Paranapiacaba: uma leitura para sua conservação, por Sucena Shkrada Resk

27/07/2012 10:23

Paranapiacaba, em Santo André, é um dos destinos ao qual mais gosto de retornar até hoje, desde 2002, quando a "descobri", como repórter do Diário do Grande ABC (onde trabalhava à época até 2005). A cada matéria feita por lá, voltava impregnada de história e certa da importância de sua conservação.

É um misto de exuberância da natureza e história. O Distrito faz parte do que restou da vila inglesa (em sua parte baixa principalmente) e da antiga estação de trem com seu "big ben". Integra uma região com importante corredor ecológico de Mata Atlântica, concentrado em uma Reserva da Biosfera do Cinturão Verde reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Esse cenário peculiar data do período da antiga São Paulo Railway, a partir do século XIX, composto por casarios de madeira e alguns de alvenaria, que tem seu charme acentuado, quando é encoberta pela neblina. Uma época em que Barão de Mauá abria frentes da política ferroviária no país.

Conservar patrimônios natural e histórico, entretanto, não é tarefa fácil se não houver gestão participativa e sensibilização da pequena comunidade local e da sazonal, que vai para lá em finais de semana ou períodos festivos, como Festival Gastronômico do Cambuci, em abril; e o Festival de Inverno, que ocorre no mês de julho.

Devido a esse caráter original, que envolve também a história da estrada de ferro paulista (Santos-Jundiaí) e brasileira (extinta Rede Ferroviária Federal), Paranapiacaba é tombada na esfera federal, estadual e municipal. Por isso, qualquer intervenção, tem de ser analisada do ponto de vista de restauro, para que não haja descaracterizações... Lá está o Museu Ferroviário, com sua Maria-Fumaça restaurada - "A Velha Senhora...", apetrechos de época. Por outro lado, com o passar das décadas, os trens de passageiros "mais modernos", que desciam até Valongo em Santos, deixaram de circular e o trecho ficou destinado a transporte de carga pela MRS Logística, que segue ao porto. A tentativa de revitalização é uma história longa e com desfecho ainda impreciso.

Nos últimos anos, conseguiram retomar algumas viagens de passageiros até Paranapiacaba, somente aos domingos (quinzenalmente). O trem sai da Estação da Luz às 8h30 e retorna de Parapiacaba para lá, às 16h30, com o custo de R$ 32. Os passageiros também podem pegá-lo na parada na Estação Prefeito Celso Daniel (Santo André), a R$ 29, que é no meio do trecho. Mas como a procura é acentuada, atualmente só tem vaga a partir de setembro, segundo o atendimento da Companhia Paulista de Trens Metropolitanos (CPTM), que opera a linha...

Parcerias público-privadas ocorreram, em especial, em edificações com caráter "coletivo" e público, como o Castelinho (antiga residência dos engenheiros-chefes da estrada de ferro), o Clube União-Lyra Serrano e o Mercado Municipal. Mas as casas (que abrigavam os antigos ferroviários) são as que mais sofrem a ação do tempo e com a falta de manutenção...Os imóveis são ocupados desde 2002 por permissionários, que pagam aluguel à Prefeitura de Santo André (e os mesmos mudam de tempos em tempos). Geralmente são pessoas que não têm grande poder aquisitivo e apresentam dificuldade de arcar com custos na conservação.

Ao mesmo tempo, há necessidade de esforço contínuo para que não se torne uma localidade fantasma. Isso porque na baixa temporada, muitos empreendedores locais - que mantêm desde pequenas mercearias, restaurantes a hospedarias no estilo home & breakfast e empresas de ecoturismo sentem dificuldade na geração de renda. Exige uma concepção mais acentuada de economia solidária e criativa, que possibilite a essas poucas centenas de pessoas serem os cuidadores "de fato" da riqueza histórica e ecossistêmica de lá.

Nesse sentido, no decorrer dos anos, também tem sido feita a capacitação de estudantes da rede pública local, decorrente de parceria da Prefeitura com o Instituto Florestal (IF).

Sem dúvida alguma, a biodiversidade do entorno de Paranapiacaba, que compõe um corredor ecológico, não pode ser menosprezada. O Parque Natural Municipal Nascentes de Paranapiacaba (4,2 mi de m2) é um destino interessante para fomentar uma educação ambiental contínua (onde há trilhas monitoradas), lembrando que é continuidade do Parque Estadual da Serra do Mar e da Reserva Biológica do Alto da Serra de Paranapiacaba. Quando sabemos que nascentes tão importantes, como a de Rio Grande, estão lá, que cada árvore, planta tem sua importância na cadeia, que há uma fauna específica, como macucos e veados campeiros...tudo começa a fazer sentido. É o ecossistema pulsando e que precisa de conservação.

 

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