Sucena Shkrada Resk


Parte 17: A saúde indígena no centro da pauta, em tempos de Covid-19

30/06/2020 14:39

Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo, Angela Amanakwa kaxuyana, coordenadora-tesoureira da COIAB, expõe a situação crítica vivenciada pelos povos indígenas na Amazônia frente à pandemia. Esta é a primeira de uma série de três entrevistas no blog a respeito desta pauta.

Por Sucena Shkrada Resk*

Angela Amankawa kaxuyana - DivulgaçãoDia após dia, durante esta pandemia da Covid-19, o anúncio de perdas de vida de jovens a anciãos indígenas de diferentes povos traz à tona a dor de um luto incessante. O recente estudo divulgado pela Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (COIAB) em parceria com o Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM) aponta que a mortalidade pela doença na região é maior que as médias regional e nacional. Na relação de número de óbitos indígenas por 100 mil habitantes, a proporção é a seguinte: 150% mais alta do que a média brasileira, e 20% acima da registrada na região Norte.  Em levantamento divulgado em 29 de junho, são 490 casos suspeitos, 6.482 confirmados que atingiram 91 povos e 337 óbitos em 56 povos. Esses dados têm como fonte a Secretaria de Saúde Indígena (SESAI) e da própria rede da COIAB.

Os lamentos por essas mortes se traduzem em choros copiosos, algumas lembranças, quando possível, de rostos retratados em fotos, falas em vídeos, e narrativas de histórias  sobre a importância de cada indígena que fez esta passagem abrupta. Em especial, no caso da morte dos mais velhos, há uma comoção que transcende. Em entrevista ao Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, Angela Amanakwa kaxuyana (do povo Kahyana), coordenadora-tesoureira da COIAB, expõe qual é a situação hoje vivenciada durante  esta crise humanitária, que pode ser definida como civilizatória, por meio de um depoimento realista, impactante e carregado de sensibilidade. A sua narrativa traz esta pauta ao interesse de toda a sociedade e faz com que não seja possível se alienar diante de uma questão crucial, que não pode ser remediada: da cobrança aos governantes de ações proativas com relação à saúde indígena no Brasil.

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é a situação da retaguarda da saúde indígena hoje com a epidemia da Covid-19, principalmente na Amazônia, onde há maior número de casos no país?

Angela Amanakwa kaxuyana – O enfrentamento tem sido feito principalmente por meio das organizações indígenas. O movimento está na linha de frente com suas bases locais no combate ao novo coronavírus; seja na articulação na intensificação de informação sobre o perigo e a gravidade da situação nas aldeias, com alguns informativos nas línguas dos povos, como também em um processo macro de articulação para cobrar e monitorar os dados. A própria COIAB tem registrado um número alto de mortes entre a população indígena. Essas medidas acontecem, além das estratégias locais de confinamento nos territórios indígenas, em que cada povo utiliza seus planos emergenciais. Alguns povos estão isolados, não só na aldeia, mas dentro das matas, utilizando os próprios conhecimentos e medicinas tradicionais, como um forte aliado para somar ao combate à doença. O que falta são planos emergenciais do estado efetivos voltados aos povos indígenas, que sejam de atendimento primário às aldeias. É preciso o aumento das equipes do Distritos Sanitários Especiais Indígenas (DSEI), que estão dentro da estrutura do Ministério da Saúde. Muita gente adoeceu e tem poucos para atender uma demanda grande de casos. O que chega são ações fragmentadas e insuficientes para a realidade. 

Blog Cidadãos do Mundo - Qual é o impacto para estes diferentes povos das mortes de parentes, principalmente anciãos, devido à doença? Pode explicar os diferentes ângulos: das perdas material e espiritual?

Angela Amanakwa kaxuyana - O impacto, como em toda a sociedade, está sendo da perda de pessoas queridas, de membros das famílias. Muito além desta perda, que tem uma dimensão muito grande e não há como fazer outro comparativo, há a perda da história. O novo coronavírus tem atingido os mais velhos, de uma forma violenta. Quando morre um idoso, um ancião, você perde uma parte da história do povo, que pertence a esse ser, vai embora nossos conhecimentos com eles, nossa biblioteca. Então, o impacto é muito grande. Em termos de números, quando se fala de todos os atingidos no Brasil, parece que os comprometimentos dessas vidas é pouco, mas não é. Os indígenas representam 1% da população brasileira. Isto significa menos de um milhão de pessoas. Imagina você ter uma perda significativa em uma população que já é reduzida. O que nos preocupa é que há o avanço da doença de forma tão acelerada e a ausência de uma ação emergencial de enfrentamento por parte do governo.

Eu posso falar mais do contexto da Amazônia. Nos nove estados da Amazônia, estamos com estes números de casos e óbitos crescentes, sem considerar os dados que não estão sendo computados e monitorados dentro dos territórios indígenas. Já atinge mais da metade dos povos da região (91), até o dia 29 de junho. O estado que tem mais número de morte é do Amazonas, seguido pelo Pará. Agora, o aceleramento de mortes é em Roraima.

Então, sobre a perda dos anciãos, é uma dor inexplicável, que envolve a dor de quem já perdeu alguém mais velho, a sua base. Além da falta da presença, há a perda dos conhecimentos tradicionais, da memória, da vivência. Eles são uma referência ao povo, quando se fala do legado, da própria resistência de que nós, povos indígenas, temos tido por todos estes anos frente, não só às doenças, mas aos ataques. A perda espiritual é muito maior do que qualquer outra perda e isto impacta qualquer ser humano.

Blog Cidadãos do Mundo - Qual o posicionamento da COIAB a respeito à pandemia?

Angela Amanakwa kaxuyana – É o posicionamento como de qualquer sociedade. Estamos assustados diante do avanço tão avassalador nos povos indígenas. São tantas perdas, e estamos estarrecidos diante da impotência que temos tido, enquanto líderes. O que a nós cabe, de estar vigilante, de estar monitorando e cobrando, temos feito. A pandemia não é uma questão de posição, de opinião e política. É um fato que está acontecendo no mundo todo. Entre indígenas, entre negros, entre brancos, entre ricos e pobres. É uma situação que chegou preocupante. Infelizmente os povos indígenas estão sendo atingidos em cheio, sem nenhuma estratégia para o enfrentamento desse processo.

É preciso intensificar a atenção especial aos povos indígenas. Historicamente somos colocados em situação de vulnerabilidade diante destas doenças que não conhecemos e não sabemos como lidar e curar. É um desafio muito grande para a sociedade do mundo; então, imagine, para nós. Temos de saber como sobreviver diante de um vírus desconhecido, trazido de fora. O avanço dele dentro dos territórios indígenas é um genocídio em curso. Precisamos de uma atenção do Estado e reação da própria sociedade brasileira em relação a esta situação.

Pouco se fala sobre qual é a verdadeira preocupação da sociedade em relação à população indígena. Muitas perguntas fazem para a gente, sobre qual é o nosso papel e reação e providências que temos encontrado. Na verdade, eu gostaria de perguntar à sociedade brasileira qual é a sua posição quanto ao avanço da pandemia entre os indígenas? Quais são as medidas que o Estado brasileiro tem tomado para que o avanço não piore? O que estas mortes de indígenas, que são parte da história deste país, impactam na vida da sociedade? Porque me parece que o número elevado de mortes não tem significado, parece que é mais um número. E não é mais um número; estamos falando de um impacto significativo em uma população que foi reduzida historicamente a 1º da população brasileira. Isso que nos assusta muito. A gente se sente desamparado neste sentido de que esta pauta não esteja sendo motivo de atenção e alarme. Há falta de política pública eficiente nesta cobertura da saúde indígena.

Um ponto que deveria ser uma estratégia para o tratamento deste problema é combater o sub-registro, que é muito grande, quanto aos indígenas afetados pela Covid-19, tanto os aldeados como os que estão em contexto urbano. Os registros na SESAI não correspondem ao número na realidade. Isto impacta no enfrentamento. Tem região que a comunidade está afetada e não aparece em lugar nenhum de dados, se não for o próprio movimento a divulgar ou a comunidade se manifestar.
 

Mapa sobre a Covid19 - COIAB - 28.06.2020

*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

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