Os oceanos apelam todos os dias: #plásticosnão

16/01/2019 14:48

Por Sucena Shkrada Resk*

A imagem é desconcertante e dramática. Olhamos de um lado e de outro e os oceanos têm mais plásticos do que peixes. O ano é 2050. Cena de filme de ficção? Longe disso. Este é um prognóstico mais próximo do real descrito em estudo da fundação da navegadora Ellen MacArthur e da consultoria McKinsey, se o modelo de desenvolvimento e comportamento das sociedades no planeta permanecer do jeito que está. O anúncio foi feito no Fórum Econômico Mundial de Davos, em 2016, e é reforçado por pesquisadores em um dos alertas principais da Campanha “Mares Limpos” da ONU Meio Ambiente, que começou em 2017 e deverá vigorar por cinco anos. Como suportar 8 milhões de tonenadas de plásticos despejadas anualmente? 

De acordo com estudo realizado por cientistas das Universidades da Geórgia, da Califórnia e da organização oceanográfica Sea Education Association publicado na Science Advances, desde 1950 a 2015, a humanidade já produziu de 8,3 bilhões de toneladas de plásticos, que seguem para os mares e oceanos no mundo, além dos 2 bi de toneladas estimados provenientes de navios, como redes de pescas, de acordo com o Instituto Francês de Pesquisa para a Exploração do Mar. Fica difícil dimensionar o impacto deste volume, não é? Entretanto, este quadro é derivado de algo mais perto do nosso dia a dia, que é a nossa relação de produção, consumo e descarte.

Argumentos não faltam, mas apesar disso, os processos de mudança quanto à produção sustentável e consumo consciente são extremamente lentos. Primeiramente é necessário lembrar que a matéria-prima da maior parte dos plásticos utilizada é o petróleo, pertence ao grupo dos polímeros (polipropileno/polietileno) que são difíceis de se decompor, podendo levar décadas a 200 anos para se biodegradar. Nas águas oceânicas e nos estômagos dos animais são encontrados de tudo: sacolas, embalagens, tampas, canudos plásticos (sétimo item mais coletado nos oceanos), segundo a ONG Ocean Conservancy), ...

Segundo a ONU Meio Ambiente, em um período de 150 anos, mais de 40% dos plásticos produzidos foram usados uma única vez, e somente 9% são reciclados. No Brasil são produzidos anualmente cerca de 10,5 mi toneladas de plásticos. Segundo o Sindicato Nacional de Empresas de Limpeza Urbana (Selurb), se tudo fosse reciclado, poderia haver um retorno de R$ 5,7 bi com relação ao comprometimento de gastos no ciclo.

Efeitos a olho nu

Neste roteiro dos “oceanos de plásticos” não é necessário esperar mais algumas décadas, já existem cenas atuais que sinalizam a gravidade do problema. No Golfo de Omã, por exemplo, os cientistas descobriram em 2018 uma zona morta asfixiada por todos os tipos de poluição, incluindo o plástico. No Oceano Pacífico, entre a costa Oeste dos EUA e o Havaí, existe uma zona conhecida como continente de plástico com mais de 80 mil toneladas de resíduos, segundo a Scientific Reports, com tamanho proporcional a um pouco mais do estado do Amazonas. Estima-se que mais de 800 espécies oceânicas e costeiras são diretamente afetadas, segundo a ONU. O custo estimado da poluição originada pelos detritos marinhos é de US$ 13 bilhões.

Para intensificar a gravidade, estudo coordenado pelo médico Philipp Schwabl, da Universidade de Medicina de Viena em parceria com a Agência Ambiental da Áustria revela que podemos estar contaminados com os microplásticos (aqueles com menos de 5 milímetros). Este tipo está presente em roupas sintéticas a escovas de dente. O comprometimento deste material já pesquisado também em animais chega ao intestino como também provoca estresse hepáticos. São confundidos com plânctons, que está na base alimentar nos ecossistemas marinhos.

Por que não ouvimos os apelos dos oceanos? Talvez porque não saibamos e reconheçamos sua importância como fornecedor de 60% dos serviços ecossistêmicos e para o controle da pressão cada vez maior dos Gases de Efeito Estufa (GEEs) que contribuem para o Aquecimento Global e para o avanço das mudanças climáticas, ao absorver 93% do calor aprisionado por estes gases. Será que vai suportar exercer este papel até quando? De acordo com pesquisa publicada na Science, os oceanos estão cada vez mais aquecidos. Em miúdos, uma bomba-relógio foi ligada.

Filosofia do meio copo cheio

Depois de ler os parágrafos anteriores, você pode pensar – “está tudo perdido”. Seguindo a filosofia do copo cheio, há mobilizações por todo planeta para reverter esta situação. Além da Campanha Mares Limpos, existe o movimento mundial Let´s do It (Limpa Brasil, aqui no país)  e do Ecosurf. A União Europeia estará proibindo o uso de alguns tipos de plásticos, a partir de 2021; um grupo de pesquisadores da Universidade de Portsmouth, no Reino Unido, criaram uma enzima mutante (ainda em estudo) que tem a capacidade de “comer” o plástico de Garrafas PET.

O jovem holandês Boyan Slat, da The Ocean Cleanup, é idealizador do Sistema 001, chamado também de serpente gigante. A iniciativa consiste em uma barreira com 600 metros de comprimento destinada à limpeza de plásticos. Em setembro passado, foi utilizada na baía de São Francisco, nos EUA.

Fazendo uma retrospectiva, no ano de 2013, a empresa CBPAK e pesquisadores da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (POLI/USP) criaram um filme plástico biodegradável de amido de mandioca e açúcares. Em 2018, estava em execução a elaboração do Plano Nacional de Combate ao Lixo no Mar, que agora depende da condução da atual gestão do Ministério do Meio Ambiente (MMA).

Alguns municípios brasileiros estão proibindo a distribuição de canudos em comércios. Entre eles, Rio de Janeiro (RJ, Cataguases (MG); em 2019, Santos (SP). Ao mesmo tempo, novas tecnologias estão sendo criadas, como canudos comestíveis, de material lavável e reutilizável, sacolas biodegradáveis já há alguns anos, entre outras. Grandes comércios estão substituindo os plásticos por caixas ou com a opção de sacolas retornáveis.

E como começar? Nada mais eficaz do que as medidas caseiras, que qualquer um de nós pode ter, partindo da redução de consumo de plásticos na rotina doméstica e da racionalização no descarte preferencialmente com a separação (onde há coleta seletiva e/ou cooperativas). E que 2050 chegue e possamos contar que há peixes e uma vasto ecossistema oceânico, não é? 

*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

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