O pensamento ecologizado de Edgar Morin, por Sucena Shkrada Resk

04/07/2012 16:42

Depois de uma hora e meia de imersão nas palavras do filósofo e educador francês Edgar Morin, no lumiar dos seus 91 anos, na noite de ontem (3), renovei as minhas esperanças na capacidade humana de transformar os caminhos do planeta. O vigor de seu pensamento, que trafega de forma inclusiva e envolvente, da história antiga à contemporaneidade, dá sentido aos seus argumentos sobre o pensamento complexo e faz perceber que é possível ir fundo, sem que se perca a simplicidade. Ele tratou do tema Consciência Mundial: por um conceito de desenvolvimento para o século XXI, no SESC Consolação.

Pensamento ecologizado
Durante sua palestra, Edgar Morin, reforçou o que defende em sua vasta produção literária, que é a contextualização e se ir além da racionalidade abstrata. “...É preciso uma racionalidade complexa que enfrente as contradições...uma revolução do conhecimento. Isso quer dizer repudiar a inteligência cega que é incapaz de conceber a era planetária e apreender o problema ecológico”, como destaca no livro “Rumo ao Abismo?”, de 2011, pela Bertrand Brasil.

Com isso, na constituição do pensamento complexo, há o pensamento ecologizado que, em vez de isolar o objeto estudado, o considera na e por sua relação autoecoorganizadora com seu ambiente cultural, econômico, político, natural...E para ele é preciso ir além: pensar global, agir local e pensar local e agir global.

Eu o ouvi, com esse pano de fundo e anotei com “voracidade” de quem quer aprender, o que mais me chamou a atenção em sua fala, que resultou em oito páginas no meu pequeno companheiro de jornada – “o caderno espiral”. Assim sai de lá com ideias e motivações. Já vinha contagiada com outras impressões, provenientes da leitura que estou fazendo da obra que citei acima, que apresenta textos escritos por ele, durante os anos 2000. Sem falar, do clássico “Sete Saberes da Educação”, que é uma referência que tenho há alguns anos, entre outras.

Num ir e vir constante – entre o caminhar para o abismo e a esperança - Morin desnudou, de certa forma, a inconstância de nós, seres humanos, por meio da dialética, e lembrou o quanto é importante nos conectarmos aos saberes globais e aprendermos a nos auto-reconhecer, antes de prosseguir. “...A nossa civilização desenvolveu o egocentrismo, mas do lado bom, a autonomia...”, ponderou. E tocou num ponto central para ele: a destruição das solidariedades tradicionais nas famílias, entre vizinhos, no ambiente de trabalho...”São os aspectos mais negativos do processo de globalização”, disse.

Ele apontou o sentido de ambivalência, que permeia o mundo na atualidade. “Houve a formação de novas classes médias em países emergentes como o Brasil. Mas também esse processo de globalização fez que outra parte da população pobre, como os camponeses, fossem expulsos de suas terras, para as periferias das cidades, às favelas...Um bilhão de pessoas vivem na condição próxima à miséria...”.

Segundo ele, isso demonstra o equívoco da noção de desenvolvimento padronizada, entre países diferentes. “Ignora-se, dessa forma, a cultura, a arte de viver, as ilusões e erros que existem em cada um”. E citou como exemplo o conhecimento “rico” sobre as florestas, dos xamãs dos povos indígenas da Amazônia (que chega a ser menosprezado). “Seria melhor se houvesse uma simbiose”.

E lembrou que as grandes revoluções, sejam no campo religioso, político começaram de forma modesta. Nessa hora, fez com que embarcássemos com ele no Budismo, no Cristianismo, no Islamismo, como também, no Socialismo (Marx...), no Anarquismo (Proudhon, Bakunin)..um passeio pela história. Mencionou importantes pensadores, entre eles, Descartes e Galileu.

Por meio de uma analogia, comparou a sociedade a um organismo. “...A sociedade em crise pode regredir ou progredir pela criatividade. A metamorfose não é só um fenômeno dos insetos, é própria da história humana”.

A sensibilidade de Edgar Morin quanto às desigualdades foi a tônica permanente em sua exposição. “...Precisamos lutar contra as forças de desigualdade e de exploração sobre os povos africanos. É preciso proteger esses países das forças negativas da mundialização...que continua com a métrica do Produto Interno Bruto (PIB), com a economia do desperdício...”.

E foi incisivo, quanto à sua leitura sobre o que considera como ideal de nova economia. “Ela não se restringe à energia limpa. Precisa desenvolver democracias, autonomias e envolver as pessoas num tecido de solidariedade...”. Essa ausência foi um problema destacado, segundo ele, durante a Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20) e a Cúpula dos Povos.

“O que chamamos de economia verde não é somente energia limpa, mas necessidade de substituição das formas agrícolas predatórias, do uso de pesticidas, da pegada ecológica (em excesso). Exige a substituição por agricultura orgânica e pela economia social e solidária...”

As reformas, no seu ponto de vista, devem acontecer simultaneamente no modo de consumo, na agricultura, nas empresas... “Como pequenos riachos até formarem rios...”.

Com uma mensagem de esperança, dirigiu sua fala para o caminho das escolhas: “...Posso acreditar no altruísmo, na bondade, no amor contra as barbáries humanas. Posso esperar o improvável. São os progressos da consciência humana, o agir em conformidade com as minhas aspirações e esperanças...” Nessa lógica, não é possível defender um povo em detrimento de outro, alertou.

E com a sagacidade de quem nunca para de aprender, ao ser perguntado sobre o papel da internet na educação e sua relação com o mundo real, respondeu:
- “ A internet pode contribuir para a educação e relações e não deve eliminar o mestre, que pode colocar paixão no que faz, no contato humano afetivo...É até possível haver second life, avatar, mas isso está ligado ao poder do imaginário, ao sonho e aos mitos. Vivemos em um mundo semi-virtual. Precisamos desenvolver melhor o uso da web...Em países ditatoriais, surgem informações falsas, que exigem que sejamos mais inteligentes”, citou como exemplo.

Após essa carga imensa de conhecimento compartilhado, Edgar Morin deu sentido mais uma vez ao que defende: não é possível ser racional sem o exercício de afeto.

 

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