Do papel à realidade, existe um “gap” na mitigação (redução de danos) e adaptação aos eventos extremos no Brasil

18/10/2017 09:33

Por Sucena Shkrada Resk

O que dizer sobre o “Velho Chico” agonizando, e pessoas e animais tendo de dividir a pouca água que resta, entre outras centenas de cenas desoladoras por todo país? Imagens que ficam gravadas para sempre. As manchetes sobre eventos extremos e desastres naturais no Brasil, nos últimos anos, destacam a recorrência de períodos mais extensos de seca, estiagem e chuva em diferentes biomas no país, que não mais se enquadram ao que se tinha como padrão de estações nestas localidades. Muitos cientistas apontam que são situações que podem ser relacionadas aos avanços das Mudanças Climáticas, com intervenções de fenômenos, como o El Niño e La Niña, entre outros. O fato é que as ocorrências são gradativas e mais de 1,1 mil municípios se encontram hoje em situação de emergência ou de estado de calamidade pública no Brasil.

Transversalmente, a água está relacionada à maioria dos eventos, seja pela ausência ou pelo excesso, combinada ao desmatamento, queimadas, e uso e ocupação do solo desordenados, falta de saneamento ambiental e consumo desmedido de água na irrigação. Relatórios e mais relatórios de órgãos que controlam ou pesquisam estes aspectos se repetem, mas os efeitos práticos de ações na ponta não ocorrem. Sem dúvida, o Nordeste apresenta os efeitos mais perversos, com seis anos de seca/estiagem consecutivas.

As consequências são a savanização gradativa a olhos nus, como na Amazônia já prevista até o final do século, em estudos no Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), destacados por Carlos Nobre, associados ao aumento de incêndios, queimadas, enxurradas, deslizamentos mais frequentes e um quadro que atinge, em especial, as populações de baixa renda, mais vulnerabilizadas.

Este conjunto de fatos de origem antrópica e não-antrópica revela a ‘incapacidade’ de municípios para dar respostas mais rápidas de mitigação (redução de danos) e adaptação. Há um “gap” representativo no que tange a investimentos em infraestrutura de qualidade (com vida útil de longo prazo), ao mesmo tempo, que muitos municípios ‘crescem’ de forma descontrolada. Ano após ano, as manchetes se repetem cada vez mais desoladoras, em que famílias resilientes ‘resistem’. Mas até quando?

Até o último dia 17, a Defesa Civil Nacional divulgou que 1.134 municípios são reconhecidos em situação de emergência ou de estado de calamidade pública no país, predominantemente no Nordeste e no estado de Minas Gerais, O maior número de ocorrências na BA (231), com situação de estiagem, seca e dois casos de erosão costeira/marinha, em Mucuri e Prado, e em MG (189). Populações dependem da água que vem em carros-pipa e quem vive nos rincões sofre muito mais para ter este acesso.Na região sul, o RS é o estado com maior número de casos (168), com enxurradas, inundações, tempestades e alagamentos.

Nesse contexto de perdas e danos, que infere estado de subnutrição, problemas de saúde agravados, aumento de internações no Sistema Único de Saúde (SUS) e sequelas, sequer dimensionadas, de efeitos que afetam diferentes gerações, as estatísticas revelam uma realidade cruel, com mortes, desalojados, desabrigados, destruição de fauna e flora, de bens públicos e de acessos logísticos. Nas áreas rurais, principalmente pequenos agricultores veem completamente aniquiladas as agriculturas de subsistência ou que geram renda para as suas famílias.

O Centro de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden), que integra o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, desde 2011, monitora hoje 957 municípios em todo Brasil, dentro do escopo do Plano Nacional de Gestão de Riscos e Respostas a Desastres. Uma das imagens mais gritantes que foram apresentadas recentemente na mídia, foi dos cerca de 3 milhões de peixes mortos no leito que secou da Lagoa Itaparica, a maior marginal do “Velho Chico”, entre Xique-Xique e Gentio do Ouro, na BA.

Um boletim sobre a situação da seca no semiárido e impactos no mês de setembro, que mapeia este cenário, foi divulgado neste mês, por sua equipe técnica. A seca mantém-se principalmente nas porções oeste e norte da Região Nordeste. Em alguns pontos isolados nos Estados do Piauí, Ceará, Pernambuco e Maranhão, já perdura além de vinte um meses, e 11 municípios se encontram na categoria de seca severa.

Em áreas rurais, cerca de 360 municípios tiveram as atividades agrícolas e/ou pastagens afetadas em aproximadamente 500 mil hectares, em especial, na BA, que atingiu também 31.459 estabelecimentos de agricultura familiar.

O Sistema de Alertas e Visualização de Áreas de Risco – SALVAR, do Cemaden, é uma plataforma computacional desenvolvida para monitorar dados ambientais, que ainda não dá conta de um território tão amplo, quanto o Brasil . E já existem previsões climáticas trimestrais, que são importantes para orientar os gestores públicos, que por muitas vezes, não têm equipes ou capacidade técnica e ‘vontade política’ para utilizar da melhor forma estes dados.

Para os próximos meses, algumas das sinalizações são de que os açudes na região semiárida do Nordeste permanecerão críticos, com volumes armazenados nos reservatórios equivalentes dos estados de Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte e Ceará respectivamente iguais a 4,8%, 8,7%, 15,4% e 8,5%. Já na Região Centro-Oeste, na bacia do rio Tocantins-Araguaia, há uma situação que se agrava principalmente no reservatório de Serra da Mesa, atualmente com 8,16% de seu volume útil. Esses são alguns dos exemplos de informações do que se pode fazer com meses e até anos de antecedência, para evitar que os efeitos sejam cada vez mais catastróficos na vida de milhares de brasileiros dessas regiões.

Ainda há um caminho muito longo para a implementação do Programa 2040 - Gestão de Riscos e de Desastres, pela Secretaria Nacional de Proteção e Defesa Civil, que está previsto no Plano Plurianual (2016 - 2019) e uma dedicação, de fato, dos municípios e estados para as prioridades de infraestrutura, que depende, em parte, da escolha de políticos nas urnas e do exercício cidadão e participativo da população no dia a dia e nas instâncias participativas, como conselhos, comitês, movimentos e fóruns.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk:

07/12/2015 - COP21: as mudanças climáticas e as vidas em xeque
 

17/11/2013 – COP 19 e a tragédia filipina: realidade cobra eficiência da política mundial


17/12/2012 - Desastres naturais: o desafio na prevenção no Sul e no Sudeste

03/12/2012 - Educomunicação: memória e resiliência no enfrentamento dos eventos extremos
 

27/08/2012 – No contexto das nove fronteiras

20/08/2012 - Eventos naturais extremos: prevenção no centro da pauta

 

Pesquisar no site

Blog

03/04/2016 09:44

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o...
23/02/2016 20:34

Esgotamento sanitário mais uma vez relegado a segundo plano no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk Bactérias, vírus e parasitas, coliformes fecais, produtos químicos, metais pesados...  Sinto muito dizer, mas 42% da população convivem com este contexto de saneamento, porque não têm acesso a um direito mínimo, que é a coleta de rede de esgoto. O endereço dessa...
09/02/2016 07:27

As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta

Por Sucena Shkrada Resk Três meses se passaram e a conclusão a que se chega é que a expressão “tragédia anunciada” se materializou no acidente do rompimento da barragem de rejeitos minerais(de ferro) do Fundão, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton, , em...
31/01/2016 14:00

Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda

Por Sucena Shkrada Resk Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras...
26/12/2015 15:58

Implementação é a palavra-chave após a COP21

Por Sucena Shkrada Resk Esta é uma fase de amadurecimento de reflexões. Os últimos dias após o acordo firmado na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e da 11ª Reunião das Partes no Protocolo de Quioto (MOP-11), em...
07/12/2015 21:32

COP21: as mudanças climáticas e as vidas em xeque

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto nas salas climatizadas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP-21), em Paris, tudo vai hipoteticamente bem, obrigado, do lado de fora, a realidade é bem outra. Essa constatação vem por meio de dados do recente...
29/11/2015 13:04

Crônicas de uma urbanóide na vida rural: superando os medos e mitos sobre uma caranguejeira

Por Sucena Shkrada Resk Já era noite e estava dentro de casa, no quarto, quando vi próximo ao guarda-roupa uma enorme aranha –caranguejeira. Até então, só tinha visto em alguns locais externos, em viagens, mas não tão pertinho, nesta experiência de quase um ano vivendo em uma cidade com perfil...
05/11/2015 03:55

PEC 215: a quem interessa sua aprovação?

Por Sucena Shkrada Resk Compreender as motivações da política partidária não é uma tarefa fácil para qualquer um de nós, cidadãos comuns, que não vivenciamos regularmente os bastidores.. Entretanto, alguns temas em pauta no Congresso chamam a atenção. E um deles é a recente aprovação feita por uma...
01/11/2015 14:23

Mudanças climáticas: a COP21 das utopias

Por Sucena Shkrada Resk O que seria de nós, seres humanos, sem a possibilidade de desenvolver o pensamento utópico? Hoje resolvi narrar o meu discurso com esse princípio sobre a condução do combate ao aceleramento das mudanças climáticas e do aquecimento global, em que o palco das discussões é a...
20/09/2015 22:15

Amazônia: um lamento dos sem-árvore

Por Sucena Shkrada Resk Onde estão os anus-pretos, que faziam as travessias aéreas sobre as estradas de terras e a vegetação?  E os casais de araras-vermelhas que passeavam sob o céu azul, seguindo a caminho da floresta com suas árvores e copas densas? Agora, nem flagrar um tatu está sendo...
30/08/2015 15:34

Rumo à COP21: o desmatamento na Amazônia continua a ser um desafio

  Por Sucena Shkrada Resk Dados recentes divulgados pelo Instituto do Homem e Meio Ambiente da Amazônia (Imazon) apontam que houve um aumento de 63% no desmatamento na Amazônia Legal, no período de agosto a julho (2014-2015), com 3.322 km2 comparativamente ao mesmo período entre 2013-2014, com...
19/08/2015 11:16

Sim, todos nós precisamos das abelhas...

Por Sucena Shkrada Resk Onde estão as abelhas, os principais polinizadores do planeta? Quantas vezes temos ouvido esta pergunta nos últimos anos se acentuando cada vez mais, desde os anos 90? O desaparecimento ocorre gradativamente por causa da intervenção humana, isso já é uma constatação. Mas o...
31/07/2015 12:48

Marcelo Munduruku: quando a natureza e o ser humano traduzem uma única essência

O Projeto Vozes dos Biomas – jornalista Sucena Shkrada Resk tem como terceiro entrevistado, Marcelo Munduruku, de Juara, MT, do bioma amazônico. Confira a entrevista que fiz no último dia 16, no...
19/07/2015 14:15

Extrativismo sustentável, dobradinha que inclui conservação e geração de renda

Por Sucena Shkrada Resk Autonomia e empoderamento. Dobradinha poderosa e indispensável. Quando nos deparamos com boas práticas, que envolvem a agricultura familiar, vale a pena compartilhar estas experiências. Lidar com a terra, além de sensibilidade tem muito de matemática. Quem só retira e não...
12/07/2015 12:57

Chapada dos Guimarães: uma aula prática de Cerrado

Texto e fotos: Sucena Shkrada Resk Para qualquer lado que se olhe, o Cerrado é um bioma que revela cenários diferenciados, no Centro-Oeste brasileiro. A região da Chapada dos Guimarães, a cerca de 60 km de Cuiabá, Mato Grosso, é um dos locais mais especiais desse pedaço do Brasil, também...
05/07/2015 13:49

Resíduos sólidos: prorrogar lixões revela um Brasil atrasado

Por Sucena Shkrada Resk A discussão sobre a gestão dos resíduos sólidos no Brasil revela a fragilidade que vivemos em nosso país. A Política Nacional (Lei  12305, de 2010), que veio com um arcabouço importante, foi perdendo força com o passar do tempo, em vários aspectos, por causa da...
21/06/2015 17:01

Marco da biodiversidade: muito além do papel

Por Sucena Shkrada Resk Os processos de conquista de direitos socioambientais no Brasil são árduos, porque por muitas vezes, ficam circunscritos a belas palavras dispostas no papel, que não se traduzem em regulamentação e prática.  O recente Marco da Biodiversidade brasileiro (Lei 13.123),...
23/04/2015 12:18

Parque Nacional da Serra da Capivara (PI): um patrimônio mundial a céu aberto

Texto e fotos: Sucena Shkrada Resk Um ano de maturação até conseguir conhecer o Parque Nacional da Serra da Capivara (PI), a Fundação Museu do Homem Americano (Fumdham) e a Cerâmica da Serra da Capivara, em novembro de 2014. Foi praticamente um período de gestação, que gerou alguns "filhos"...
04/04/2015 20:18

Um dia no “Velho Chico”

Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk “Descoberta e sensação de pertencimento”. Essas talvez sejam as palavras certas para definir o que me acompanhou há alguns meses, em uma viagem ao Nordeste, quando parti para a navegação fluvial no “Velho Chico”. Até hoje, essa...
18/02/2015 12:50

Ana das Carrancas, uma personagem ligada ao "Velho Chico"

Fotos: Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk  A ‘dama de barro’. Assim era conhecida Ana das Carrancas, que se tornou uma personagem cultural reconhecida em Pernambuco e no Brasil, por seus trabalhos moldados no barro às margens do rio São Francisco, na região de Petrolina. A artista...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk