Sucena Shkrada Resk


COP-19 e a tragédia filipina: realidade cobra eficiência da política mundial, por Sucena Shkrada Resk

17/11/2013 13:15

Com o andamento da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP-19), em Varsóvia, na Polônia, nada é mais incisivo para que haja a mudança de postura geopolítica no mundo, do que a calamidade que atinge a população das Filipinas, no Sudeste Asiático, há uma semana. É a prova dolorosa da emergência de um posicionamento concreto das nações que compõem o sistema ONU, quanto ao enfrentamento dos eventos extremos e, em especial, de apoio aos países mais vulneráveis.

E de onde vêm as respostas mais concretas no campo das negociações? Do grupo dos 48 países mais pobres do planeta (a maior parte africanos e países insulares), por meio das iniciativas dos Programas Nacionais de Ação para Adaptação. Mas para que as propostas se tornem efetivas, precisam de recursos oriundos de apoio dos países mais desenvolvidos, que já haviam acordado em COPs anteriores a liberação de um Fundo com esse propósito, por volta de US$ 100 bi anuais. No entanto, até agora, praticamente US$ 8 bi foram aplicados com essa finalidade em 2013, conforme levantamento da ONG Oxfam. Com isso, as retóricas se perdem em papéis e burocracias. E mais um contexto de retrocesso ao encaminhamento a uma economia de baixo carbono é que para cada US$ 1 em apoio às energias renováveis, US$ 6 se destinam a combustíveis fósseis mundialmente.

Efeitos da tragédia

Os números ainda são imprecisos devido ao caos que os filipinos vivem. Estima-se, por enquanto, cerca de 4 mil mortos e oficialmente mais de 10 milhões de cidadãos afetados no país pelo tufão Haiyan, que implacável, com ventos de até 315 km/h, devastou várias regiões. Classificado na categoria 5 (mais grave), foi pela primeira vez registrado.  Conforme anúncio da Organização Internacional do Trabalho (OIT), mais de um milhão de pescadores e camponeses perderam seus meios de sobrevivência.

Segundo cientistas, o que se pode observar na série histórica é que esses eventos extremos estão aumentando a capacidade de destruição nos últimos 30 anos. A localização geográfica do país, no chamado Anel de Fogo do Pacífico, também o insere no hall das nações que sofrem com os efeitos dos terremotos, erupções vulcânicas, ciclones e tufões. Recentemente, em outubro deste ano, um terremoto de 7,2 graus atingiu a província filipina de Bohol e resultou na morte de 222 pessoas, em 976 feridos e em mais de 73 mil casas comprometidas, de acordo com o Governo.

A infraestrutura precária dificulta as ações humanitárias. Centenas de corpos estão sendo enterrados em valas comuns, milhares de pessoas ainda estão desaparecidas, outras necessitando de amparo médico. Hospitais foram comprometidos e a Cruz Vermelha e os Médicos Sem Fronteiras, entre outras organizações, estão montando suas estruturas para o atendimento. Forças internacionais levam alimentos e medicamentos, que têm de ser jogados por aviões, porque o acesso terrestre está comprometido. O perigo de contaminação das águas é o que mais preocupa. O risco de doenças infectocontagiosas é iminente.

E como não lembrar do Tsunami em 2004, no Índico, e do terremoto no Haiti? Da tragédia na serra fluminense e no Morro do Bumba, no estado do Rio de Janeiro, das enchentes no Vale do Itajaí? Todos ainda tão presentes na vida das pessoas que sobreviveram às tragédias; muitas sequeladas física e mentalmente. E o que marca todas essas localidades, é a pobreza associada aos efeitos mais destruidores desses desastres naturais. As políticas públicas, por muitas vezes, não se dialogam. A fragilidade de sistemas de alerta ainda é grande em muitos locais, apesar de avanços em algumas regiões.

Diante de tanta vulnerabilidade e ineficácia, de maneira geral, da política global, o que chama a atenção sempre é a resiliência e a postura de milhares de cidadãos comuns, de representantes de organizações não-governamentais (ONGs) e das forças-tarefas internacionais envolvidas para reduzir ao máximo o sofrimento de quem sobreviveu. Grande parte é de voluntários, o que é importante salientar.

No contexto da era tecnológica, além do trabalho de campo árduo, há também ações de apoio digitais, que se somam no século XXI. Um fato interessante é a experiência de cerca de 700 voluntários que fazem o remapeamento das áreas afetadas pelo tufão para facilitar o resgate das vítimas e de corpos nas Filipinas. Para isso estão utilizando a plataforma OpenStreetMap.

Agora, no campo da política, ainda muito a alcançar e para se efetivar fora das salas climatizadas das conferências de negociações.

 

Veja também outros artigos sobre o tema das mudanças climáticas, no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

14/10/2013 - Água: um bem depreciado na sociedade do desperdício

14/01/2013 - Reflexão: a desertificação e o consumo inconsciente

27/08/2012 -No contexto das nove fronteiras

20/08/2012 - Eventos naturais extremos: prevenção no centro da pauta

07/08/2012 - Políticas fragmentadas e mudanças climáticas intensificam crise na África

23/05/2012 - Riomais20 - Como tratará da realidade da África Subsaariana

10/03/2012 -Refugiados climáticos: do alerta ao fato

04/03/2012 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como

13/01/2012 -Rio+20: O que fazemos com tanta informação?

27/12/2011 - As teias que ligam a COP17 com a Rio+20

10/12/2011 -Relatório de Adaptação do IPCC: será que eles leram

09/11/2011 - Refletindo sobre o Estado do Futuro/Projeto Millennium

07/10/2011 – Russell Mittermeier-p1: foco em conservação das espécies e áreas protegidas

27/09/2011 - Quem quer fazer parte da estatística fatal provocada pela poluição?

13/09/2011 - A Rio+20 sob o olhar de quem esteve na ECO 92

07/08/2011 - O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1),

06/08/2011 -Seca na Somália: precisamos sair de nossas caixas blindadas

22/12/2009 - Especial COP15: Agora é a vez do panettone

19/12/2009 - Especial COP15 - O desacordo sela encontro

13/12/2009 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos

10/12/2009 -  Especial COP15 - Lembrem bem deste nome – Tuvalu

06/12/2009 - Copenhague vira o centro do planeta

22/11/2009 - EIMA7: Como sair na contramão dos rumos das mudanças climáticas?

22/11/2009 - EIMA7: Entrevista: Giovanni Barontini sobre a COP-15

29/07/2008 - Parte 2 - Plano Nacional de Mudanças Climáticas vai à consulta pública

 

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

 

—————

Voltar


Blog

12/02/2020 14:28

Adaptação à Mudança do Clima: do papel à ação, uma longa distância

Reflexo de temporal em SP, nesta semana, abre uma discussão importante sobre o papel do planejamento urbano Por Sucena Shkrada Resk*  Vocês já devem ter ouvido dizer pelo menos uma vez que o Brasil é um dos países com maior arcabouço legal na área socioambiental. Isso não quer dizer,...

—————

04/02/2020 12:41

“Eu quero minha história de volta”, diz ex-moradora de Paracatu de Baixo, MG

Desabafo ocorre sobre recordações dos impactos do rompimento de duas barragens de rejeito da Samarco Por Sucena Shkrada Resk*, em Mariana (MG) “Levaram embora nossa história, eu não me sinto feliz”. Com esta frase, M.C.S., 45 anos, antiga moradora da comunidade de Paracatu de Baixo, subdistrito a...

—————

03/02/2020 11:22

Minas Gerais: um recorte sobre os abalos sísmicos e a gestão de riscos

Por Sucena Shkrada Resk* O Brasil tem na casa de 500 abalos sísmicos anualmente e pouca gente tem conhecimento disso. Minas Gerais é um dos estados que historicamente registra os maiores números de terremotos no país (a maioria entre 1 e 4 graus na Escala Richter, que vai até 10 graus), o que é um...

—————

23/01/2020 12:18

Saúde ambiental: estado de alerta mundial para o coronavírus reflete um desequilíbrio ecossistêmico

Por Sucena Shkrada Resk* Maior parte dos registros de casos, até agora, se concentra na China e em outros países asiáticos A Organização Mundial da Saúde (OMS) emitiu um alerta mundial sobre a propagação do coronavírus (2019-nCoV) e instituiu um comitê de emergência com renomados cientistas...

—————

21/01/2020 13:12

Guerra na Síria: todo o peso da expressão “infância roubada” sobre mais de 5 milhões de crianças

Por Sucena Shkrada Resk* Este é um dos exemplos mais cruéis de obstáculos aos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODSs), que se multiplica em outras nações no mundo Quando observamos atentamente as consequências dos oito anos e meio da devastadora Guerra na Síria, alguns dos pontos mais...

—————

17/01/2020 13:45

Ana Maria Primavesi: a pioneira semeadora da Agroecologia

Por Sucena Shkrada Resk* A construção da história se tece com ícones. Quando se trata da Agroecologia, a personagem que emerge é da engenheira agrônoma e Doutora em Cultura de Solos e Nutrição Vegetal Ana Maria Primavesi, que partiu para o outro plano, aos 99 anos, no último dia 5 de janeiro,...

—————

16/01/2020 12:49

O Piroceno chegou e agora?

Por Sucena Shkrada Resk* Os incêndios na Austrália são o alerta mais contundente do aquecimento global na atualidade Nem nos longas-metragens mais dramáticos, poderíamos imaginar o roteiro da vida real de incêndios florestais que atingem com mais intensidade até agora especialmente a Austrália,...

—————

15/01/2020 14:59

As mudanças climáticas desenham o cenário de urgência em saúde, na próxima década

Por Sucena Shkrada Resk Inação diante da crise pode ter um preço muito alto, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS) A saúde pública é, em última análise, uma escolha política e a crise climática é uma crise de saúde. Esta afirmação ecoa um dos principais alertas em relatório divulgado neste...

—————

20/10/2019 13:49

O ônus da desigualdade no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk* Há uma máxima que deve ser respeitada: os fatos não mentem, quando se trata de analisar a desigualdade socioeconômica no Brasil, que inclui a injustiça ambiental. Os percentuais estatísticos se revelam diariamente, nos trazendo a uma realidade gritante: o país está entre os...

—————

24/08/2019 15:16

A carência de uma visão e ação integradas panamazônicas

Artigo nº 761/Podcast 8 – Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk Por Sucena Shkrada Resk* Neste ano de 2019, a evidência de posturas de governanças isolacionistas reacende uma discussão nas entranhas sul-americanas. Vivemos décadas após décadas, a carência de uma visão e ação...

—————