Sucena Shkrada Resk


Minas Gerais: um recorte sobre os abalos sísmicos e a gestão de riscos

03/02/2020 11:22

Por Sucena Shkrada Resk*

O Brasil tem na casa de 500 abalos sísmicos anualmente e pouca gente tem conhecimento disso. Minas Gerais é um dos estados que historicamente registra os maiores números de terremotos no país (a maioria entre 1 e 4 graus na Escala Richter, que vai até 10 graus), o que é um aspecto relevante que deveria ter um peso considerável para se tecer de forma mais segura, os planejamentos urbanos, como também objeções a tantas lavras minerárias, que mantêm detonações e consequentemente passivos ambientais, como barragens de rejeitos, que desestabilizam o solo.

No estado, algumas das localidades que têm apresentado mais incidências dos tremores, nas últimas décadas, são Nova Lima, Pedro Leopoldo e São José da Lapa, na região metropolitana de Belo Horizonte; Capitão Enéas, Itacarambi e Montes Claros, na região norte mineira, e Carmo do Cajuru, no centro-oeste do estado, entre outras. Os reflexos dos tremores geralmente são sentidos a quilômetros de distância, o que potencializa os seus efeitos.

Na sexta-feira, 31 de janeiro, a Rede Sismográfica Brasileira registrou um abalo sísmico, na região de Santo Antônio do Jacinto; no dia 30, no município de Santa Bárbara, MG. No dia 28, foi em Sete Lagoas, e no dia 22, em Pedro Leopoldo e em 21 de janeiro, em Capim Branco.

As combinações de ações humanas e fenômenos naturais, como estes abalos sísmicos, mesmo que com baixa e média magnitudes, geram apreensão. Imagine o temor que moradores da cidade histórica de Congonhas sentiram em novembro de 2019, por exemplo, quando houve um terremoto de 3.2 na Escala Richter, na altura da cidade de Belo Vale. Essas pessoas estavam a uma distância de 40 km do epicentro, e convivem com a pressão quanto à presença de uma barragem de rejeito próxima. Nesta ocasião, não houve nenhum dano registrado, mas o risco sempre existe. Em maio do mesmo ano, houve um sismo de 3.9 na região de Delfinópolis, divisa com o estado de São Paulo, que foi o maior em 29 anos naquela localidade.

De acordo com a Rede Sismográfica Brasileira, o município de Felixlândia, onde fica a Usina Hidrelétrica de Três Marias, apresentou tremor em 22 de julho de 2019 e 05 de dezembro do mesmo ano.

Todas estas ocorrências alertam para a necessidade de um sistema de precaução e adaptação mais rigorosos e isto implica modelos construtivos mais seguros e zonas nas quais não deveriam haver povoamentos, seja na zona urbana ou rural. Relevos acidentados acentuam o grau de gravidade na construção de cenários.

Estudos começam a expor este aspecto geomorfológico, de falhas geológicas e/ou de encontros de placas tectônicas, importante que deveria ter maior relevância nos planejamentos urbanos, tendo em vista, as inúmeras áreas de risco no estado. Em 2017, por exemplo, o Núcleo de Estudos Sismológicos (NES) da Universidade Estadual de Montes Claros (Unimontes) realizou um levantamento, no qual apurou que no ano de 2016, houve 88 tremores no estado, sendo que 36 aconteceram em municípios próximos a Belo Horizonte e 34, no Norte de Minas.  A maior incidência no Brasil.

Numa linha histórica, entre 1824 e janeiro de 2017, foram totalizados 738 tremores no estado. Quatro deles acima de 4 graus na Escala Richter. O município de Itacarambi, em dezembro de 2007, sofreu um abalo sísmico na ordem de 4,9 graus, que resultou no registro da primeira morte provocada por um tremor de terra no Brasil, de uma menina de 5 anos. Já Montes Claros se configurou como o município com o maior número de casos no mesmo período: um total de 172 tremores. A causa se deve à falha geológica encontrada a cerca de 2 mil metros de profundidade, com três quilômetros de extensão, entre a região do Parque Estadual da Lapa Grande e a área urbana. 

Este trabalho foi uma cooperação técnico-científica com o Observatório Sismológico da UnB e o Centro de Sismologia da Universidade de São Paulo (IAG/USP).

Com estas constatações, é possível observar que as agendas dos gestores públicos não podem se atrelar a grandes “guardas-chuvas”, sem se ater aos detalhes. Porque são estes detalhes que compreendem o que é definido como gestão de riscos.

*Sucena Shkrada Resk - jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

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