Cantareira expõe a fragilidade do sistema de abastecimento

20/08/2014 14:35

(Como entender a gestão das águas em SP – parte 3)

Por Sucena Shkrada Resk

Como dizia o pensador Heráclito de Éfeso, as águas de um mesmo rio nunca são as mesmas águas. Metaforicamente essa constatação cai como luva, quando se trata do atual quadro do Sistema Cantareira, que abastece cerca de 12 milhões de pessoas na Grande São Paulo e em Campinas, e sofre com a estiagem por meses consecutivos. Parece um cenário triste dos quadros da seca nordestina. A situação é considerada a pior em 84 anos.

Agora, por um tempo indefinido, até a fase das chuvas chegar (mas que atinja as cabeceiras), o complexo deixa de ostentar o título de ser  um dos maiores do mundo.Está hoje com menos de 13% de sua capacidade e desde 15 de maio depende da reserva técnica ou volume morto (encontrado abaixo das comportas) para suprir o mínimo da demanda, que deve expirar até outubro, se não houver a mudança do cenário.

A Agência Nacional das Águas (ANA) e o Departamento Estadual de Água e Energia Elétrica (DAEE) autorizaram a Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo (Sabesp), que opera o sistema, a fazer esta retirada, que deverá chegar agora à segunda fase, com a solicitação de  mais 124,7 bilhões de litros de água feita pela empresa. Com isso, o volume morto utilizado passará a ser um pouco mais de 300 bilhões de litros.

E para quem pensa que a utilização de reserva técnica é algo novo, pode se surpreender, pois já existe esta necessidade, desde os anos 70, de acordo com Rubem La Laina Porto, doutor em Engenharia Hidráulica e Sanitária pela Universidade de São Paulo (USP), atingindo cidades do interior paulista, como Atibaia e Campinas. Essa vulnerabilidade demonstra conhecimento prévio das autoridades e órgãos competentes quanto à influência das intempéries climáticas e a necessidade de planos de adaptação, neste sentido.

As medidas deveriam incluir algo mais expressivo, por exemplo, como campanhas de redução de consumo da população e das empresas de forma permanente (e, não, sazonais, como ocorre neste momento de crise) e principalmente quanto à eliminação da perda por vazamentos ou problemas de outra ordem na rede de abastecimento.

Só em 2013, a estimativa é que  tenham sido perdidos 950 bilhões de litros de água limpa nos canos operados pela Sabesp (além da Cantareira, os reservatórios que abastecem a região metropolitana de São Paulo são do Alto Tietê, Guarapiranga, Alto Cotia/Baixo Cotia, Rio Claro e Rio Grante/Ribeiração da Estiva) e esse volume é equivalente à capacidade de armazenamento do próprio Cantareira (981 bilhões de litros). 

As tubulações são em grande parte, ultrapassadas, sendo que 34% dos tubos têm entre 30 e 40 anos e 17%,  acima de 40 anos. Segundo a empresa, quatro em 10 vazamentos são indetectáveis, porque não são visíveis e outros 50% só perceptíveis por métodos acústicos. Este quadro de envelhecimento se soma ao prejuízo causado por milhares de ligações clandestinas.

Quando se observa esse contexto, fica ainda mais claro que apesar do Sistema Cantareira ser uma grande obra de engenharia, composta por seis represas interligadas por 48 quilômetros de túneis e ter capacidade de vazão de 33 mil litros de água por segundo, os seus reservatórios são frágeis aos ciclos hidrológicos e à própria intervenção humana.

Neste cenário de escassez, há ainda a constatação da dificuldade de gestão entre bacias hidrográficas, que têm a participação de diferentes estados. O governo paulista pleiteou a transposição do rio Paraíba do Sul para suprir a escassez da represa Atibainha. O rio, entretanto, abastece parte do Rio de Janeiro, cujo governo se posicionou contrário à medida, e de Minas Gerais, porque o curso d´água também sofre com problemas de escassez nessas regiões.  A polêmica ganhou tal proporção, que o caso foi parar na justiça fluminense e pode ser julgado no Supremo Tribunal Federal (STF). Uma ação civil pública foi movida pelo MPF (Ministério Público Federal) contra a transposição.

Os complicadores da crise da água não param por aí. A escassez também é um alerta vermelho para a geração de energia nas hidrelétricas, um tema para um próximo artigo. Mas as condições atuais já são suficientes para colocar este assunto no centro da pauta dos governos nas três esferas, como prioridade de gestão permanente.

Veja outros artigos que escrevi sobre o tema água, no Blog:
18/08/2014 - Qualidade das águas (Como entender a gestão das águas – parte 2)
15/08/2014 - Como entender a gestão das águas, no estado de SP (Parte 1)
14/10/2013 Água: um bem depreciado na sociedade do desperdício
22/03/2013  Água pura...quero ver-te
24/08/2012  Coleta e tratamento de esgoto: como será quando chegarmos a 2050?
07/06/2012  Rumo à Rio+20: o valor oculto da água
23/05/2012  Nota: Saneamento está interligado a outras infraestruturas
23/05/2012  Riomais20 - Como tratará da realidade da África Subsaariana?
19/10/2011  Recursos hídricos: uma pauta para a Rio+20
19/10/2011  Esgoto: o calcanhar de aquiles do Brasil
28/10/2011  Por dentro do saneamento básico
28/10/2011  Trata Brasil estuda projeto de educação para o saneamento
28/07/2011  Atenção às nossas águas

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk
 

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