sustentabilidade". O Fundo Clima (acordado em Copenhague em 2009) até agora não saiu do papel. A Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (COP18), em Doha, no Qatar, se aproxima e o que será diferente nas mesas de negociações?

A proposta foi de se destinar o valor de US$ 100 bilhões anuais em financiamento climático até 2020 para facilitar a adaptação de países em desenvolvimento às mudanças climáticas. Até agora não se decidiu de onde serão as fontes. Entre 23 e 25 de agosto haverá uma rodada prévia a respeito, entretanto, o cenário de decisões ainda é complexo com a crise econômica nos EUA e Europa.

O Programa Mundial de Alimentos (PMA) , da ONU, não dá conta de suprir essa escala cada vez maior de necessidades (emergenciais). Ao mesmo tempo, é alarmante que 1,3 bilhão de toneladas de alimentos sejam desperdiçadas no mundo (mais da metade do que é produzido). Um estudo da agência da ONU para Agricultura e Alimentação (FAO) aponta que em países mais pobres ou em desenvolvimento, a maior parte dos alimentos é perdida durante o processo de produção e transporte. Já nos mais ricos, ocorre após a compra pelos consumidores.

Ainda é necessário lembrar do flagelo sobre o Haiti, nas Américas, e a Guerra Civil, na Síria, em que há um número aproximado de três milhões de pessoas que necessitam de ajuda humanitária, nesse contexto, por um período de meses. Tudo isso reflete uma dinâmica de mundo "adoecida". O êxodo de pessoas que tentam escapar das guerras civis, das ditaduras e da fome se alastra pelo mundo. Segundo o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), os refugiados em 2011 da Somália foram 1,1 milhão, do Sudão (500 mil) e República Democrática do Congo (491 mil).

Não há campos de refugiados suficientes (como um paliativo,claro) a todo esse contingente de pessoas...No Quênia, por exemplo, a situação está no extremo há muito tempo...Em 2011, chegaram a se deslocar para lá 566,5 mil pessoas e ao Chade, 366,5 mil.

O ciclo desagregador da desnutrição está associado a quadros epidêmicos, como do cólera. A dificuldade de colheitas cria um mercado especulativo em que o valor dos alimentos básicos encarecem e se soma em muitos países a regimes ditatoriais e a guerras civis.

No Níger, de acordo com a organização humanitária Oxfam, os aumentos chegam à faixa de 50% ao praticado em 2010. Lá estima-se que cerca de 8 milhões de pessoas estão afetadas.

As relações internacionais no campo da cooperação não conseguem suprir o mais básico: além dos gêneros de primeira necessidade, auxiliar na reintegração da condução política transparente e humanitária desses países...da ajuda técnica para as culturas de subsistência, de sistemas de irrigação e de saneamento.

Há ações das mais variadas, mas ainda muito aquém da necessidade real. Aqui no cone Sul, o presidente boliviano, Evo Morales, por exemplo, lançou em junho, a proposta mundial da "quinua" ser uma estratégia contra a fome, tendo em vista, que o grão se aclimata em outras regiões, além dos Andes. O Brasil mantém com a África, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA-África), que deverá ser desenvolvido em médio prazo inicialmente no Níger, em Maluí, Moçambique, no Senegal e na Etiópia.

Algumas ações isoladas em diferentes países não dão conta dessa desestruturação. Em nações, que sofrem menos que as mais vulneráveis (mas que enfrentam graves problemas), como Moçambique, está havendo investimento em psicultura.

Enquanto isso, o homem se vangloria de ir a Marte e não consegue administrar o mais elementar, que é a vida na Terra.

 

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