Narrativa de agricultora familiar nos leva à valorização ecossistêmica e humanística

21/01/2019 14:10

Por Sucena Shkrada Resk*

Ouvir a narrativa de agricultores familiares sempre é algo revigorante e que nos leva à ligação afetiva à terra, à água, à fauna e flora. Estimula nossa recepção sensorial e dá sentido à máxima de que quanto mais simples, mais estamos sintonizados com o equilíbrio ambiental. Por essa sensação, passei no último dia 18, quando Eunice Pimenta, agricultura agroecológica e professora da Educação de Jovens e Adultos (EJA) da região de Americana (SP) contou um pouco de sua história, durante o Encontro “O Direito Humano à Alimentação”. Ela compôs a mesa do primeiro do Ciclo de Debates sobre Gênero e Direitos Humanos, promovido pela Defensoria Pública da União (DPU), em São Paulo, neste ano.

Filha de lavradores analfabetos, relembrou o difícil período que viveu com sua família no período da Ditadura. “...“No campo, nós éramos pobres, mas tínhamos muita fartura com o que plantávamos. Quando tinha 11 anos, tivemos de ir do campo para a cidade (por um período), tive de trabalhar para uma família, que nunca me chamava pelo nome, mas só de empregada...”. Seu pai, segundo ela, chegou a ser intoxicado por agrotóxico. Suas raízes e estes episódios a marcaram bastante e a estimularam a exercer uma militância pelos direitos dos agricultores, desde as Comunidades Eclesiais de Bases e a Comissão Pastoral da Terra (CPT) à luta como sem-terra e assentada.

Eunice se tornou adulta, construiu sua família e há 13 anos é assentada com mais cerca de 70 famílias em uma área pressionada no entorno pela monocultura da cana-de-açúcar, como destaca. “Eu aprendi a Agroecologia e com outras agricultoras formamos o Grupo Terra Viva Mulheres, em que realizamos diferentes cultivos sem uso de venenos”, contou. Dentro desta lógica, está o respeito às matas ciliares e aos mananciais da região.

“Após um processo de 10 anos, conseguimos a certificação orgânica. Aprendemos a produzir alimentos e, não, mercadorias. É bom demais, muita fartura (tanto para subsistência, como para geração de renda)”. Assim nasceu a Cooperflora, que incorpora mais municípios próximos. Para driblar os atravessadores e conseguir escoar os alimentos,  consolidaram uma relação positiva com consumidores da região, formando quatro grupos de consumo na cidade. “Vendemos de 70 a 80 cestas semanais. Cada uma leva dois tipos de folha, um tubérculo, uma fruta, um item especial (ex: ovo, mel, arroz, entre outros)”, explica.

Um dos princípios como agricultura familiar é promover a diversidade do cultivo. “Hoje planto mandioca, verdura, abacaxi, crio galinhas para produção de ovos... São mais de 400 ovos por mês”, diz. 

A agricultora exemplifica a trajetória vivida por um contingente de homens e mulheres no campo que fazem parte da lógica de humanização preconizada pela segurança alimentar e por propostas como a Política Nacional de Redução de Agrotóxicos (PNaRA) aprovada em Comissão Especial da Câmara dos Deputados no final do ano passado e que tramita na Casa simultaneamente ao chamado PL do Veneno (que propõe a flexibilização do uso dos agrotóxicos).

A aprovação da PNaRA vai ao encontro da mobilização do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos (entre outros no país), pelo Grupo de Trabalho Garantia de Segurança Alimentar e Nutricional da DPU, entre outros órgãos e organizações nacionais e internacionais. Entre eles,  a Human Watch no Brasil, que lançou o relatório “Você não quer mais respirar veneno” .

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*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.
 

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