Crônicas de uma urbanóide na vida rural: superando os medos e mitos sobre uma caranguejeira

29/11/2015 13:04

Por Sucena Shkrada Resk

Já era noite e estava dentro de casa, no quarto, quando vi próximo ao guarda-roupa uma enorme aranha –caranguejeira. Até então, só tinha visto em alguns locais externos, em viagens, mas não tão pertinho, nesta experiência de quase um ano vivendo em uma cidade com perfil rural do noroeste mato-grossense, na Amazônia. A primeira reação foi de  medo, me afastar e ficar parada olhando esse aracnídeo de cor escura e “felpudo”. E ele, por sua vez, também estava parado onde o avistei. A ignorância sobre a espécie me fez pedir auxílio ao proprietário do imóvel, que a retirou com a vassoura de lá. O episódio, apesar de parecer corriqueiro, me fez perceber que precisamos saber mais sobre as espécies para quebrar mitos e agir da forma mais adequada nestas situações em que não estamos habituados. E essa é a tônica do texto de hoje.

Bem, depois do susto, quis saber mais a respeito das caranguejeiras e dei início à pesquisa em sites de biologia. Descobri que não fazem parte do grupo das peçonhentas (que podem ser letais ao ser humano) e também não têm o hábito de atacar ou saltar, apesar de sua aparência assustadora. O único cuidado que se deve ter é de não encostar nela ou ficar muito próximo porque os seus pelos urticantes ao serem sacudidos geralmente dão coceira, em contato com a pele, provocando uma reação alérgica.

Deve-se também tomar cuidado para que não atinjam os olhos. Esses aracnídeos "gigantes", que atingem até 30 centímetros, são predadores de insetos, rãs, sapos, ratos e de pequenas aves e as fêmeas podem ter vida longa, na faixa de 30 anos.  A intensidade de seu veneno nessas presas, facilita a sua digestão, pelo fato de ter enzimas que decompõem proteínas.

Para afastá-la, é suficiente pegar um cabo de vassoura e ir empurrando até que siga o seu destino. Não é preciso matá-la, pois ela tem um papel importante na cadeia biológica. Quem explica é a educadora ambiental Luiza Rodrigues, de Mato Grosso. Ela conta que no ano de 2003, em seu trabalho de campo, na equipe de educação ambiental da Secretaria de Educação (Seduc) do Mato Grosso, na área do Parque Nacional da Chapada dos Guimarães e seu entorno, observava que uma grande quantidade de aranhas caranguejeiras eram amassadas, na rodovia Emanuel Pinheiro, principalmente no início das chuvas.

Com essa observação, surgiu a ideia da criação da campanha “Deixe a Aranha Passar”, promovida pelo setor de Educação Ambiental do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama), sob a chefia de  Luiz Cruz, em parceria com a Seduc e o Governo do Estado.


 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

“Essa espécie da família Theraphosidae não é agressiva. Os machos saem à procura da fêmea para acasalar no início da estação chuvosa e grande número delas morre ao atravessar a rodovia, muitos motoristas inclusive as atropelam propositalmente”, explica. A proposta de retomar a campanha  é considerada viável atualmente porque o problema permanece, de acordo com Luiza e Cruz, atualmente no Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio).


O alerta é contra as aranhas venenosas

Segundo ela, a caranguejeira difere de outras aranhas pela disposição das quelíceras (presas). “As aranhas ditas verdadeiras possuem normalmente um tamanho menor e glândulas de veneno que podem causar acidentes, e as caranguejeiras não oferecem riscos ao ser humano”.

Aranha armadeira - Foto:Divulgação/Instituto Vital BrazilDe acordo com o Instituto Vital Brazil, do Rio de Janeiro, devemos nos preocupar com as Armadeiras (Gênero Phoneutria), que são as aranhas venenosas de maior tamanho no mundo, chegando a medir 20 cm de envergadura com as patas abertas.

 

 

 

A "viúva-negra" (Latrodectus curacaviensis), que é pequena e tímida, medindo  em torno de um centímetro, com patas longas e frágeis. Seu colorido é negro metálico, com o abdômen arredondado e com vários desenhos de cor vermelha-viva, às vezes ornados com finas linhas brancas.

 

 

 

 

Foto da aranha-marrom. Crédito: Divulgação: Instituto Vital BrazilE, por fim, com as Aranhas Marrons (Gênero Loxosceles), que não passam de 4 cm de envergadura. Vivem em ambientes escuros e secos onde tecem teias irregulares, muito parecidas com fiapos de algodão, nos quais capturam seu alimento (composto basicamente por insetos como moscas, besouros, baratas etc).

Por isso, a manutenção da limpeza nas casas e em terrenos para evitar que se acumulem sob entulhos, folhas secas e resíduos domésticos é uma boa forma de precaução. Como também, sacudir as roupas antes de usá-las.

Luiza Rodrigues explica que é fundamental destacar o papel socioambiental que as aranhas têm. São importantes pela função biológica que exercem no meio ambiente. “Controlam pragas, insetos e pequenos roedores. Além do mais, seu veneno é utilizado para combater inúmeras doenças e estão presentes em antibióticos potentes”.

Depois da vivência e desse aprendizado com o relato acima, vejo com outros olhos as aranhas-caranguejeiras, derrubando mitos que também tinha no meu imaginário, aprendendo a ter precaução, sem o medo absurdo da primeira vez.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

 

Pesquisar no site

Blog

20/02/2019 14:05

Tietê permanece adoecido na região metropolitana devido ao mau planejamento urbano

Por Sucena Shkrada Resk* A sensação de déjà-vu é contínua. Entra ano, sai ano, esta é a realidade perversa que vivemos diariamente nas regiões metropolitanas. De um lado, algumas nascentes que resistem, sabe-se lá até quando à pressão humana e, por outro, rios que são engolidos, em diversos...
08/02/2019 12:42

Rompimentos de barragens de rejeitos minerais revelam cenário de insegurança no país

Por Sucena Shkrada Resk* Ausência e/ou ineficiência nas precaução e prevenção, manutenção, em monitoramento e investimento em tecnologias mais seguras e em fiscalização contínua na destinação e tratamento de rejeitos minerais. Essa série de potenciais causas tem demonstrado um verdadeiro campo...
25/01/2019 14:43

Um olhar mais atento para os caminhos da habitação popular/social

Por Sucena Shkrada Resk* A população cresce ano a ano e o déficit habitacional segue a mesma trajetória no Brasil e é superior a 7,7 milhões de moradias necessárias para suprir essa demanda por imóvel próprio. Os dados são baseados em informações da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do...
21/01/2019 14:10

Narrativa de agricultora familiar nos leva à valorização ecossistêmica e humanística

Por Sucena Shkrada Resk* Ouvir a narrativa de agricultores familiares sempre é algo revigorante e que nos leva à ligação afetiva à terra, à água, à fauna e flora. Estimula nossa recepção sensorial e dá sentido à máxima de que quanto mais simples, mais estamos sintonizados com o equilíbrio...
16/01/2019 14:48

Os oceanos apelam todos os dias: #plásticosnão

Por Sucena Shkrada Resk* A imagem é desconcertante e dramática. Olhamos de um lado e de outro e os oceanos têm mais plásticos do que peixes. O ano é 2050. Cena de filme de ficção? Longe disso. Este é um prognóstico mais próximo do real descrito em estudo da fundação da navegadora Ellen MacArthur e...
14/01/2019 11:21

Temas “Refugiados” e “Migrantes”: não existe geopolítica baseada em visões unilaterais

Por Sucena Shkrada Resk* Em um mundo em que a maioria das pessoas e “nações” aspiram pela manutenção da democracia e da paz mundial, as relações diplomáticas internacionais exigem como alicerce o constante diálogo e o princípio de que as decisões sejam o mais consistentes e equilibradas para a...
10/01/2019 16:03

O Quênia e seus exemplos inspiradores: da resiliência ao socioambientalismo

Por Sucena Shkrada Resk * Sim. Exemplos inspiradores vêm do leste do continente africano e especialmente de países como o Quênia, e não se restringem a resultados na tradicional corrida de São Silvestre por aqui e chegam à esfera socioambiental, além do fato de Nairobi ser a cidade-sede do Programa...
09/01/2019 14:09

O Princípio da Precaução tão urgente e ao mesmo tempo, tão esquecido

Por Sucena Shkrada Resk* Memória, ah, essa memória histórica, que dá sentido e é importante para começos e recomeços. Nesse recuperar do tempo, o Princípio 15 – da Precaução (precautio-onis, em latim), instituído da Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e Desenvolvimento (Rio 92), que...
29/11/2018 15:20

Conservação de Paranapiacaba e entorno frente a projetos de novos empreendimentos

Por Sucena Shkrada Resk* Empreendimentos que por sua natureza econômica causam passivos ambientais devem obrigatoriamente, por determinação legal, antes de serem licenciados, esclarecer da forma mais transparente possível todos os cenários possíveis do comprometimento relacionado à sua atuação, que...
28/11/2018 16:54

A miopia de gestão sobre as mitigações e adaptações às mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk* Às vésperas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima (COP 24), o Brasil desenha um quadro desestruturador das medidas quanto a mitigações e adaptações às mudanças climáticas. Diplomaticamente falando, a desistência da...
08/11/2018 15:43

Vivemos um hiato temporal brasileiro socioambiental

Por Sucena Shkrada Resk* A agenda socioambiental brasileira sofre, nas últimas décadas, de um anacronismo crescente, no qual o que muito do que está escrito nas legislações nacionais e, inclusive, em tratados internacionais ratificados pelo país, não se configura na prática da realidade diária....
08/10/2018 12:48

2018: a crônica ambiental dos 30 anos

Por Sucena Shkrada Resk  O ano de 2018 é simbólico por representar o aniversário de 30 anos de importantes acontecimentos na trajetória do ambientalismo brasileiro. Apesar de não ser totalmente infundado o velho ditado de que no Brasil temos memória curta, essas histórias ainda pulsam, pois...
26/08/2018 16:33

Refugiados: os diversos contextos das fronteiras humanitárias

Por Sucena Shkrada Resk* As relações humanas trafegam em linhas tênues que reúnem processos culturais centenários, questões socioeconômicas, religiosas e limites geográficos, que integram a geopolítica, que ora se fundem, e ora segregam. Historicamente é isto que vimos em diferentes partes do mundo...
14/08/2018 18:30

O mercúrio nas veias da Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk* Quem dera que falar sobre “mercúrio” fosse um assunto somente de interesse da pauta astronômica? Voltando à realidade do planeta Terra, se trata dos impactos da contaminação pelo metal, altamente letal, um tema ainda subnotificado, que mexe em uma ferida aberta, em...
11/07/2018 18:00

Entrevista da semana - Defensor público fala sobre o desafio do combate ao uso de agrotóxicos em São Paulo e em todo o Brasil

Por Sucena Shkrada Resk O advogado Marcelo Carneiro Novaes, defensor público do Estado de São Paulo, que integra a coordenação do Fórum Paulista de Combate aos Impactos dos Agrotóxicos e Transgênicos, que começou a se reunir em novembro 2016, é o entrevistado desta semana do Blog Cidadãos do Mundo...
17/06/2018 14:35

Refugiados: uma situação que reflete o modelo de desenvolvimento de uma humanidade adoecida

Por Sucena Shkrada Resk Século XXI em andamento. O que, em princípio, seria um período a evocar um status ‘positivo’ de modernidade, revela um momento histórico em que lacunas cíclicas de humanização são refletidas na quantidade de refugiados pelo planeta, que segundo o Alto Comissariado das Nações...
14/05/2018 14:29

PANCs: um universo da segurança alimentar a explorar

Por Sucena Shkrada Resk  O tema da segurança alimentar é rico em multiplicidades de enfoques, sendo que um deles trata do reconhecimento da importância das Plantas Alimentícias Não Convencionais (PANCs). O termo foi criado pelos pesquisadores Valdely Kinupp e Harri Lorenzi, resultando no livro...
07/05/2018 14:08

O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia

Por Sucena Shkrada Resk Desmatamento, mudanças climáticas e consequentemente a facilitação para um aumento de vetores de doenças infectocontagiosas são o cenário perfeito, que está sendo construído, nos últimos anos, na Amazônia brasileira, onde um dos indícios desta pressão é a ascendência de...
20/04/2018 17:36

Século XXI: a cartografia da violência no campo

  Por Sucena Shkrada Resk   O mapeamento do processo de violência no campo revela um Brasil com janelas de oportunidades perdidas sob um modelo perverso, que tem no centro a disputa da terra. Os estados do Pará (21), Rondônia (17), Bahia (10), Mato Grosso (9), Amazonas (3), Minas...
04/04/2018 13:27

O simbolismo do adeus à Sudan, o último rinoceronte-branco do norte (macho) do planeta!

Por Sucena Shkrada Resk O ancião Sudan, no alto dos seus 45 anos e cerca de 2,3 mil quilos e 1,82m de altura, não venceu a batalha que travava contra uma infecção que atingiu sua pata direita traseira, no mês de março. O último exemplar macho de rinoceronte-branco do norte do planeta foi submetido...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk