Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

11/04/2016 12:44

Por Sucena Shkrada Resk

Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e 2.000 línguas presentes.  Hoje chegam a um universo entre 150 e 180. O que se vê é que as novas gerações estão cada vez mais distantes dos seus ancestrais.

A recuperação, por meio da memória oral, é uma das estratégias fundamentais para  tentar frear esta ruptura cultural na contemporaneidade. A tecnologia, que hoje é vista como uma das propulsoras deste perigo, pode ser convertida em benefício, se utilizada para este fim. Mas a pressão da urbanização e da monocultura e pecuária extensivas, entorno dessas terras, trazendo todo tipo de conflito, ainda é um dos principais males que afligem estes povos.

O projeto Vídeo nas Aldeias, que capacita os próprios índios a serem seus pauteiros, roteiristas, cinegrafistas e diretores é um caminho interessante para esta recuperação. Durante seu histórico, já foram produzidos documentários dos Ashaninka, Atroari, Enawenê-Nawê, Fulni-ô, Guarani-Mbya, Ikpeng, Kuikuro, Panará e Xavante, entre outros.

O Museu do Índio em parceria com a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), no RJ, também mantém o Programa de Documentação de Línguas e Culturas Indígenas-PROGDOC. As iniciativas envolvem dossiês lingüísticos com publicações, todo material de áudio e vídeo produzido durante as viagens a campo pelas equipes de pesquisadores de línguas indígenas com aprovação das comunidades envolvidas. Até 2015, foram 13 línguas documentadas. Mas todas estas ações dependem de financiamento e isso não pode sair de vista: a necessidade de maior investimento.

Fazer trabalhos organizados de educomunicação, que tenham dinâmicas que envolvam áudio, vídeo e escrita também são alternativas que podem promover esses estímulo para esta valorização. Em qualquer circunstância, o indígena tem de ser autor desse processo histórico e o branco, um facilitador, se for necessário.

Os dados do Censo de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), revelam que  37,4% dos 896.917 brasileiros que se declararam como índios falam a língua de sua etnia e 17,5% desconhecem o português. Ao mesmo tempo, há um fluxo migratório, traduzido pela declaração de 36%, que se estabeleceram em cidades e desse percentual, apenas 12,7% falam a língua. Apesar das escolas bilíngues serem oficializadas no papel, sob a coordenação do Ministério da Educação (MEC), muitas têm dificuldades de serem exercidas na prática. Há falta de suporte básico, quando se vê os problemas no dia a dia.


Quando menos de mil pessoas detêm o domínio de sua língua, aí está o sinal de que a mesma está ameaçada, de acordo com critérios internacionais. No Brasil, há também outras métricas, como do Museu Paraense Emilio Goeldi, que faz o recorte no limite de 100. Mas independente destes critérios, o que é um fato em comum: se nada for feito, as próximas gerações indígenas perderão suas conexões históricas e culturais. Estima-se que anualmente uma língua indígena tende a desaparecer nos próximos anos.

Aqui no Noroeste do estado do Mato Grosso, Amazônia, onde estou trabalhando e vivendo há um ano e quatro meses, isso ocorre, por exemplo, com o povo Rikbaktsa, que se divide em três aldeias, e falam o Rikbaktsa, do tronco Macro-Jê.  Segundo a Unesco,  o perigo é acentuado.

Em 2011, foi feito um levantamento pelo Museu do Índio, do perfil tipológico da língua Rikbaktsa, dentro do Projeto de Documentação da Cultura. Na ocasião, os pesquisadores não tiveram condições de fazer o levantamento no Território Indígena Escondido, onde estou mais próxima, e conheço representantes da aldeia local. De acordo com os pesquisadores, durante a atividade, pôde ser observado que na casa dos homens (mykyry), onde fazem plumárias, flechas e degustam caças das quais contam os pormenores das caçadas e onde se ensina mais intensamente todas estas atividades aos mais jovens, o idioma nativo é mais cultivado. Segundo o Museu Emilio Goeldi, no caso dos Apiakás, também em MT, o último falante fluente morreu, em 2010, aos 70 anos.

Segundo especialistas, no inventário de perdas recentes, estão a da língua xipaia, de povo da região de Altamira (PA) e dos guató. Ao mesmo tempo, há alguns casos de resiliência, como o do povo Fulni-ô, no Nordeste, que está conseguindo manter a sua língua.  

Para organizar essa documentação imensa, a academia e alguns órgãos internacionais e nacionais desenvolvem trabalhos de registros das línguas indígenas, que são importantes para que esta memória não se perca. Entre eles, estão:

- Atlas das Línguas da Unesco;
- Línguas Indígenas no Site do ISA;
- Portal Ethnologue.com
- Site do Laboratório de Línguas e Literaturas Indígenas da Universidade de Brasília.

Estas iniciativas são importantes, mas não cobrem a lacuna maior que envolve o contexto de autonomia indígena, que sofre pressões pelo modelo de desenvolvimento que vivemos.

Veja outros artigos que escrevi a respeito deste tema:
16/10/2014 – Guarani-kaiowás resistem à dinâmica da desigualdade, mas até quando?
01/10/2014 – Especial Desenvolvimento Sustentável – parte 7: o direito dos povos indígenas
08/01/2013 - Atenção a histórias de vida sobre a luta em favor dos direitos humanos
03/07/2012 – Cúpula dos Povos: um olhar indígena para além do Brasil
06/01/2012 – Que chance teve a criança indígena?
11/09/2011 - Rio+20: Aldeia da Paz deverá ser referência para alojamento
30/06/2011 - 50 anos de Xingu: memórias de reportagens
26/10/2010 - A Psicologia e os índios: na busca de respostas
26/11/2010 - Especial Fórum Social Pan-Amazônico-Abertura leva centenas de pessoas à orla
28/08/2010 - Entremundos:olhar atento ao leque de conhecimento
28/08/2010 - Entremundos: Identidade, uma questão semântica?
29/06/2010  - Mudanças Climáticas em pauta
28/01/2010 - Esp. FSM 2010 - Boaventura Santos traça perfil da hegemonia
28/01/2010 - O clamor dos povos indígenas
26/01/2010 - Índios na ofensiva ideológica
*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk
 

Pesquisar no site

Blog

29/11/2018 15:20

Conservação de Paranapiacaba e entorno frente a projetos de novos empreendimentos

Por Sucena Shkrada Resk* Empreendimentos que por sua natureza econômica causam passivos ambientais devem obrigatoriamente, por determinação legal, antes de serem licenciados, esclarecer da forma mais transparente possível todos os cenários possíveis do comprometimento relacionado à sua atuação, que...
28/11/2018 16:54

A miopia de gestão sobre as mitigações e adaptações às mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk* Às vésperas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima (COP 24), o Brasil desenha um quadro desestruturador das medidas quanto a mitigações e adaptações às mudanças climáticas. Diplomaticamente falando, a desistência da...
08/11/2018 15:43

Vivemos um hiato temporal brasileiro socioambiental

Por Sucena Shkrada Resk* A agenda socioambiental brasileira sofre, nas últimas décadas, de um anacronismo crescente, no qual o que muito do que está escrito nas legislações nacionais e, inclusive, em tratados internacionais ratificados pelo país, não se configura na prática da realidade diária....
08/10/2018 12:48

2018: a crônica ambiental dos 30 anos

Por Sucena Shkrada Resk  O ano de 2018 é simbólico por representar o aniversário de 30 anos de importantes acontecimentos na trajetória do ambientalismo brasileiro. Apesar de não ser totalmente infundado o velho ditado de que no Brasil temos memória curta, essas histórias ainda pulsam, pois...
26/08/2018 16:33

Refugiados: os diversos contextos das fronteiras humanitárias

Por Sucena Shkrada Resk* As relações humanas trafegam em linhas tênues que reúnem processos culturais centenários, questões socioeconômicas, religiosas e limites geográficos, que integram a geopolítica, que ora se fundem, e ora segregam. Historicamente é isto que vimos em diferentes partes do mundo...
14/08/2018 18:30

O mercúrio nas veias da Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre “mercúrio” fosse um assunto somente de interesse da pauta astronômica? Voltando à realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contaminação pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em...
11/07/2018 18:00

Entrevista da semana - Defensor público fala sobre o desafio do combate ao uso de agrotóxicos em São Paulo e em todo o Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O advogado Marcelo Carneiro Novaes, defensor público do Estado de São Paulo, que integra a coordenação do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, que começou a se reunir em novembro 2016, é o entrevistado desta semana do Blog Cidadãos do Mundo...
17/06/2018 14:35

Refugiados: uma situação que reflete o modelo de desenvolvimento de uma humanidade adoecida

Por Sucena Shkrada Resk Século XXI em andamento. O que, em princípio, seria um período a evocar um status ‘positivo’ de modernidade, revela um momento histórico em que lacunas cíclicas de humanização são refletidas na quantidade de refugiados pelo planeta, que segundo o Alto Comissariado das Nações...
14/05/2018 14:29

PANCs: um universo da segurança alimentar a explorar

Por Sucena Shkrada Resk  O tema da segurança alimentar é rico em multiplicidades de enfoques, sendo que um deles trata do reconhecimento da importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O termo foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, resultando no livro...
07/05/2018 14:08

O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk Desmatamento, mudanças climáticas e consequentemente a facilitação para um aumento de vetores de doenças infectocontagiosas são o cenário perfeito, que está sendo construído, nos últimos anos, na Amazônia brasileira, onde um dos indícios desta pressão é a ascendência de...
20/04/2018 17:36

Século XXI: a cartografia da violência no campo

  Por Sucena Shkrada Resk   O mapeamento do processo de violência no campo revela um Brasil com janelas de oportunidades perdidas sob um modelo perverso, que tem no centro a disputa da terra. Os estados do Pará (21), Rondônia (17), Bahia (10), Mato Grosso (9), Amazonas (3), Minas...
04/04/2018 13:27

O simbolismo do adeus à Sudan, o último rinoceronte-branco do norte (macho) do planeta!

Por Sucena Shkrada Resk O ancião Sudan, no alto dos seus 45 anos e cerca de 2,3 mil quilos e 1,82m de altura, não venceu a batalha que travava contra uma infecção que atingiu sua pata direita traseira, no mês de março. O último exemplar macho de rinoceronte-branco do norte do planeta foi submetido...
03/04/2018 09:05

#Pulverizaçãoaérea: Sabemos realmente as externalidades negativas do ciclo do que comemos?

Por Sucena Shkrada Resk O quadro de vulnerabilidade a que somos expostos com a “insegurança” alimentar e ataque aos direitos humanos mais básicos é cada vez maior no Brasil. Inúmeros casos de sobrevoos de pulverizações aéreas de agrotóxicos são notificados pelo país, mas a maioria de nós, sequer...
27/03/2018 12:29

Jogo de titãs: O implacável Antropoceno x a resiliência ecossistêmica

Por Sucena Shkrada Resk  Hoje 75% da superfície terrestre estão impactadas pelas atividades humanas e a projeção é de que essa destruição atinja 85% até 2050  e já afeta pelo menos 3,2 bilhões de pessoas no planeta. Alguém acha pouco? Mais de 100 pesquisadores de 45 países da Plataforma...
23/03/2018 10:29

#Recursoshídricos: o pedido de socorro ao ecossistema

Por Sucena Shkrada Resk O Informe Mundial das Nações Unidas sobre o Desenvolvimento dos Recursos Hídricos 2018, lançado nesta semana, tem como mote “as soluções baseadas na natureza” (SbN) para a gestão das águas, um conhecimento milenar mas que conceitualmente tem sido desenvolvido desde 2002....
19/03/2018 15:00

Março de 2018: seca e estiagem marcam a realidade brasileira, na semana dos fóruns das águas

Por Sucena Shkrada Resk Diante da realidade, não há meias palavras, quando se trata de insegurança hídrica e do cenário das mudanças climáticas. Neste mês das águas, em que fóruns internacionais ocorrem em Brasília para discutir o tema em diferentes ângulos e propor soluções, dezenas de municípios...
08/03/2018 13:00

Usinassolares: do protagonismo chinês às iniciativas que começam a se destacar timidamente na matriz nacional brasileira

Por Sucena Shkrada Resk   A energia solar fotovoltaica se projeta de forma gradativa no mundo, desde os anos 2000. No contexto das implementações de usinas e fazendas solares (fontes centralizadas), estão a China - ainda o maior poluidor do mundo, por causa do carvão, e ao mesmo tempo o...
05/03/2018 14:55

Mês das Mulheres: A relevância permanente das contribuições socioambientais de Wangari Maathai

Por Sucena Shkrada Resk  Quando em 25 de setembro de 2011, a queniana Wangari Maathai faleceu, devido a um câncer, escrever no dia seguinte um artigo a respeito de sua trajetória de vida (veja também abaixo, artigo: Wangari Maathai: um exemplo a seguir), como manifestação de respeito ao...
19/02/2018 19:33

Quilombos: O simbolismo da força de séculos dialoga com a decisão do STF

Por Sucena Shkrada Resk Homenagear postumamente lideranças quilombolas, como Dandara e Zumbi dos Palmares (século XVII), Tereza de Benguela, do Quilombo de Quariterê, MT (século XVIII) e Helen Moreira, do Quilombo Ilha de Vera Cruz, BA; como também, Maria Trindade da Silva Costa, do Quilombo...
07/02/2018 10:17

#Pílulassocioambientais - A arte voltada ao combate ao racismo

Por Sucena Shkrada Resk   Sensibilidade, criatividade e reutilização de recursos em forma de bonecas artesanais, com um propósito maior: combater o racismo, que nada mais é do que incentivar o respeito às diferenças e valorização das identidades de gênero, cor, raça e cultura... Nessas...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk