Mães de Maio: a força diante da experiência da perda violenta de um filho, por Sucena Shkrada Resk

06/12/2012 18:26


Olhos úmidos, fala embargada e uma saudade quase que insuportável. Com essa fusão e profundidade de sentimentos expressos, conheci ontem a dona de casa M.H.T.P, 55 anos, da cidade de Santos, que tenta se recuperar da recente perda violenta de seu filho caçula José Rodrigo, de 25 anos, no início de outubro. O rapaz, que fazia trabalhos como DJ e se capacitava em Informática, foi assassinado no antigo bairro onde a família morou por muitos anos na cidade. Ele e mais duas pessoas perderam suas vidas em uma chacina e deixaram suas famílias praticamente “sem chão”, como ela conta. Hoje M.H.T.P. tenta encontrar forças ao participar do Movimento Mães de Maio.

À base de medicamentos anti-depressivos, essa senhora, que sofre também de hipertensão, disse que recebeu o aviso, quando tocou o telefone em sua casa de madrugada. “Disseram para mim – aconteceu uma desgraça, mas pensei que ele estivesse ferido, jamais pensei que o encontraria morto. ‘Perdi as pernas’ e fui parar no hospital”, recorda.

A tragédia na vida da família ainda deixou uma pergunta não respondida: Por que, já que o jovem não tinha antecedentes criminais e nem aparentemente inimigos. E outra questão: quem irá dar respostas conclusivas e fazer justiça, para que não vire um caso sem solução? “Mas mesmo que tivesse, não tinham o direito de matar ninguém, mas prender”, desabafa M.H.T.P. Ela espera que testemunhas, câmeras que haviam na região possam mostrar o que ocorreu, para que os culpados sejam encontrados pela polícia.

“Quando ele saiu, me disse que voltaria logo. Tudo aconteceu de madrugada, quando foi encontrar seus amigos desde a infância, na Vila Matias, de onde saímos há três anos. Contaram para nós que ele estava sentado na porta de uma lanchonete e que uma moto passou na frente e logo em seguida, um carro preto, de onde desceram homens e começou a chacina. Meu filho levou um tiro nas costas e outro na nuca”, diz M.H.T.P.

Nesse momento é difícil para ela lembrar da covardia sofrida por seu filho. A dona de casa disse que não conseguiu mais retornar para sua casa, onde vivia com ele e seu marido. “Agora, nós dois estamos na casa de minha outra filha e queremos encontrar outro lugar para viver”, contou.

Ao ouvir seu relato e de outras mães que se pronunciaram ontem no Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Estado de São Paulo, observei como é importante não perdermos a “escuta” de vozes que geralmente ficam reprimidas pelo sistema ou pelo medo. Quando vi as dezenas de fotos de jovens saudáveis, sorrindo, e que agora fazem parte das lembranças dessas mulheres, foi uma sensação estranha, como se de repente se abrisse um vazio ou um congelamento no tempo.

A história da dona de casa encontra sintonia com outras experiências de perdas de várias mães que integram o movimento Mães de Maio, criado em 2006, quando ocorreram mais de 493 mortes de jovens, em sua maioria, na Baixada Santista. Outras mães (familiares e simpatizantes da causa) se somaram ao grupo, quando houve outra onda de violência em 2010. Nesta quarta-feira, o movimento lançou o segundo livro que narra essas perdas com relatos, poesias e também depoimentos de quem foi vítima da Ditadura Militar. A obra é “Mães de Maio, Mães do Cárcere – A Periferia Grita (Nós por Nós, São Paulo, 2012). A iniciativa do grupo e a publicação ganharam reconhecimento da Rede Social de Direitos Humanos ontem.

Mais informações sobre o movimento em https://www.maesdemaio.blogspot.com.br/ .

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
06/12/12 - Reflexão: a resiliência diante das perdas

 

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