O mercúrio nas veias da Amazônia

14/08/2018 18:30

Por Sucena Shkrada Resk*

Quem dera que falar sobre “mercúrio” fosse um assunto somente de interesse da pauta astronômica? Voltando à realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contaminação pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em especial, na região amazônica, que vem se agravando ao longo dos anos e confirmado por exames e pesquisas realizadas em peixes, ribeirinhos e em povos indígenas. São populações que fazem parte desse ecossistema que sofre pressão de garimpos e, inclusive, de efeitos indiretos de hidrelétricas. O comprometimento com esta pauta ainda é incipiente na agenda das políticas públicas e, com isso, os problemas de saúde ambiental e de direitos humanos que representa podem ser muito maiores, pois estão interligados com outras agendas do mercado comercial e industrial internacionais.

O tema tem exigido uma ação multidisciplinar de vários entes governamentais, que já revelam o grande desafio pela frente. Entre alguns dados recentes, no mês de junho, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) divulgou o Inventário Nacional de Emissões e Liberações de Mercúrio no Âmbito da Mineração Artesanal e de Pequena Escala no Brasil.  Tratam-se de informações coletadas em garimpos nos estados do Amapá, Bahia, Mato Grosso e Pará. A pesquisa construiu cenários de emissões e liberações de mercúrio que se basearam na mineração oficialmente declarada e estimativas de ouro produzido de forma ilegal. Esses cenários originam perdas de mercúrio para o meio ambiente que vão de 18,5 a 221,5 toneladas.

O exemplo de Minamata

Quantas pessoas podem estar contaminadas e sequer têm noção do que está acontecendo? Quem se responsabiliza pela segurança alimentar e saúde dessas pessoas e de todo o meio ambiente? Como os efeitos cumulativos da contaminação podem aparecer após anos, é como se fosse uma bomba-relógio. Essa é uma herança pesada que recebemos apesar de o Brasil ter ratificado em 2017, a Convenção Internacional de Minamata sobre Mercúrio, cujo texto foi aprovado quatro anos antes no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). O nome Minamata não é por acaso, pois foi nesta cidade japonesa, onde uma empresa química lançava no mar dejetos com a substância, desde 1930,  em que houve muitas vítimas, ao longo de décadas. Estima-se que mais de 700 pessoas morreram em decorrência da contaminação.

De acordo com a Convenção, até 2020, deve haver o banimento de produtos com mercúrio adicionado, como por exemplo, alguns tipos de lâmpadas fluorescentes, pilhas e baterias. Além disso, processos industriais listados pela Convenção terão de fazer a substituição por tecnologias livres de mercúrio, o que infere os processos de extração mineral e na siderurgia, entre outros.

Esta preocupação não se restringe à Amazônia brasileira, pois é uma questão que aflige toda Pan-Amazônia, e há estudos que são de longa data, desde os anos 90. Há um índice que pode ser consultado na plataforma https://www.researchgate.net/publication/311482596_A_EXPOSICAO_AO_MERCURIO_E_OS_EFEITOS_DA_EXPOSICAO_EM_SERES_HUMANOS_NA_PAN-AMAZONIA, que traz  esta historicidade e importância do problema de saúde ambiental.

Ação multidisciplinar

Como os estudos são pontuais por alguns institutos e pesquisadores da academia e órgãos governamentais, não se tornaram uma prática constante incorporada na gestão pública como um todo. O que se vê é um quadro incipiente relacionado à prevenção e mitigação (redução de danos), que infere a necessidade de ação de diferentes órgãos, desde a fase de licenciamento dos empreendimentos que utilizam este minério. O que isso quer dizer? O governo federal, no bojo de seus ministérios, agências e autarquias têm uma responsabilidade muito grande sobre o desenrolar desses casos. Essa responsabilidade se estende aos legisladores e, de certa forma, aos cientistas. As externalidades são tantas, que fica difícil mensurar os impactos nos próximos anos e décadas, além dos atuais já deflagrados.

Ao se levantar pesquisas sobre esta pauta, uma das mais recentes foi divulgada em março deste ano, na revista Ecotoxicology and Environmental Safety, uma análise de equipe de pesquisadores brasileiros e espanhóis coordenada pela bioquímica María Elena López, do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará (UFPA).

Os cientistas fizeram uma análise de fios de cabelo de 37 ribeirinhos da região de Caraipé, no lago Tucuruí, nos arredores da Usina Hidrelétrica de Tucuruí. O resultado é alarmante. Eles encontraram a quantidade de mercúrio (em sua forma mais tóxica) sete vezes maior que a tolerável – 10 microgramas por grama de cabelo. Esse padrão de tolerância é recomendado pela Organização Mundial de Saúde (OMS). Essa exposição pode desencadear quadros graves de saúde, entre elas, a doença de Minamata, que é uma síndrome neurodegenerativa, que pode levar à morte, como também deformações fetais em gestantes. O que gera apreensão é que, por muitas vezes, os sintomas levam anos a aparecer, ou seja, é uma doença silenciosa.

O processo de intoxicação se dá pela ingestão de peixes contaminados. De acordo com os pesquisadores, neste caso, ao se apurar os dados históricos da região, o que se constatou foi que essa situação é um efeito indireto decorrente do funcionamento da hidrelétrica. Segundo a bioquímica, como o reservatório se formam lagoas (como bolsões de água), onde o líquido fica retido até por 130 dias ao ano. Isso pode gerar com as chuvas e invasão da floresta, a mistura de decomposição de matéria orgânica que com a incidência de luz solar resulta no final, na liberação de mercúrio inorgânico ingerido por peixes e outros . Esse, por sua vez, sofre a ação de bactérias anaeróbicas e se transforma em metilmercúrio. O que é mais surpreende neste processo é que outros estudos já têm alertado para este tipo de problema, e não é de hoje. Entre eles, do biólogo Philip Fearnside, há duas décadas.

Há dois anos, foi exposta mais uma análise que levantou contaminação por mercúrio na Amazônia. Pesquisadores da Escola Nacional de Saúde Pública da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) analisaram em 2014 amostras de fios de cabelo de 239 indígenas yanomami e ye’kuana , no estado de Roraima. Em algumas regiões, 92% da população estava contaminada. O contexto, neste caso, era de ação garimpeira ilegal na região, uma pressão que os indígenas já têm alertado há anos e exigem uma ação do poder público. Para a extração do ouro, eles utilizam o mercúrio para poder identifica-lo, o separando dos demais sedimentos. A pesquisa foi feita em parceria com o Instituto Socioambiental (ISA). Os resultados foram encaminhados aos órgãos competentes, como também à relatoria especial sobre Direitos Indígenas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Conexões com um mercado exterior também fazem parte da cadeia desta problemática. Em maio deste ano, houve a apreensão de mais de 1,7 tonelada de mercúrio pela Receita Federal e pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Renováveis (Ibama), em Santa Catarina. Este material era proveniente da Turquia e seguiria para garimpos na Amazônia.

O que se vê é uma cadeia de âmbito internacional, que exige profundidade de ações, que já têm retaguarda jurídica e legal para tanto. Deixar de dar o devido peso a esta agenda pode ter um custo muito alto para o país, que se intitula um país em desenvolvimento, com protagonismo na política internacional.  

Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Pesquisar no site

Blog

29/05/2020 13:00

Parte 10 – Estudo aponta o risco associado da desintegração ecológica com a origem de mais doenças infecciosas como a Covid-19

Por Sucena Shkrada Resk* Surtos epidêmicos entre humanos, com início em doenças zoonóticas, se tornam mais prováveis A The Wildlife Conservation Society lançou um documento, neste mês de maio, que alerta sobre o perigo que ronda a humanidade com a possibilidade de mais surtos epidêmicos e pandemias...
28/05/2020 09:58

Parte 9 – Mais de 40 milhões de vozes da área da saúde clamam por um meio ambiente saudável ao G20 no contexto da pandemia

Por Sucena Shkrada Resk* Carta foi encaminhada, nesta semana, aos líderes do grupo das 20 nações com as maiores economias mundiais, incluindo o Brasil, e clama pela necessidade de combate à poluição atmosférica “...Antes da Covid-19, a poluição do ar - principalmente originária do tráfego, uso...
26/05/2020 13:00

Parte 8: O papel estratégico da conservação da saúde ambiental no enfrentamento à Covid-19 no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk* Mídia ambiental está atenta ao processo de desestruturação nesta agenda, que pode ser uma porta aberta também para avanços de epidemias A saúde ambiental brasileira está seguindo para uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Nunca foi tão necessário evocar esta analogia com...
25/05/2020 14:32

Parte 7 – A corrente de humanização que se tece em tempos da pandemia da Covid -19

Por Sucena Shkrada Resk* Campanhas pelo país impulsionam o exercício de empatia e desprendimento Uma das características singulares que emerge em tempos de crise é a humanização, que vem carregada daquela palavra ‘aconchegante’ chamada empatia. Problemas da sociedade moderna já existentes se...
22/05/2020 13:56

Parte 6: o impacto na saúde mental em tempos de pandemia da Covid-19

Por Sucena Shkrada Resk* OMS lança documento em maio e iniciativas se multiplicam no Brasil No conjunto de complexidades a respeito dos impactos da pandemia da Covid-19, a saúde mental ganha projeção em recentes pesquisas, e os comprometimentos são avaliados como “extremamente preocupantes”,...
29/04/2020 15:28

Parte 5: #Covid19 e a valorização da pesquisa científica

Por Sucena Shkrada Resk* Esta pandemia reitera o quanto é crucial o investimento no capital humano científico Nós, individualmente e como integrantes do coletivo da humanidade procuramos um norte, nesta pandemia da Covid-19. Neste horizonte de incertezas, a “bússola” leva a uma área que nos últimos...
22/04/2020 16:34

Parte 4 – Em tempos de #Covid19 e #mudançasclimáticas

No Dia Mundial da Terra, a reflexão sobre novos paradigmas de desenvolvimento Por Sucena Shkrada Resk* A expressão “em tempos de #Covid19 ou de #Coronavírus tem se fixado em nossas mentes para definir o atual momento histórico em que vivemos nos últimos meses. Este ano de 2020 definitivamente é...
07/04/2020 14:31

Parte 3: A Covid 19 e os desafios de nossos defensores no front de batalha

Neste Dia Mundial da Saúde (07/04), fica o alerta em defesa de nossos profissionais da área da saúde Por Sucena Shkrada Resk* A batalha contra a Covid-19 está resultando em muitas baixas no front, em todo o mundo. No município de São Paulo, o médico socorrista Paulo Fernando, 56 anos; o enfermeiro...
30/03/2020 10:30

Parte 2: A espiral do novo coronavírus expõe a janela da fragilidade aberta no Antropoceno

Com a pandemia da Covid-19, somos obrigados a descobrir novos caminhos para a humanidade Por Sucena Shkrada Resk* Existem algumas guerras que não são estruturadas com armamentos bélicos e que são tão devastadoras quanto a estes conflitos geopolíticos que têm assolado a humanidade, como a 1ª e 2ª...
10/03/2020 10:36

Um tipo de pressão transversal de obsolescência programada ronda unidades de conservação marinha brasileiras?

Legislação do SNUC pode ser colocada em xeque, se UCs marinhas forem expostas à maior vulnerabilidade  Por Sucena Shkrada Resk* Após duas décadas da criação do Sistema Nacional de Unidades de Conservação (SNUC - LEI 9.985/2000), o Brasil se depara hoje com a possibilidade de...
03/03/2020 16:20

Água: no eixo central nos cenários de conflito no mundo

Por Sucena Shkrada Resk* A água, apesar de ser um direito humano, tem sido menosprezada através dos séculos no planeta. Experiências que exemplificam este extremo são vivenciadas diariamente por meio de conflitos contemporâneos com relação aos recursos hídricos, cada vez mais escassos, em nações...
27/02/2020 13:22

Pela quarta vez, é prorrogado prazo de obrigatoriedade dos Planos Municipais de Saneamento no Brasil

A falta de comprometimento efetivo com a infraestrutura ainda é um desafio na esfera de mais da metade dos governos locais. Novo prazo estabelecido pelo Governo Federal é 31 de dezembro de 2022. Sucena Shkrada Resk* Cumprimento de prazos, eis um “calcanhar de aquiles” na agenda de políticas...
19/02/2020 17:02

Brasil ocupa o primeiro lugar em casos de dengue nas Américas

Cenário exige campanhas permanentes para combater criadouros do vetor Aedes aegypti Por Sucena Shkrada Resk* Quando a pauta é saúde ambiental, o Brasil tem trilhado uma linha tênue e perigosa, nos quesitos precaução, prevenção e efetividade, desde a esfera municipal à federal, quando se trata da...
14/02/2020 10:40

Antártica, 20 graus: o continente gelado emite sinal de alerta

Registro de recorde não é motivo de celebração Por Sucena Shkrada Resk* Nem sempre os recordes são sinais de celebração. O que dizer, então, sobre o registro da temperatura de 20,75 graus C na Ilha Seymour, na Antártica, no último dia 9 de fevereiro? É bom frisar – GRAUS POSITIVOS, no continente...
13/02/2020 16:09

Gafanhotos-do-deserto expõem os extremos da crise climática na África

Situação atual em vários países do continente é avaliada como sem precedentes, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU) Por Sucena Shkrada Resk* A palavra “extremo” permite resumir o quadro complexo e caótico que países da África Oriental estão vivenciando desde dezembro do ano passado e que...
12/02/2020 14:28

Adaptação à Mudança do Clima: do papel à ação, uma longa distância

Reflexo de temporal em SP, nesta semana, abre uma discussão importante sobre o papel do planejamento urbano Por Sucena Shkrada Resk*  Vocês já devem ter ouvido dizer pelo menos uma vez que o Brasil é um dos países com maior arcabouço legal na área socioambiental. Isso não quer dizer,...
04/02/2020 12:41

“Eu quero minha história de volta”, diz ex-moradora de Paracatu de Baixo, MG

Desabafo ocorre sobre recordações dos impactos do rompimento de duas barragens de rejeito da Samarco Por Sucena Shkrada Resk*, em Mariana (MG) “Levaram embora nossa história, eu não me sinto feliz”. Com esta frase, M.C.S., 45 anos, antiga moradora da comunidade de Paracatu de Baixo, subdistrito a...
03/02/2020 11:22

Minas Gerais: um recorte sobre os abalos sísmicos e a gestão de riscos

Por Sucena Shkrada Resk* O Brasil tem na casa de 500 abalos sísmicos anualmente e pouca gente tem conhecimento disso. Minas Gerais é um dos estados que historicamente registra os maiores números de terremotos no país (a maioria entre 1 e 4 graus na Escala Richter, que vai até 10 graus), o que é um...
23/01/2020 12:18

Saúde ambiental: estado de alerta mundial para o coronavírus reflete um desequilíbrio ecossistêmico

Por Sucena Shkrada Resk* Maior parte dos registros de casos, até agora, se concentra na China e em outros países asiáticos A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta mundial sobre a propagação do coronavírus (2019-nCoV) e instituiu um comitê de emergência com renomados cientistas...
21/01/2020 13:12

Guerra na Síria: todo o peso da expressão “infância roubada” sobre mais de 5 milhões de crianças

Por Sucena Shkrada Resk* Este é um dos exemplos mais cruéis de obstáculos aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), que se multiplica em outras nações no mundo Quando observamos atentamente as consequências dos oito anos e meio da devastadora Guerra na Síria, alguns dos pontos mais...

© 2020 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk