PANCs: um universo da segurança alimentar a explorar

14/05/2018 14:29

Por Sucena Shkrada Resk

 O tema da segurança alimentar é rico em multiplicidades de enfoques, sendo que um deles trata do reconhecimento da importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O termo foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, resultando no livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais (Panc) no Brasil”, lançado em 2015, que se tornou uma referência básica sobre o assunto, com o destaque de 351 espécies e 1.053 receitas. De lá para cá, há outras iniciativas de disseminação do tema, como o Guia Prático sobre PANCs., do Instituto Kairós.

Quantas vezes passamos entre ou sobre estas plantas (até pisando nelas) ou as avistamos pelo caminho, as taxando de “mato”, “erva-daninha” ou uma semente, flor, vegetal e/ou planta ornamental sem importância? A falta de cultura da popularização desses conhecimentos, muitas vezes, circunscritos a regionalidades de biomas, nos leva a esse estado de ignorância e consequentemente a desprezarmos o potencial nutricional dessas espécies que não fazem parte do nosso cotidiano. Ou melhor, até fazem, mas não sabemos o valor implícito dessas plantas, que desprezamos a olho nu.

Quando estão em área rural ou na roça, a sua coleta fica mais fácil. Mas ao serem expostas a poluentes e contaminação em calçadas e até ruas, não se tornam indicadas para consumo. Aí um cuidado redobrado com a higienização. Com isso, potencializa a ampliação dos cultivos em nossas hortas caseiras ou comunitárias.

Ao nos enveredarmos neste universo de aprendizado, certamente todo cuidado é necessário, para inadvertidamente não ingerirmos alguma planta tóxica, sem o devido cuidado de saber, por meio de pesquisa nas fontes primárias, se realmente pode ser comestível, e como deve ser ingerida (crua, refogada, processada, em infusão, em forma de suco...). De resto, a recomendação é se deixar levar pela experiência da degustação, contato sinestésico e combinações de cardápio, que enriqueçam nossos pratos. O que pode ser uma PANC para mim no Sudeste, pode não ser no Nordeste ou na Amazônia, e vice-versa. Isso nos leva a viajarmos nas raízes tradicionais da flora da Mata Atlântica, do Cerrado, da Amazônia, dos Pampas e do Semi-Árido.  

Nos relatos dos povos tradicionais e indígenas, muitas dessas espécies vegetais emergem nas narrativas e práticas a gerações, o que faz da escuta atenta a essas narrativas algo cada vez mais importante, aliada ao aprofundamento realizado pela Ciência. Outras são oriundas de outros países. 

Eu tive a oportunidade de passar por um breve exercício, no último sábado, durante uma aula/palestra com a chef de cozinha Simone Gomes, da Cia da Não-Ficção, na Oficina Cultural Oswald de Andrade, em São Paulo. Foi uma forma de abrir um horizonte nutricional e aguçar a curiosidade para aprender mais. Moral da história: somente pesquisando e quebrando preconceitos, conseguimos valorizar, de fato, todo o potencial das plantas na natureza. Tato, olfato, paladar... tudo isso foi impulsionado. Afinal, a alimentação também deve ser um ato prazeroso.

Durante a atividade, pude conhecer e sentir o sabor da stevia, que é um adoçante natural (e conhecemos industrializada); da flor capuchinha (Tropaeolum majus), que é uma herbácea com propriedades diuréticas e anti-inflamatórias, expectorante, que tem vitamina C, usada em salada; das folhas de taioba (Xanthosoma sagittifolium), com sabor semelhante ao espinafre, rica em vitaminas, ferro e cálcio, que podem ser comidas cozidas ou refogadas; e de caruru (Amaranthus spp.), também utilizada em refogados e saladas e rica em cálcio, entre outros nutrientes e da azedinha (Rumex acetosa);

Nesta abundância de variedades, ainda havia a planta do hibisco (Hibiscus) e da erva-baleeira (Cordia verbenacea), utilizadas em chás; como também o almeirão-roxo (Lactuca indica L./canadensis); o jambú-do-pará (do gênero Acmella), que entre os seus usos, está no tradicional tacacá, com grande concentração de vitamina C; e uma planta chamada “major-gomes” (Talinum paniculatum), com alto teor de cálcio e potássio, entre outras.

Apesar de ser muita informação, sabores e cheiros para um dia, já foi um bom começo para aguçar a curiosidade para um maior aprofundamento, não é? Segue o convite, então, para que conversem com seus avós, com representantes de povos tradicionais e estabeleçam os seus primeiros contatos com as PANCs, após também se abastecerem da leitura oficial básica sobre as espécies e suas funcionalidades e modos de preparo. A partir daí, bom apetite!

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:
23/05/2012 - Rio +20: Como tratará da realidade da África Subsaariana?
03/05/2012 - Rumo à Rio + 20: seca, fome, morte e draft zero
22/03/2012 - Campanha a Água e a Segurança Alimentar

*Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk

Pesquisar no site

Blog

11/12/2017 09:04

#Direitoindígena - Coordenadora na COIAB destaca: Protocolos de consulta de diferentes povos indígenas na Amazônia são instrumentos de luta pelos direitos

Entrevistada da semana - Angela Amankawa Kaxuyana   Por Sucena Shkrada Resk    O protagonismo indígena na defesa dos seus direitos é a pauta desta semana. Na seara do contexto amazônico, a entrevistada é Angela Amankawa Kaxuyana, da TI Kaxuyana Tunayana, do extremo Norte do Pará, que...
27/11/2017 14:40

Médica sanitarista fala sobre o universo da saúde ambiental, com destaque sobre os impactos dos agrotóxicos

Por Sucena Shkrada Resk A entrevistada, desta semana, do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, é a médica sanitarista Telma de Cassia dos Santos Nery, que trata do tema Saúde Ambiental, com os impactos dos agrotóxicos e da poluição, neste contexto, e também explica o trabalho...
14/11/2017 14:01

Vozes do Direito indígena refletem sobre cenário atual

  Por Sucena Shkrada Resk Compreender os conceitos de bem-viver, de patrimônios imaterial e espiritual, do significado holístico da terra, do ecossistema e do território e do planeta como casa (mãe “pachamama”) e local sagrado, é o grande desafio das visões herméticas dos Estados que ainda se...
02/11/2017 18:15

As mudanças climáticas sob o olhar indígena

Por Sucena Shkrada Resk Subestimar os conhecimentos tradicionais que se perpetuam por gerações é um ato de ignorância que tem se repetido por décadas. No contexto das mudanças climáticas, essa constatação se torna mais evidente, pois a vivência dos povos indígenas e suas relações cosmológicas...
18/10/2017 09:33

Do papel à realidade, existe um “gap” na mitigação (redução de danos) e adaptação aos eventos extremos no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O que dizer sobre o “Velho Chico” agonizando, e pessoas e animais tendo de dividir a pouca água que resta, entre outras centenas de cenas desoladoras por todo país? Imagens que ficam gravadas para sempre. As manchetes sobre eventos extremos e desastres naturais no Brasil,...
16/10/2017 08:42

Ivaporunduva ecoa vozes pelos direitos quilombolas no Brasil

O Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk coletou dois depoimentos, há algumas semanas, em Eldorado, SP, de lideranças do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, em defesa dos direitos adquiridos pelas comunidades em todo o Brasil, com o decreto 4887/2003, que regulamenta a...
11/10/2017 11:35

Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro Maria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A...
09/10/2017 17:53

Justiça socioambiental: centenas de vozes ecoam homenagem póstuma à pescadora Nicinha, no Rio de Janeiro

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro  A pescadora Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida por Nicinha, liderança feminina do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no estado de Rondônia, defendia os direitos das populações afetadas pelo Complexo Hidrelétrico, no rio Madeira e seus...
25/09/2017 12:22

Gameleira traz um exemplo propositivo de afirmação identitária quilombola

PÍLULAS SOCIOAMBIENTAIS Por Sucena Shkrada Resk O Museu Gídio Veio, da Comunidade de Remanescentes Quilombolas de Gameleira, em São Tomé, no Rio Grande do Norte, é uma prova de que o senso de pertencimento étnico ao território pode ser ‘perpetuado’ por meio de ações proativas, que tragam o resgate...
21/08/2017 16:06

Ser quilombola: um diálogo com a memória ancestral

Por Sucena Shkrada Resk, em Eldorado (SP) - 20/08/2017 “Eu tenho uma memória ancestral que diz quem eu sou”, destaca o quilombola Ronaldo dos Santos, coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa afirmação nunca foi tão...
01/08/2017 11:40

Mobilização nacional defende comunidades remanescentes quilombolas contra retrocessos em direitos estabelecidos

Por Sucena Shkrada Resk Nos últimos anos, está sendo construído um cenário de retrocessos no campo dos direitos humanos no Brasil, que ferem a Constituição de 1988. Atualmente, uma causa que ganha visibilidade é a das comunidades remanescentes quilombolas. Isso acontece, porque o julgamento...
09/07/2017 18:10

O discurso da invisibilidade no contexto da injustiça socioambiental e no campo

Por Sucena Shkrada Resk Vivemos tempos de invisibilização acentuada de povos e comunidades tradicionais e indígenas promovida pelos modus operandi das políticas de infraestrutura, que ferem os direitos instituídos legalmente, no âmbito nacional e internacional. Algumas das agendas com maior número...
22/01/2017 18:21

O ônus socioambiental da contemporaneidade “Flex”

  Por Sucena Shkrada Resk   Quando dizemos que um indivíduo ou uma nação têm "palavra", o sentido implícito nesta frase implica retidão, ética e relação de confiança. Mas nos deparamos hoje na contemporaneidade com uma fragilidade que reflete um mundo em que leis, direitos instituídos e...
18/12/2016 10:34

Guerra na Síria: o retrato da desumanização no século XXI

Por Sucena Shkrada ReskQuem cura as cicatrizes das feridas profundas das guerras civis que marcam o século XXI, em especial, na Síria? Os acordos geopolíticos demonstram que impera a crueldade imposta pelas polaridades, que armam os lados opostos internos com aparato bélico e financiamento e causam...
12/12/2016 21:38

A legislação socioambiental sob o ataque da artilharia ruralista no Congresso Nacional

Por Sucena Shkrada Resk Agora, querem destruir as regras do licenciamento ambiental O desgaste político brasileiro na agenda socioambiental chega a beirar o surrealismo. Tal qual uma artilharia, com tanque de guerra, a bancada ruralista tem assumido o ataque, por meio de projetos que tramitam no...
05/09/2016 17:41

A longevidade em tempos de mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk Caso fôssemos fazer uma enquete para saber se as pessoas querem envelhecer em um planeta com o aumento da temperatura média acima de dois graus Celsius até o final do século com relação à era pré-industrial, muitas talvez não tivessem a noção do que essa pergunta significa....
28/08/2016 16:31

Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus

Por Sucena Shkrada Resk Mais de 15 mil focos de incêndio/queimadas, neste ano, colocam o Mato Grosso em primeiro do ranking no país atualmente. E boa parte destes registros ocorre no bioma amazônico ao norte e noroeste do estado. Colniza, a pouco mais de mil quilômetros de Cuiabá, é o município que...
26/06/2016 22:35

Mortes de ativistas socioambientais não podem se perder nas estatísticas

Por Sucena Shkrada Resk Muitos nomes em algumas lápides por este Brasil podem ser anônimos para a maioria de nós, mas representam o descaso cada vez maior com a vida de cidadãos e cidadãs, que fazem parte de comunidades indígenas, que pleiteiam a demarcação de terra que se estende em processos...
24/04/2016 14:53

Agrotóxicos – Parte 2: mais um projeto polêmico na Câmara

Por Sucena Shkrada Resk Quando imaginamos que está chegando o momento de bonança, vem mais uma notícia que exige um olhar atento da sociedade quanto à temática dos agrotóxicos e a tentativa de mudança de nomenclatura e regras, que ferem o direito do consumidor. Tramita na Câmara dos Deputados, o...
11/04/2016 12:44

Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

Por Sucena Shkrada Resk Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk