Inhotim: arte e verde superam mineração no entorno, por Sucena Shkrada Resk

15/04/2012 21:37

Em uma região na qual predomina um histórico de mineração no entorno, o Horto Florestal do Instituto Inhotim, em Brumadinho, a 60 km de Belo Horizonte, no mínimo, chama a atenção pelo efeito contrastante que causa para quem visita a unidade, que ocupa uma área de 100 ha. O espaço abriga uma das maiores coleções mundiais de palmeiras (Arecaceae), com número aproximado de 1,5 mil espécies de diferentes regiões tropicais do planeta, além de nativas de Mata Atlântica e Cerrado. A curiosidade, no entanto, é estimulada, porque em meio a esse cenário, existe literalmente um museu a céu aberto.

A iniciativa da criação desse espaço partiu do minerador e colecionador de arte, Bernardo Paes, que hoje continua à frente do Instituto. O projeto paisagístico começou a ser constituído a partir dos anos 80 e o acesso ao público teve início em 2005. Ele doou a maioria das obras de sua coleção particular ao longo dos anos ao acervo. A unidade só se tornou horto, cinco anos depois. Oficialmente, desde outubro de 2006, a área já registrou mais de 769 mil visitantes, que vêm dos mais diferentes lugares do mundo.

Apesar de Bernardo ainda continuar empresário da área de mineração, ele afirma que hoje não exerce nenhuma função operacional no segmento, se dedicando totalmente a Inhotim.

Quando caminhamos por suas alamedas e trilhas, o que fica perceptível, é a influência do paisagista Burle Marx, em alguns trechos. Para ter condições de conhecer todo o espaço, são necessários, pelo menos, dois dias de visitação.

O cuidado com o paisagismo é uma característica que impressiona ao se conhecer Inhotim. Para manter toda essa estrutura funcionando, o instituto mantém um quadro de cerca de 1000 funcionários, sendo 85% moradores da cidade de Brumadinho, segundo Letícia Aguiar, gerente de Meio Ambiente do espaço. “Nossos funcionários possuem treinamento de capacitação para cada área que exercem como jardinagem, restaurantes, administrativo, receptivo, eventos, entre outros. Além disso, participam de cursos de inglês e possuem reembolso de mensalidade de cursos técnicos, de graduação e de reciclagem”.

O cenário ambiental é cultural se divide ao redor de cinco lagos. Segundo a gerente, além das espécies de palmeiras, as florestas existentes são secundárias em diferentes estágios de desenvolvimento, ou seja, resultantes de um processo natural de regeneração da vegetação.

Parte da área que hoje abriga o Instituto Inhotim já foi local de lavra de mineração, em processo avançado de degradação ambiental. São cerca de 20 hectares de jardins plantados, além dos viveiros, compostos por mais de 4 mil espécies nativas e exóticas de todo o mundo. “Dentre as plantas nativas da Mata Atlântica, destacam-se o palmito-juçara, espécie ameaçada de extinção, além de diversas espécies de imbés, begônias, orquídeas e bromélias (aproximadamente 500 espécies)”.

Os estudos realizados na área indicaram cerca de 132 espécies de aves nos remanescentes florais e 168 nos jardins, sendo as mais comuns das famílias dos bem-te-vis e beija-flores. Há também duas espécies ameaçadas de extinção, como o gavião-de-penacho (Spizaetus ornatos) e o gavião-pega-macaco (Spizaetus tyrannus), além de espécie rara na região, como o urubu-rei (Sarcoramphus papa).

A integração dessas aves às instalações culturais é interessante. Muitos fazem voos rasantes ou passeiam nas águas de piscinas que fazem parte das obras de arte.

Também podem ser encontrados no horto, mamíferos de médio e grande porte, entre eles, a espécie Callicebus nigrifrons, conhecida popularmente como “guigó” ou “sauá”. “Pode ser considerada uma espécie bandeira da mata atlântica, pois é endêmica deste tipo de bioma e é classificada como quase ameaçada, na Lista Vermelha de Espécies Ameaçadas de Extinção da International Union for Conservation of Nature (IUCN).

A gerente explica que a unidade ainda desenvolve trabalhos de resgate de flora em áreas sujeitas ao licenciamento ambiental. “Essas espécies são mantidas no acervo botânico originando protocolos de cultivo e propagação. Muitas são raras, ameaçadas de extinção ou de potencial de uso econômico. Espera-se com estes projetos, colaborar em ações de recuperação de áreas degradadas e restauração de ecossistemas”.

A unidade também mantém uma Biblioteca, em que são desenvolvidos encontros do Projeto Sala Verde, criado pelo Ministério do Meio Ambiente (MMA), em que existe o incentivo a reflexões e divulgadas ações ambientais.

À comunidade de estudantes de ensino médio de Brumadinho, é dirigido o Projeto Jovens Agentes Ambientais. O programa de formação ambiental dura quatro eses.

Preservação da mata atlântica
Além do Jardim Botânico, o Instituto Inhotim mantém outra área próxima, que desde maio de 2010, é uma Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN), com aproximadamente 150 ha de vegetação nativa. “O inventário da flora local revelou até o momento mais de 400 espécies e permitiu estimar que existam mais de 1000 espécies da flora nativa, muitas delas, típicas da Mata Atlântica”, esclarece Letícia.

“A criação da RPPN tem importância significativa para o Instituto, uma vez que objetiva a conservação do espaço para a pesquisa e a educação ambiental. Vai contribuir também com o desenvolvimento do Jardim Botânico em estudos de botânica, fauna, geologia e sensoriamento remoto”, afirma a gerente.

A mineração no entorno de Inhotim
Leticia Aguiar explica que, nas proximidades de Inhotim, antigas áreas mineradas estão presentes em dois pequenos fragmentos, além de zonas de mineração de empresas vizinhas atualmente em operação. “Estas áreas foram, inclusive, incluídas em projeto de que recentemente recebeu o apoio do Fundo de Mudanças Climáticas (Fundo Clima) do Ministério do Meio Ambiente (MMA), que consiste no desenvolvimento de um protótipo para iniciar um processo de recuperação de áreas degradadas por mineração”

Para isso, segundo a gerente, o Instituto realizará diversas pesquisas, desde a parte florística até o inventário de emissões/remissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs), incluindo também a educação ambiental e o envolvimento comunitário no planejamento e execução do projeto.

Acervo cultural
No aspecto cultural, Inhotim hoje mantém mais de 500 obras distribuídas em exposições fixas e itinerantes de artistas brasileiros e estrangeiros. Uma das mais curiosas, é a Sonic Pavilion, de Doug Aitken, na qual se ouve os ruídos do fundo da Terra, originados de um grande furo de 200m de profundidade, onde foram colocados microfones.

Estive por lá, nos dias 29 e 30 de dezembro do ano passado...

 

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