A métrica da felicidade na agenda “sustentável”, por Sucena Shkrada Resk

18/03/2013 16:38

Quantas vezes observamos a menção da palavra “sustentabilidade”, como um mantra? Inúmeras, não é? E cada uma soa como se fosse um álibi ou a saída estratégica para tudo que dá errado no antagônico  regime capitalista em que vivemos. Mas ao nos aprofundarmos em sua gênese e propósito, reacendemos um questionamento central: a sustentabilidade ideologicamente e na prática, está relacionada ao conceito de felicidade (que tem o componente subjetivo)? A resposta que emerge, de forma cada vez mais presente, é que sim. Numa forma bem simplória de analogia, poderíamos dizer que é raciocínio lógico, tendo em vista, que a meta principal é o equilíbrio entre as balanças econômica, social e ambiental com o propósito de qualidade de vida.

O Relatório de Desenvolvimento Sustentavel Humano 2013 - Ascensão do Sul - Progresso Humano num mundo diversificado, divulgado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), neste mês, traz essa discussão. No documento, há o desafio de se definir uma métrica sobre o bem-estar e o progresso humano e como os mesmos podem ser inseridos nas políticas públicas.

Nesse exercício, são citadas iniciativas do Reino Unido, que começa a estudar indicadores subjetivos de bem-estar, que são sugeridos pelos pensadores Stiglitz, Sen e Fitoussi, no ano de 2009. Especificamente, em Londres, há o London Happiness and Well-being.

Da Europa ao Oriente, o exemplo é o Índice de Felicidade Nacional Bruto, do Butão, mais conhecido como Felicidade Interna Bruta (FIB) em contraposição ao Produto Interno Bruto (PIB). Amadurecido desde os anos 70,  se baseia na constatação de que o objetivo principal de uma sociedade é associar o desenvolvimento econômico com o psicológico, cultural e espiritual em harmonização com o planeta.

A complexidade nisso tudo é quebrar o duelo entre o modelo predominante econômico de desenvolvimento e nossa relação subjetiva com o mundo, que transcende o consumo inconsciente e que está relacionada a culturas e histórias distintas, que são as marcas presentes, nos quase 200 países no planeta. Diante dessas constatações, os estudiosos chegam à conclusão de que os indicadores de bem-estar são complementares, contextuais e locais.

Um dos recortes avaliados no relatório é o de satisfação geral com a vida (uma avaliação de 0 a 10). Em pesquisas realizadas em 149 países, a média foi de 5,3 e o valor máximo registrado na Dinamarca (7,8) e o menor, em Togo (2,8). Ao ver essa disparidade, não é difícil entender que esses resultados tão distintos refletem a desigualdade entre os blocos de países desenvolvidos e em desenvolvimento e os países pobres.

ÍNDICE DE BEM-ESTAR NO BRASIL

O Brasil também caminha a essa incorporação da “felicidade”. Neste mês, foi divulgada a proposta do projeto para criar o primeiro índice brasileiro de bem-estar, uma parceria do Núcleo de Estudos da Felicidade e do Comportamento Financeiro da Fundação Getulio Vargas (FGV) com a rede social MyFunCity. Com o nome de Well Being Brazil Index, deverá ser iniciado em 2 de abril e  lidar com a percepção de satisfação dos brasileiros em nível local, nos bairros, com relação a dez indicadores:

- Clima e atividades ao ar livre,
- Transporte e mobilidade, família,

- Redes de relacionamento,

- Profissão e dinheiro,

- Educação, governo,

- Saúde, segurança e consumo.

A proposta, segundo os organizadores, é que os dados sejam um suporte ao poder público e à iniciativa privada. De certa forma, interagem com algo que precisa de impulso no país, que são os diagnósticos participativos das Agendas 21. -

Como ferramentas de aplicação, serão utilizadas redes sociais e questionários com um total de 150 perguntas. A expectativa é que após 90 dias, sejam realizadas audiências públicas em importantes capitais, como Belo Horizonte, Brasília, Manaus, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador, São Paulo. E em dezembro, haja o lançamento do índice.

O Instituto Akatu, agora, em março também lançou o resultado da pesquisa “Para você, o que é Felicidade?”, que foi feita com 800 entrevistados, em diferentes regiões do país, no ano passado.  Uma das conclusões principais apuradas foi de que a maioria associa felicidade mais ao bem-estar físico e emocional e ao relacionamento social do que aos aspectos financeiros e de posse de bens. O conceito do ser fica acima ao do ter nesse comparativo, o que em tese, vai ao encontro das propostas da sustentabilidade.

Será que podemos vislumbrar mudanças consistentes à vista em um mundo com pegadas ecológicas, hídricas, da consumo e desperdício alimentar ainda tão grandes? Enxergar a beleza da longevidade com qualidade de vida?

Leia também no Blog Cidadãos do Mundo:
08/03/2011  A busca pela Felicidade Interna Bruta
23/11/2009  A felicidade construída pelo Butão
22/11/2009  EIMA7: saberes e proatividade regem o desenvolvimento sustentável

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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