“Eu quero minha história de volta”, diz ex-moradora de Paracatu de Baixo, MG

04/02/2020 12:41

Desabafo ocorre sobre recordações dos impactos do rompimento de duas barragens de rejeito da Samarco

Por Sucena Shkrada Resk*, em Mariana (MG)

Foto: vítima de Paracatu de Baixo - rompimento barragem rejeito Samarco. Crédito da Foto: Sucena Shkrada Resk “Levaram embora nossa história, eu não me sinto feliz”. Com esta frase, M.C.S., 45 anos, antiga moradora da comunidade de Paracatu de Baixo, subdistrito a 35 km de Mariana, MG, sintetiza o sentimento que ainda persiste com intensidade, após o rompimento de duas barragens de rejeitos de minério da Samarco (da Vale e da BHP Billiton), na região de Bento Rodrigues, que compromete até hoje a Bacia do Rio Doce até a região estuarina do Espírito Santo. O dia 5 de novembro de 2015 abriu uma lacuna em sua vida pacata na zona rural, quando em poucos minutos se viu obrigada a sair de sua casa com familiares, deixando tudo para trás, que ficou sob a lama. Ao todo, oficialmente 140 famílias foram afetadas diretamente nesta área e 255, na comunidade de Bento Rodrigues.  A tragédia resultou em dezenove mortes.

“Sinto falta da comunidade, de ver as pessoas (olho no olho). Tem gente de Paracatu que não vejo há quatro anos. Cada um foi para um bairro diferente. Apesar de eu estar com meu marido e meus seis filhos, em um sobrado alugado pela empresa (moradia temporária), em Mariana, e recebermos uma ajuda financeira, não me sinto à vontade. Aqui não é nosso”, conta a moradora. A família aguarda uma casa definitiva em projeto de construção de novo subdistrito, que está sendo providenciada pela Fundação Renova, responsável pelo atendimento às vítimas, de acordo com o Termo de Transação e Ajustamento de Conduta (TTAC), firmado em 2016. Mas quando conseguirão mudar, ainda é uma interrogação. A estimativa é que seja até dezembro, segundo ela. Enquanto isto, o compasso de espera acumula anos. 

M.C.S. trabalhava em serviços gerais em uma escola rural, além de ajudar o marido agricultor, que agora trabalha cinco dias em uma fazenda e só consegue voltar aos finais de semana para casa. “Quando tudo aconteceu, meu psicológico ficou afetado. Preferi não trabalhar mais com crianças em outra escola aqui por Mariana e consegui um serviço administrativo (mais impessoal)”, diz. Dessa forma, segundo ela, sai do trabalho e vai direto para casa. Deixou de ter o convívio social de antigamente e, por muitas vezes, se sente segregada, por pessoas que não conhecem ou entendem as perdas e o sofrimento pelos quais passaram e ainda perduram. "Tem muita gente que acha que não temos direito a estes benefícios e isso me deprime", desabafa.

A rotina da família foi quebrada. “Meus filhos agora não podem mais conviver diariamente com o pai. Nossa vida era muito tranquila e unida no sítio”, recorda.

Como um pequeno elo, para não esquecer a vida no campo, o casal mantém uma horta no fundo do sobrado, onde atualmente cultiva couve, entre outras hortaliças. “Eu queria minha história de volta, tudo ficou embaixo do barro. Nem nossos documentos conseguimos salvar, tivemos de refazê-los. Nunca mais poderei ver o nosso álbum do casamento, dos primeiros anos dos meus filhos. É como se tivessem apagado tudo. Nossa casa lá, construímos aos poucos, com esforço”, desabafa.

Nas suas memórias, ficou marcado o último dia em que viram a pequena Cachoeira de Paracatu, onde iam se banhar, nos momentos de lazer. “Foi no feriado de 2 de novembro, depois ela também desapareceu”.

Em um grupo de whatss-up com antigos vizinhos, M.C.S. consegue se atualizar sobre o processo da reconstrução da vila em outra área e como está a segurança dos moradores, ao longo destes anos. Cada vez que temporais assolam a região, uma sensação desagradável toma conta dela. “Fico triste. Em Monsenhor Horta (ontem, dia 24 de janeiro), uma amiga falou que estavam isolados, mas hoje já está tudo tranquilo, ainda bem”, relata. O Distrito de Antônio Pereira também sofreu com as águas. “Hoje (25 de janeiro) faz um ano da tragédia em Brumadinho, nem quis ver na TV. Foi bem pior, perdas de tantas vidas. Aqui foram principalmente perdas materiais e do meio ambiente. Nunca mais voltaremos ao nosso lar”.

O relato da moradora de Paracatu de Baixo revela um pouco da humanidade que fica escondida sob números e esquecida ao longo dos anos. São perdas imateriais, além das materiais, que talvez estas vítimas nunca superem.

(obs: em respeito ao seu pedido, sua identidade e imagem estão sendo preservadas. M.C.S. aceitou aparecer de costas nesta entrevista concedida ao Blog, em Mariana, MG, em 25 de janeiro de 2020).

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk):
08/02/2019 – Rompimentos de barragens de rejeitos minerais revelam cenário de insegurança no país
09/01/2019 – O Princípio da Precaução tão urgente e ao mesmo tempo, tão esquecido
14/08/2018 – O mercúrio nas veias da Amazônia
22/01/2017 – O ônus socioambiental da contemporaneidade “flex”
09/02/2016 – As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta
02/06/2013 – Memória socioambiental: o legado de Realidade
15/04/2012 – Arte e verde superam mineração no entorno

*Sucena Shkrada Resk - jornalista, formada há 28 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

 

—————

Voltar