Menos de cinco minutos, por Sucena Shkrada Resk

29/01/2013 11:13

Um domingo tenso e triste que se estende. Assim ficou marcado o dia 27 de janeiro de 2013 e essa semana. A tragédia em Santa Maria, no RS, preenche um espaço de tantos questionamentos, que fica difícil priorizar outras questões, pelo menos, agora. O que não sai de minha cabeça é que em menos de cinco minutos os destinos de 239 jovens (número atualizado em 28/02) foram abruptamente interrompidos e 21 permanecem internados em estado grave. Tudo isso, por quê? Um conjunto de erros, negligência e ignorância que só trouxe à tona a fragilidade dos sistemas de autorização de funcionamento de estabelecimentos de uso público – não só danceterias, mas de cinemas, teatros, magazines, mercados...Afinal, são 5.570 cidades e milhares de espaços e quantos realmente atendem às regras de segurança?

Monóxido de carbono, dióxido de carbono e outros gases entraram no organismo da maioria dos estudantes que estava lá e cravaram o fim de seus destinos. O contato do fogo com a espuma do revestimento (segundo noticiado) resultou naquela fumaça preta altamente tóxica. A combinação com o ambiente confinado se configurou como uma sentença de morte. Nesses breves momentos o que pensaram e sentiram esses jovens? Será que as autoridades, os empresários, os músicos da banda pensam sinceramente nisso?

Foram abreviadas as vidas de Alan, Alex, Ana Paula,...Cássio, Carolina, Letícia, Maicon..., Viviane, Walter...231 pessoas com histórias de vida, anseios (https://www1.folha.uol.com.br/especial/2013/tragediaemsantamaria/vitimas.shtml#A). Por mais que tentemos nos colocar no lugar de seus familiares, certamente é impossível ter a noção real do momento difícil que vivem. Alguns até agora estão em estado de choque e não acreditam no que aconteceu. Pelotões de voluntários – em especial da área de psicologia – são convocados para ajudar essas famílias. Há pais que perderam todos seus filhos...Mais de 100 deles estudavam em uma única universidade – a Federal de Santa Maria. Imaginem a atmosfera por lá...E quase 40 eram de uma única turma, que nunca irá se formar. Uma sala vazia de sonhos e de vidas no reinício do ano letivo.

Outra vez surge o questionamento: por quê? Se as regras existem, quanto à exigência de planos de emergência, contingência, que envolvem adequação das instalações com portas de emergência de acordo com demanda de público; sinalizações e materiais não-inflamáveis, sistema de ventilação..., extintores de incêndios, hidrantes, mangueiras, registros, chuveiros automáticos (sprinklers) e escadas com corrimão, preparação do corpo de funcionários, manutenção de brigadas de incêndio e obviamente manutenção dos equipamentos...Então, por que tantas pessoas morreram? Por que havia uma única porta (entrada e saída)? Porque aquele local como tantos outros no país parecia mais um cofre e estava aberto?

E como justificar que tenham sido acesos sinalizadores num ambiente fechado, sendo que no próprio produto, há a orientação de que não podem ser acionados nesse tipo de ambiente? Qual justificativa?

Frações de minutos foram de extrema tortura àqueles jovens e é algo que corroi e anestesia. O que é possível dizer a mais? Muitos ficaram empilhados nos banheiros , como descreveu o comandante dos bombeiros às emissoras; outros se pisotearam ou acabaram sucumbindo no meio da tentativa de fugir daquele cenário de pânico. Uma cena dantesca...Como apagar isso da memória? Quando os corpos foram retirados, celulares tocavam ao lado dos corpos inertes no ginásio esportivo da cidade. Familiares aflitos do outro lado mal sabiam que não teriam mais resposta.

Ao ver os velórios coletivos, aquela angústia da procura pelas vítimas em hospitais em Santa Maria e região...Algo difícil de descrever. Nem sequer a possibilidade de sensacionalismo sobre esse fato dava para encobrir tamanha tristeza. Agora, famílias enterram seus mortos e outras se agarram à fé e esperança para que seus entes queridos sobrevivam e saiam do coma induzido. E em alguns casos ainda, numa segunda etapa, consigam se recuperar psicologicamente e fisicamente de queimaduras (algumas das vítimas encontram-se nesse quadro).

A solidariedade de milhares de brasileiros e de cidadãos de outros países é algo positivo diante de tanta dor e se manifesta de diferentes maneiras. São voluntários que ajudaram e ajudam no salvamento, atendimento psicológico, médico, na preparação de alimentos para as famílias que foram ao ginásio reconhecer e velar seus mortos, como nos enterros. Outros se dispuseram a doar sangue, depois do apelo feito pelas autoridades, uma necessidade que deverá durar por semanas. E palavras de consolação, ombros amigos ou orações se multiplicam por todas as partes.

Mas apesar disso, algo mais emergente foi sinalizado por essa tragédia: é preciso apurar, punir e haver fiscalização e cobrança de regularização, não só em Santa Maria, mas por todo país. E mais – a criação de um projeto de lei a respeito de âmbito federal. Até hoje não há. Estamos no ano de 2013, não é tempo suficiente para isso? Ou esperaremos mais um século?

Nos noticiários, nesses dias que se sucedem a essa carnificina, falam do efeito dominó de fiscalizações em “casas noturnas” em vários estados ou de planejamento para tal. Mas será que essas ações serão, de fato, efetivas ou tudo voltará daqui a pouco ao que era? Se constataram tantas irregularidades, quer dizer que elas já estavam instaladas há muito tempo.

O que é incabível para o mínimo de senso ético é observar que alguns tomam iniciativas com preocupação principal voltada à imagem da segurança do Brasil para a Copa, no ano que vem. A preocupação primeira tem de ser a vida de cada cidadão e cidadã deste país. Sem esse princípio, tudo se torna vão e por força de analogia: efeito de pirotecnia.

 

Pesquisar no site

Blog

19/02/2018 19:33

Quilombos: O simbolismo da força de séculos dialoga com a decisão do STF

Por Sucena Shkrada Resk Homenagear postumamente lideranças quilombolas, como Dandara e Zumbi dos Palmares (século XVII), Tereza de Benguela, do Quilombo de Quariterê, MT (século XVIII) e Helen Moreira, do Quilombo Ilha de Vera Cruz, BA; como também, Maria Trindade da Silva Costa, do Quilombo...
07/02/2018 10:17

#Pílulassocioambientais - A arte voltada ao combate ao racismo

Por Sucena Shkrada Resk   Sensibilidade, criatividade e reutilização de recursos em forma de bonecas artesanais, com um propósito maior: combater o racismo, que nada mais é do que incentivar o respeito às diferenças e valorização das identidades de gênero, cor, raça e cultura... Nessas...
29/01/2018 17:06

#Saneamentoambiental – Tamanduateí, um rio metropolitano em agonia

Por Sucena Shkrada Resk  A nostalgia de recordar do Tamanduateí sinuoso e límpido (Tamanduá grande, em tupi), na Região Metropolitana de São Paulo (RMSP), que já foi conhecido como Rio Piratininga, talvez esteja ainda nas memórias de bisavós e tataravós e de alguns relatos em bibliografias...
26/01/2018 14:56

#Saneamentoambiental – 2018: lixões e aterros controlados, uma realidade ainda gritante no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O Ano era 2010, e a  Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei 12.305/2010) trouxe a esperança de que a gestão pública brasileira, de uma forma geral, iria se redimir dos sucessivos erros no quesito infraestrutura, ao longo de décadas. Mas do papel à realidade,...
19/01/2018 17:52

#Saúdeambiental - O que tirar de proveito no Brasil do exemplo da mobilização pela recuperação da bacia hidrográfica do Tejo, na Europa?

Por Sucena Shkrada Resk Quem um dia viu o rio Tejo, o mais extenso da Península Ibérica (da Espanha a Portugal), com 1.007 km e cuja bacia hidrográfica ocupa 80,6 mil km 2, poluído, quase sem vida e seco em vários trechos, há alguns anos observa um esforço para o processo de revitalização, de forma...
17/01/2018 08:51

#Saúdeambiental - Até quando políticos não priorizarão solução para esgoto em agenda da gestão pública?

Por Sucena Shkrada Resk Falar sobre a situação do esgotamento sanitário no Brasil é um assunto “espinhoso”, imprescindível, mas que raramente faz parte da pauta de campanhas políticas nacionais, estaduais e municipais e de programas de gestão pública de boa parte de municípios deste Brasil de...
09/01/2018 10:34

#Saúdeambiental - Febre amarela, do século XIX a 2018: o que Oswaldo Cruz faria nos dias de hoje?

Por Sucena Shkrada Resk  Final do século XIX e 2018. Neste ir e vir da história, a questão sanitária no Brasil é ainda o calcanhar de aquiles que permeia a condução da gestão pública no país. Hoje o aumento do número de casos comprovados e suspeitos de febre amarela silvestre (pelos vetores...
05/01/2018 08:59

#Protagonismofemininoindígena: da comunicação à incidência política

Entrevistada da semana: Telma Taurepang Por Sucena Shkrada Resk No Brasil e em outros países da América Latina, o papel da mulher indígena se destaca cada vez mais. No universo da comunicação, existe a iniciativa Comunicadoras y Realizadoras Indígenas, que tem incentivado este protagonismo na AL....
26/12/2017 11:45

Uma brasileira chamada Nise da Silveira...uma rebelde a favor da humanização

Por Sucena Shkrada Resk “...Nunca me fizeram a pergunta que eu queria ouvir em minha vida: onde estão os homens e mulheres que pintaram estas obras artísticas...? Este teor de questionamento quanto ao interesse da imprensa feito pela psiquiatra alagoana Nise da Silveira (1905-1999), em documentário...
18/12/2017 12:27

Ilhas do Pacífico: as lições das crianças das nações insulares na COP 23 – Bula!

Por Sucena Shkrada Resk A Aliança dos Pequenos Estados Insulares (em inglês, Alliance of Small Island States – AOSIS, com 39 países) assumiu, pela primeira vez, um protagonismo na condução da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP 23), em Bonn, Alemanha, ao ter na...
11/12/2017 09:04

#Direitoindígena - Coordenadora na COIAB destaca: Protocolos de consulta de diferentes povos indígenas na Amazônia são instrumentos de luta pelos direitos

Entrevistada da semana - Angela Amankawa Kaxuyana   Por Sucena Shkrada Resk    O protagonismo indígena na defesa dos seus direitos é a pauta desta semana. Na seara do contexto amazônico, a entrevistada é Angela Amankawa Kaxuyana, da TI Kaxuyana Tunayana, do extremo Norte do Pará, que...
27/11/2017 14:40

Médica sanitarista fala sobre o universo da saúde ambiental, com destaque sobre os impactos dos agrotóxicos

Por Sucena Shkrada Resk A entrevistada, desta semana, do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, é a médica sanitarista Telma de Cassia dos Santos Nery, que trata do tema Saúde Ambiental, com os impactos dos agrotóxicos e da poluição, neste contexto, e também explica o trabalho...
14/11/2017 14:01

Vozes do Direito indígena refletem sobre cenário atual

  Por Sucena Shkrada Resk Compreender os conceitos de bem-viver, de patrimônios imaterial e espiritual, do significado holístico da terra, do ecossistema e do território e do planeta como casa (mãe “pachamama”) e local sagrado, é o grande desafio das visões herméticas dos Estados que ainda se...
02/11/2017 18:15

As mudanças climáticas sob o olhar indígena

Por Sucena Shkrada Resk Subestimar os conhecimentos tradicionais que se perpetuam por gerações é um ato de ignorância que tem se repetido por décadas. No contexto das mudanças climáticas, essa constatação se torna mais evidente, pois a vivência dos povos indígenas e suas relações cosmológicas...
18/10/2017 09:33

Do papel à realidade, existe um “gap” na mitigação (redução de danos) e adaptação aos eventos extremos no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O que dizer sobre o “Velho Chico” agonizando, e pessoas e animais tendo de dividir a pouca água que resta, entre outras centenas de cenas desoladoras por todo país? Imagens que ficam gravadas para sempre. As manchetes sobre eventos extremos e desastres naturais no Brasil,...
16/10/2017 08:42

Ivaporunduva ecoa vozes pelos direitos quilombolas no Brasil

O Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk coletou dois depoimentos, há algumas semanas, em Eldorado, SP, de lideranças do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, em defesa dos direitos adquiridos pelas comunidades em todo o Brasil, com o decreto 4887/2003, que regulamenta a...
11/10/2017 11:35

Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro Maria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A...
09/10/2017 17:53

Justiça socioambiental: centenas de vozes ecoam homenagem póstuma à pescadora Nicinha, no Rio de Janeiro

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro  A pescadora Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida por Nicinha, liderança feminina do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no estado de Rondônia, defendia os direitos das populações afetadas pelo Complexo Hidrelétrico, no rio Madeira e seus...
25/09/2017 12:22

Gameleira traz um exemplo propositivo de afirmação identitária quilombola

PÍLULAS SOCIOAMBIENTAIS Por Sucena Shkrada Resk O Museu Gídio Veio, da Comunidade de Remanescentes Quilombolas de Gameleira, em São Tomé, no Rio Grande do Norte, é uma prova de que o senso de pertencimento étnico ao território pode ser ‘perpetuado’ por meio de ações proativas, que tragam o resgate...
21/08/2017 16:06

Ser quilombola: um diálogo com a memória ancestral

Por Sucena Shkrada Resk, em Eldorado (SP) - 20/08/2017 “Eu tenho uma memória ancestral que diz quem eu sou”, destaca o quilombola Ronaldo dos Santos, coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa afirmação nunca foi tão...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk