Mês das Mulheres: A relevância permanente das contribuições socioambientais de Wangari Maathai

05/03/2018 14:55

Por Sucena Shkrada Resk

 Divulgação: Wangari MaathaiQuando em 25 de setembro de 2011, a queniana Wangari Maathai faleceu, devido a um câncer, escrever no dia seguinte um artigo a respeito de sua trajetória de vida (veja também abaixo, artigo: Wangari Maathai: um exemplo a seguir), como manifestação de respeito ao importante legado que esta ativista deixou ao continente africano, ou melhor, ao planeta, foi algo natural. Praticamente sete anos depois, nas proximidades do Dia Internacional da Mulher e neste mês das “Águas”, retomar os propósitos desta cidadã resiliente, que focou sua vida em ações voltadas à justiça socioambiental, se torna mais uma vez, coerente, diante de uma contemporaneidade, na qual há flagrantes de um esquecimento histórico sobre elos de aprendizados que tecem essa rica teia de historicidade.

"Se você destruir a floresta, então o rio deixará de fluir, as chuvas se tornarão irregulares, as lavouras falharão e você morrerá de fome...”, dizia Wangari, que era uma mulher negra, de origem camponesa, ativista dos Direitos Humanos, bióloga, mestre em Ciências e PhD em Anatomia Veterinária. Ela unia esta multiplicidade de olhares em ações concretas locais e de relevância internacional, e tinha como princípio que a chave para o auto-empoderamento e a conservação reside nos valores espirituais tradicionais: amor ao meio ambiente, auto-aperfeiçoamento, gratidão e respeito, e um compromisso com o serviço. Este vídeo traz esta mensagem de forma objetiva -  https://youtu.be/BQU7JOxkGvo.

Como será que Wangari se sentiria, ao constatar em 2018, que nos últimos anos, seu povo continua a sofrer com a subnutrição em muitas partes de seu país atingido por uma seca persistente associada ao desmatamento, que é ainda um desafio a ser superado? São cerca de três milhões de pessoas ameaçadas pelos eventos climáticos extremos. Países vizinhos, como a Somália, também enfrentam esta situação grave. Para superar este estado de escassez, alguns camponeses começaram a criar insetos para poder se alimentar e voluntários chegam a percorrer dezenas de quilômetros para fornecer água a animais isolados.  

Certamente esta realidade não seria aceitável, para esta mulher que sustentava suas ações na premissa de gestão ambiental sustentável, governança democrática e cultura de paz. Por meio do Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde), que ela criou, desde 1977 até hoje, já foram plantadas em sistema comunitário mais de 51 milhões de árvores, dentro do conceito de recuperação de bacias hidrográficas e de promoção de geração de renda das comunidades locais. Uma ideia que faz sentido de aplicação em qualquer país no mundo, mas que precisa ser introduzida como uma renovação cultural e de valores.

Em fevereiro deste ano, Marion Kamau, atual presidente do Green Belt Movement foi convocada para presidir uma força-tarefa para fiscalizar a gestão dos recursos florestais e de exploração madeireira, no Ministério do Meio Ambiente do Quênia.  Nas entrelinhas, isto representa que a inspiração de Wangari continua presente e serve como objeto de reflexão em países sul-americanos, como o Brasil, onde o desmatamento pode culminar uma situação irreversível na Amazônia, conforme artigo do pesquisador americano Thomas Lovejoy e do brasileiro Carlos Nobre, na revista Science Advances.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

Retrospectiva - 26/09/2011 09:47
Wangari Maathai: um exemplo a seguir, por Sucena Shkrada Resk
"Você não pode proteger o meio ambiente, a menos que capacite as pessoas, as informe e ajude a entender que esses recursos são próprios e devem protegê-los". Essa frase de Wangari Maathai, criadora do Green Belt Movement (Movimento Cinturão Verde), traduzida em ações, nos incentiva a melhorar, pelas mais diferentes razões. Pode-se dizer, sem dúvidas, que ela é um ícone da comunidade africana, ou melhor, mundial, ao se dedicar à implementação dos princípios da sustentabilidade.

Essa mulher queniana formou-se em Biologia e fez Mestrado, por meio de bolsa de Estudos, nos EUA e foi a primeira mulher a conquistar o PhD em Anatomia, na África central e oriental, na Escola de Medicina Veterinária da Universidade de Nairobi. Nessa trajetória de emancipação, se tornou pioneira também ao presidir um departamento da Universidade e a ser nomeada professora. Uma conquista muito importante, na questão de gênero e de direitos humanos, mas transpôs a sala de aula e se dedicou à realidade do campo, da população vulnerável.

Na sua extensa biografia como ativista, comandou a Cruz Vermelha queniana nos anos 70 e foi ministra-assistente do Meio Ambiente entre 2003 e 2005. A sua agenda tinha como diretrizes o reflorestamento, proteção das florestas, e a restauração de áreas degradadas; como também projetos educacionais, com bolsas de estudo para órfãos devido ao HIV / AIDS; e acesso à nutrição aos portadores.

Uma de suas iniciativas de maior relevância foi o trabalho desenvolvido, por meio de sua organização, a partir de 1977, que resultou no plantio e replantio de cerca de 47 milhões de árvores no país, com a participação das comunidades, constituindo o sentido do empoderamento. A iniciativa nasceu, ao se defrontar com a realidade principalmente de mulheres do campo, que enfrentavam todos os tipos de dificuldades. Wangari propôs que as soluções viessem por meio de planos de manejos. Ao mesmo tempo, os camponeses deveriam proteger as bacias hidrográficas e estabilizar o solo, melhorando a agricultura.

A ideia que semeou nos anos 70 superou as fronteiras, e em 1987, já tinha seguido pela Pan African Green Belt Network , para a Tanzânia, Uganda, Etiópia, Zimbabwe e Lesoto.
As bandeiras foram ampliadas e ela se uniu a outros movimentos contra regimes ditatoriais, que acentuavam a pobreza em seu país. Uma das campanhas que iniciou, foi contra a construção de um arranha-céu em Uhuru ("Freedom") Park no centro de Nairobi, e o desmatamento de terras públicas. Durante essa militância, foi presa e espancada com outros ativistas.

Mais um trabalho relevante que não pode ser menosprezado, é que Wangari e seu movimento tiveram um papel importante na nova constituição do Quênia, ratificada pelo voto popular em 2010. O documento incluía o direito de todos os cidadãos a um ambiente limpo e saudável.

Ela colocava em prática o conceito de sustentabilidade em um contexto geopolítico e socioambiental de adversidades gritantes. Dedicou-se à proteção da selva da bacia do Congo na África central, segundo maior maciço florestal tropical do mundo...Contribuiu, em 2006, para o lançamento do Programa Um Bilhão de Árvores ao Redor do Mundo, pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnuma), que já ultrapassou a casa de bilhões.

Contribuiu também ao deixar uma bibliografia importante, calcada em suas experiências:
-The Green Belt Movement: Sharing the Approach and the Experience (2003);
- Unbowed (2006), uma auto-biografia;
- The Challenge for Africa (2008);
- Replenishing the Earth: Spiritual Values for Healing Ourselves and the World (2010).

Em 2009, ela foi designada como mensageira da paz, pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A ativista, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz 2004, morreu neste domingo (25), aos 71 anos, devido a um câncer, em Nairóbi.

A sua partida nos entristece, mas a sua obra é tão sublime, que serve como um 'tapa com luva de pelica' à nossa inércia diante de tantas práticas erradas na condução socioambiental e, na verdade, das relações humanas...

Ao fazer a leitura de matérias a respeito, multiplicadas por agências de notícias internacionais, e ao conhecer um pouco mais de sua biografia, percebo o quanto ainda nos intitulamos mais do que realmente somos na prática.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk 

Pesquisar no site

Blog

11/04/2016 12:44

Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

Por Sucena Shkrada Resk Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e...
03/04/2016 09:44

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o...
23/02/2016 20:34

Esgotamento sanitário mais uma vez relegado a segundo plano no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk Bactérias, vírus e parasitas, coliformes fecais, produtos químicos, metais pesados...  Sinto muito dizer, mas 42% da população convivem com este contexto de saneamento, porque não têm acesso a um direito mínimo, que é a coleta de rede de esgoto. O endereço dessa...
09/02/2016 07:27

As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta

Por Sucena Shkrada Resk Três meses se passaram e a conclusão a que se chega é que a expressão “tragédia anunciada” se materializou no acidente do rompimento da barragem de rejeitos minerais(de ferro) do Fundão, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton, , em...
31/01/2016 14:00

Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda

Por Sucena Shkrada Resk Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras...
26/12/2015 15:58

Implementação é a palavra-chave após a COP21

Por Sucena Shkrada Resk Esta é uma fase de amadurecimento de reflexões. Os últimos dias após o acordo firmado na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e da 11ª Reunião das Partes no Protocolo de Quioto (MOP-11), em...
07/12/2015 21:32

COP21: as mudanças climáticas e as vidas em xeque

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto nas salas climatizadas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP-21), em Paris, tudo vai hipoteticamente bem, obrigado, do lado de fora, a realidade é bem outra. Essa constatação vem por meio de dados do recente...
29/11/2015 13:04

Crônicas de uma urbanóide na vida rural: superando os medos e mitos sobre uma caranguejeira

Por Sucena Shkrada Resk Já era noite e estava dentro de casa, no quarto, quando vi próximo ao guarda-roupa uma enorme aranha –caranguejeira. Até então, só tinha visto em alguns locais externos, em viagens, mas não tão pertinho, nesta experiência de quase um ano vivendo em uma cidade com perfil...
05/11/2015 03:55

PEC 215: a quem interessa sua aprovação?

Por Sucena Shkrada Resk Compreender as motivações da política partidária não é uma tarefa fácil para qualquer um de nós, cidadãos comuns, que não vivenciamos regularmente os bastidores.. Entretanto, alguns temas em pauta no Congresso chamam a atenção. E um deles é a recente aprovação feita por uma...
01/11/2015 14:23

Mudanças climáticas: a COP21 das utopias

Por Sucena Shkrada Resk O que seria de nós, seres humanos, sem a possibilidade de desenvolver o pensamento utópico? Hoje resolvi narrar o meu discurso com esse princípio sobre a condução do combate ao aceleramento das mudanças climáticas e do aquecimento global, em que o palco das discussões é a...
20/09/2015 22:15

Amazônia: um lamento dos sem-árvore

Por Sucena Shkrada Resk Onde estão os anus-pretos, que faziam as travessias aéreas sobre as estradas de terras e a vegetação?  E os casais de araras-vermelhas que passeavam sob o céu azul, seguindo a caminho da floresta com suas árvores e copas densas? Agora, nem flagrar um tatu está sendo...
30/08/2015 15:34

Rumo à COP21: o desmatamento na Amazônia continua a ser um desafio

  Por Sucena Shkrada Resk Dados recentes divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) apontam que houve um aumento de 63% no desmatamento na Amazônia Legal, no período de agosto a julho (2014-2015), com 3.322 km2 comparativamente ao mesmo período entre 2013-2014, com...
19/08/2015 11:16

Sim, todos nós precisamos das abelhas...

Por Sucena Shkrada Resk Onde estão as abelhas, os principais polinizadores do planeta? Quantas vezes temos ouvido esta pergunta nos últimos anos se acentuando cada vez mais, desde os anos 90? O desaparecimento ocorre gradativamente por causa da intervenção humana, isso já é uma constatação. Mas o...
31/07/2015 12:48

Marcelo Munduruku: quando a natureza e o ser humano traduzem uma única essência

O Projeto Vozes dos Biomas – jornalista Sucena Shkrada Resk tem como terceiro entrevistado, Marcelo Munduruku, de Juara, MT, do bioma amazônico. Confira a entrevista que fiz no último dia 16, no...
19/07/2015 14:15

Extrativismo sustentável, dobradinha que inclui conservação e geração de renda

Por Sucena Shkrada Resk Autonomia e empoderamento. Dobradinha poderosa e indispensável. Quando nos deparamos com boas práticas, que envolvem a agricultura familiar, vale a pena compartilhar estas experiências. Lidar com a terra, além de sensibilidade tem muito de matemática. Quem só retira e não...
12/07/2015 12:57

Chapada dos Guimarães: uma aula prática de Cerrado

Texto e fotos: Sucena Shkrada Resk Para qualquer lado que se olhe, o Cerrado é um bioma que revela cenários diferenciados, no Centro-Oeste brasileiro. A região da Chapada dos Guimarães, a cerca de 60 km de Cuiabá, Mato Grosso, é um dos locais mais especiais desse pedaço do Brasil, também...
05/07/2015 13:49

Resíduos sólidos: prorrogar lixões revela um Brasil atrasado

Por Sucena Shkrada Resk A discussão sobre a gestão dos resíduos sólidos no Brasil revela a fragilidade que vivemos em nosso país. A Política Nacional (Lei  12305, de 2010), que veio com um arcabouço importante, foi perdendo força com o passar do tempo, em vários aspectos, por causa da...
21/06/2015 17:01

Marco da biodiversidade: muito além do papel

Por Sucena Shkrada Resk Os processos de conquista de direitos socioambientais no Brasil são árduos, porque por muitas vezes, ficam circunscritos a belas palavras dispostas no papel, que não se traduzem em regulamentação e prática.  O recente Marco da Biodiversidade brasileiro (Lei 13.123),...
23/04/2015 12:18

Parque Nacional da Serra da Capivara (PI): um patrimônio mundial a céu aberto

Texto e fotos: Sucena Shkrada Resk Um ano de maturação até conseguir conhecer o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) e a Cerâmica da Serra da Capivara, em novembro de 2014. Foi praticamente um período de gestação, que gerou alguns "filhos"...
04/04/2015 20:18

Um dia no “Velho Chico”

Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk “Descoberta e sensação de pertencimento”. Essas talvez sejam as palavras certas para definir o que me acompanhou há alguns meses, em uma viagem ao Nordeste, quando parti para a navegação fluvial no “Velho Chico”. Até hoje, essa...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk