A miopia de gestão sobre as mitigações e adaptações às mudanças climáticas

28/11/2018 16:54

Por Sucena Shkrada Resk*

Às vésperas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre as Mudanças do Clima (COP 24), o Brasil desenha um quadro desestruturador das medidas quanto a mitigações e adaptações às mudanças climáticas. Diplomaticamente falando, a desistência da candidatura de sediar a COP 25, anúncio feito nesta semana pelo governo brasileiro, integra um pacote de desestímulo a um protagonismo do país em medidas proativas nesta agenda nacionalmente e internacionalmente, que infere, na prática, uma pressão sobre a qualidade de vida de todos os cidadãos e à economia. Algo que seria considerado impensável eticamente para um país que figura como o sétimo maior emissor de Gases de Efeito Estufa (GEEs) no planeta.

Neste ciclo de comprometimentos, há poucos dias, mais uma informação oficial se integrou neste sinal amarelo: o aumento em 14% do desmatamento na Amazônia (entre agosto de 2017 e julho de 2018), o maior desde 2008. Nessa pegada devastadora, o hotspot Cerrado também sofre pressões significativas, na chamada região da MATOPIBA, siglas dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia.

Segundo especialistas, movimentos e organizações do terceiro setor e fontes do próprio governo, uma combinação de fatores gera esta instabilidade, que vai desde o teor político de prioridades, que tem como ponto central o aumento da propulsão à agenda do agronegócio, como também o aumento de queimadas e de situações de seca cada vez mais intensas. Ao mesmo tempo, está em curso há anos, a fragilização do Ministério do Meio Ambiente e seus órgãos fiscalizadores, que agora chega a um ponto crítico. Essa orquestração expõe a combinação de retrocessos.

Historicamente, alguns estados brasileiros permanecem aquém de uma performance sustentável. Pará, Mato Grosso e Rondônia assumem uma posição estratégica neste descompasso na Amazônia Legal. Juntos representam 81% do total de desmatamento num total de 7.900 km 2 de devastação, conforme dados do Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite)/Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (PRODES/INPE).  

Como o físico Paulo Artaxo (USP/IPCC), um dos cientistas mais respeitados nesta agenda, destacou recentemente no lançamento da oitava edição do SEEG/Observatório do Clima , a Ciência evidencia que onde há sistema produtivo, há maior aquecimento. Trocando em miúdos, isso significa que é preciso racionalizar tanto a extração e recursos naturais e uso da terra, como as técnicas produtivas, conjuntamente com consumo para que a equação parta para ganhos e não a um ciclo vertiginoso de perdas.

“Em um pior cenário das mudanças climáticas, com aumento de 6 graus (2071-2099), os piores impactos serão sentidos na Amazônia/Centro-Oeste”, diz Artaxo. Hoje já é possível refletir que é uma questão que ultrapassa achismos. Para se limitar o aumento da temperatura a 1,5 graus C, seria necessário zerar as emissões no planeta até 2040; e a 2 graus C, até 2050. Com o atual cenário brasileiro, como o Brasil poderá efetuar sua parte no engajamento com os demais países?

No ranking de emissões de GEEs no Brasil, o setor de agronegócios está disparadamente na frente, com 71%, seguido de transportes, industrial e produção de combustíveis/energia. Ao fazer o recorte de origem, Pará e Mato Grosso são os que mais emitem (agropecuária) e Minas Gerais e São Paulo (energia).

Quando se trata de emissões líquidas oriundas de mudança do uso da terra, a sequência dos oito estados que mais emitem é a seguinte: MT, RO, PA, MG, RS, BA, MA e GO.

Ao analisar, por exemplo, situações mais concentradas, o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG) 2018 também traz alguns dados municipais no estado de São Paulo quanto a fontes de emissões, desde transporte a resíduos. De acordo com a apuração, as situações mais complexas se encontram na Capital, em Paulínia, Cubatão, São José dos Campos, Guarulhos, Jacareí e Campinas, entre outros municípios. Já quando o recorte é percapita, em primeiro lugar está o município de Alumínio seguido de Paulínia.

Os problemas já são detectados, não há como negar. A questão é a permanência de políticas públicas que contemplem de curto a longo prazos, ações mitigadoras e de adaptação. Uma discussão que só se acirra atualmente.  

O Greenpeace Brasil lançou recentemente também o relatório “Segure a Linha: A Expansão do Agronegócio e a Disputa pelo Cerrado”, no qual destaca que somente em 45 dos 337 municípios do Matopiba, os indicadores de produção e de bem estar superam a média dos respectivos estados. Segundo o levantamento, 196 municípios continuam pobres, com produção e qualidade de vida piores do que a média de seus estados.

Cenário mundial

No contexto, existe atualmente um enunciado de negacionismo a evidências expostas nas últimas décadas, quanto à intervenção humana na aceleração das mudanças climáticas e do aquecimento global, que ganha eco em exposições equivocadas de futuros quadros do próximo governo. Um contrassenso ao mais recente relatório Emissions Gap Report, da ONU Meio Ambiente, que enfatiza que é necessário triplicar no planeta a velocidade de redução de emissões de gases de efeito estufa até 2030 se quiser evitar que o aquecimento global ultrapasse o limite de menos de 2 graus C definido no Acordo de Paris. 

Meio Ambiente e economia

Em outro relatório deste ano, do Escritório das Nações Unidas para Redução do Risco de Desastres (UNISDR), foi exposto que as perdas econômicas diretas devido a catástrofes climáticas nos últimos 20 anos foram 2,5 vezes maiores do que no período de 1978-1997 e 1,3 milhão perderam a vida nessas ocorrências. Os prejuízos econômicos de desastres em geral totalizaram 2,9 trilhões de dólares entre 1998 e 2017, sendo que US$ 2,24 trilhões ou 77% do total foram relativos à questão climática.

E na contramão do negacionismo, a Comissão Global sobre Economia e Clima, em documento recente, apresentou dados de que o investimento contra a mudança climática até 2030, pode contribuir com US$ 26 trilhões à economia mundial e evitar mais de 700 mil mortes. A chave para isso: energia limpa, melhor planejamento urbano, agricultura e utilização de recursos hídricos de forma sustentável e indústrias menos poluentes.

No Brasil e em nações estratégicas, como os EUA, é como se vivêssemos um processo de miopia das lideranças políticas, que abre a vulnerabilidade na ação de comando e controle sobre esta pauta, que não só interfere internamente nestas nações, mas em todo o equilíbrio do planeta.

*Sucena Shkrada Resk é jornalista, formada há 26 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

08/11 – Vivemos um hiato temporal brasileiro socioambiental

Pesquisar no site

Blog

16/10/2017 08:42

Ivaporunduva ecoa vozes pelos direitos quilombolas no Brasil

O Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk coletou dois depoimentos, há algumas semanas, em Eldorado, SP, de lideranças do Quilombo Ivaporunduva, no Vale do Ribeira, em defesa dos direitos adquiridos pelas comunidades em todo o Brasil, com o decreto 4887/2003, que regulamenta a...
11/10/2017 11:35

Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro Maria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A...
09/10/2017 17:53

Justiça socioambiental: centenas de vozes ecoam homenagem póstuma à pescadora Nicinha, no Rio de Janeiro

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro  A pescadora Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida por Nicinha, liderança feminina do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no estado de Rondônia, defendia os direitos das populações afetadas pelo Complexo Hidrelétrico, no rio Madeira e seus...
25/09/2017 12:22

Gameleira traz um exemplo propositivo de afirmação identitária quilombola

PÍLULAS SOCIOAMBIENTAIS Por Sucena Shkrada Resk O Museu Gídio Veio, da Comunidade de Remanescentes Quilombolas de Gameleira, em São Tomé, no Rio Grande do Norte, é uma prova de que o senso de pertencimento étnico ao território pode ser ‘perpetuado’ por meio de ações proativas, que tragam o resgate...
21/08/2017 16:06

Ser quilombola: um diálogo com a memória ancestral

Por Sucena Shkrada Resk, em Eldorado (SP) - 20/08/2017 “Eu tenho uma memória ancestral que diz quem eu sou”, destaca o quilombola Ronaldo dos Santos, coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa afirmação nunca foi tão...
01/08/2017 11:40

Mobilização nacional defende comunidades remanescentes quilombolas contra retrocessos em direitos estabelecidos

Por Sucena Shkrada Resk Nos últimos anos, está sendo construído um cenário de retrocessos no campo dos direitos humanos no Brasil, que ferem a Constituição de 1988. Atualmente, uma causa que ganha visibilidade é a das comunidades remanescentes quilombolas. Isso acontece, porque o julgamento...
09/07/2017 18:10

O discurso da invisibilidade no contexto da injustiça socioambiental e no campo

Por Sucena Shkrada Resk Vivemos tempos de invisibilização acentuada de povos e comunidades tradicionais e indígenas promovida pelos modus operandi das políticas de infraestrutura, que ferem os direitos instituídos legalmente, no âmbito nacional e internacional. Algumas das agendas com maior número...
22/01/2017 18:21

O ônus socioambiental da contemporaneidade “Flex”

  Por Sucena Shkrada Resk   Quando dizemos que um indivíduo ou uma nação têm "palavra", o sentido implícito nesta frase implica retidão, ética e relação de confiança. Mas nos deparamos hoje na contemporaneidade com uma fragilidade que reflete um mundo em que leis, direitos instituídos e...
18/12/2016 10:34

Guerra na Síria: o retrato da desumanização no século XXI

Por Sucena Shkrada ReskQuem cura as cicatrizes das feridas profundas das guerras civis que marcam o século XXI, em especial, na Síria? Os acordos geopolíticos demonstram que impera a crueldade imposta pelas polaridades, que armam os lados opostos internos com aparato bélico e financiamento e causam...
12/12/2016 21:38

A legislação socioambiental sob o ataque da artilharia ruralista no Congresso Nacional

Por Sucena Shkrada Resk Agora, querem destruir as regras do licenciamento ambiental O desgaste político brasileiro na agenda socioambiental chega a beirar o surrealismo. Tal qual uma artilharia, com tanque de guerra, a bancada ruralista tem assumido o ataque, por meio de projetos que tramitam no...
05/09/2016 17:41

A longevidade em tempos de mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk Caso fôssemos fazer uma enquete para saber se as pessoas querem envelhecer em um planeta com o aumento da temperatura média acima de dois graus Celsius até o final do século com relação à era pré-industrial, muitas talvez não tivessem a noção do que essa pergunta significa....
28/08/2016 16:31

Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus

Por Sucena Shkrada Resk Mais de 15 mil focos de incêndio/queimadas, neste ano, colocam o Mato Grosso em primeiro do ranking no país atualmente. E boa parte destes registros ocorre no bioma amazônico ao norte e noroeste do estado. Colniza, a pouco mais de mil quilômetros de Cuiabá, é o município que...
26/06/2016 22:35

Mortes de ativistas socioambientais não podem se perder nas estatísticas

Por Sucena Shkrada Resk Muitos nomes em algumas lápides por este Brasil podem ser anônimos para a maioria de nós, mas representam o descaso cada vez maior com a vida de cidadãos e cidadãs, que fazem parte de comunidades indígenas, que pleiteiam a demarcação de terra que se estende em processos...
24/04/2016 14:53

Agrotóxicos – Parte 2: mais um projeto polêmico na Câmara

Por Sucena Shkrada Resk Quando imaginamos que está chegando o momento de bonança, vem mais uma notícia que exige um olhar atento da sociedade quanto à temática dos agrotóxicos e a tentativa de mudança de nomenclatura e regras, que ferem o direito do consumidor. Tramita na Câmara dos Deputados, o...
11/04/2016 12:44

Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

Por Sucena Shkrada Resk Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e...
03/04/2016 09:44

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o...
23/02/2016 20:34

Esgotamento sanitário mais uma vez relegado a segundo plano no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk Bactérias, vírus e parasitas, coliformes fecais, produtos químicos, metais pesados...  Sinto muito dizer, mas 42% da população convivem com este contexto de saneamento, porque não têm acesso a um direito mínimo, que é a coleta de rede de esgoto. O endereço dessa...
09/02/2016 07:27

As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta

Por Sucena Shkrada Resk Três meses se passaram e a conclusão a que se chega é que a expressão “tragédia anunciada” se materializou no acidente do rompimento da barragem de rejeitos minerais(de ferro) do Fundão, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton, , em...
31/01/2016 14:00

Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda

Por Sucena Shkrada Resk Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras...
26/12/2015 15:58

Implementação é a palavra-chave após a COP21

Por Sucena Shkrada Resk Esta é uma fase de amadurecimento de reflexões. Os últimos dias após o acordo firmado na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e da 11ª Reunião das Partes no Protocolo de Quioto (MOP-11), em...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk