Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

11/10/2017 11:35

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro

As arpilleras Maria e Claides, em encontro do MAB, no RJ. Crédito da foto: Sucena Shkrada ReskMaria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A primeira teve sua família e comunidade atingidas com a construção da Usina Hidrelétrica (UHE) de Belo Monte, no rio Xingu, e a segunda, pela UHE ITÁ, no rio Uruguai, entre SC e RS. A leitura de ambas sobre como foram afetadas se mesclam em um bordado “arpillera”, com as de outras mulheres. Militantes do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) encontraram nesta linguagem em defesa dos direitos humanos uma quantidade de significados nas entrelinhas, por seu grau de sensibilidade.

“Fazer parte desta proposta é muito emocionante. É a realização de um sonho. A comunidade em que eu vivia, no RS, deixou de existir”, disse Claides, ao Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk, no último dia 4 de outubro, durante Encontro Nacional do MAB, no Rio de Janeiro.

“Neste bordado contamos nossas dores. A vida de minha família se transformou e perdemos nosso convívio social (decorrente do processo migratório”, desabafou Maria.

Apresentação de arpilleras do MAB, no Encontro Nacional. Crédito da foto: Sucena Shkrada ReskCom esta carga emocional latente, são construídas as mensagens das “arpilleras” (nome em espanhol, do tecido juta ou de cânhamo), que pela arte de uma técnica tridimensional têxtil do bordado confeccionada com agulhas, panos rústicos, retalhos de tecido, linhas e outros acessórios conta histórias, traduz reivindicações e denúncias, na maioria das vezes, mensagens doloridas, mas que justamente por este formato delicado e forte ao mesmo tempo cativam diferentes gerações. Durante o evento, vários trabalhos foram expostos, inclusive, de outros países da América do Sul, como Colômbia.

Durante Encontro Nacional do MAB, no RJ. Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk 

As “arpilleras” tratam das pautas mais diversas, que tem como eixo central, a defesa dos direitos à dignidade humana e pela paz, que inclui a importância do empoderamento de populações vulnerabilizadas, no contexto do direito à moradia, saúde, trabalho, do combate à violência em suas diferentes nuances, incluindo de gênero, e tantas outras agendas prioritárias de cidadania.

O que torna estes trabalhos instigantes semioticamente é que são feitos por várias mãos e com uma carga de inferências grande de “universos” de biografias distintas, que se encontram em suas semelhanças nas causas. Há um diálogo que interage, por diversas vezes, na composição de cada peça de bordado. Homenagens a ícones de mobilizações também integram estas propostas, como a pescadora Nicinha e Berta Cáceres, coordenadora do Conselho Cívico de Organizações Populares e Indígenas de Honduras (Copinh), ambas assassinadas no ano passado.

Crédito da foto: Sucena Shkrada Resk

Origem chilena

Quem pensa que é uma prática recente, do século XXI, se engana. Teve sua origem com um grupo de bordadeiras de Isla Nesgra, no litoral chileno, nos anos 1960, se acentuou na década seguinte, no período da Ditadura Pinochet (1973-1990), e se difundiu transfronteiriçamente, incluindo o Brasil, com manifestações de integrantes do Movimento de Atingidos por Barragens (MAB), entre outros, após a realização de oficinas para o aprendizado da técnica. Ao mesmo tempo, é um exemplo de ação cooperada e da possibilidade da viabilização de economia justa e solidária, que gera renda para muitas famílias.

A folclorista Violeta Parra (1917-1967) foi uma divulgadora importante das “arpilleras”. A partir dos anos 1960, difundiu esta linguagem em espaços importantes da arte mundial. A artista, que deixou o legado da composição Gracias a la Vida, teve uma morte precoce, aos 49 anos, ao se suicidar. A sua contribuição cultural e cidadã, no entanto, se perpetua, no museu que leva o seu nome, em Santiago do Chile, no qual há uma exposição permanente de arpilleras, com 23 obras.

A experiência de militantes do MAB, em que as histórias de Maria e Claídes fazem parte, se transformou no documentário “Arpilleras: atingidas por barragens, bordando a resistência”. A iniciativa foi financiada com recursos captados por meio da plataforma Catarse, com 308 apoiadores, e já teve sua pré-estreia em Belém e no Rio de Janeiro, e chega a São Paulo, no dia 19 de outubro, no Cine Caixa Belas Artes. Confira o trailer em: https://www.youtube.com/watch?v=N-Q3hRtcwiM . Um laboratório de cidadania!

*crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

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