A carência de uma visão e ação integradas panamazônicas

24/08/2019 15:16

Artigo nº 761/Podcast 8 – Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk

Por Sucena Shkrada Resk*

Neste ano de 2019, a evidência de posturas de governanças isolacionistas reacende uma discussão nas entranhas sul-americanas. Vivemos décadas após décadas, a carência de uma visão e ação integradas panamazônicas, que se acentua de forma vertiginosa agora. O Brasil é um ator estratégico neste tabuleiro, que é composto também por Colômbia, Peru, Venezuela, Equador, Bolívia, as duas Guianas e o Suriname. Formamos um grande corredor de biodiversidade e ecossistêmico tropical, que não pode ser tratado como se fosse composto de fatias separadas, desconexas. Nossos “rios voadores” não são figuras de linguagem para o mundo e a importância estratégica da nossa região para a segurança alimentar do planeta reacendeu os olhares externos para cá. Este artigo, em formato também de podcast, propõe uma pequena imersão neste tema.

Em estudo da Rede Amazônica de Informação Socioambiental Georreferenciada (Raisg) anunciado em junho deste ano, pesquisadores apontam que 91,7% da Panamazônia protegida legalmente (ex: unidades de conservação) está sofrendo pressão de projetos ou de empreendimentos como estradas, hidrelétricas, mineração, petróleo, queimadas e desmatamento.

Ao se aprofundar neste contexto, podemos destacar o perigo imposto a riquezas cultural, e acentuo – etnocultural-, socioambiental, de produção de alimentos, de economia criativa, da floresta e de tantos outros atributos. Tudo se perde em um modelo de governança carente de real cooperação multilateral que quebre as barreiras transfronteiriças em prol de um propósito maior de bloco, não só na visão econômica, como ela fosse fechada em si mesma, mas multidisciplinar e de pertencimento, que envolve o social e ambiental. Apesar de parecer óbvio repetir estas componentes, os fatos que nos assolam no dia a dia revelam exatamente esta falta de lente de aumento prática geopolítica.

A projeção que tomaram as queimadas na Amazônia brasileira e em várias partes da panamazônia atualmente, como na Bolívia e Paraguai, alerta que a disrupção não pode ser para sempre. E não se trata somente de alertas na Amazônia, mas no Cerrado, na Mata Atlântica, na Caatinga, nos campos sulinos...

Historicamente já sofremos com estas ocorrências, mas nunca somente ligadas a fenômenos climáticos e meteorológicos, de secas e estiagens isoladamente. Em boa parte, são intensificados em decorrência de ações humanas relacionadas ao processo de desmatamento voltado a um extrativismo predatório. Mas acima de tudo, se deve considerar a ausência e lacunas de investimento em prevenção e em precaução, e de ação de comando e controle, com uma fiscalização permanente e eficaz.

Na atual conjuntura, o crescimento exponencial destes registros de focos de calor gerou uma reação “viral” de jovens a governantes no mundo, e do mercado internacional, pois o incômodo foi instalado. Há como negar?

Segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), só na Amazônia, os focos de calor chegam na casa de 40 mil até agora, neste ano, sendo que esse número não ocorria desde 2010, quando atingiu 44 mil no período. Os piores anos anteriores foram 2004 e 2005, com número superior a 70 mil focos.

Nesta semana, as fumaças, as fuligens deram o recado que se trata de uma questão que não tem fronteiras. Ao ver hoje a notícia de que o governo boliviano começou a usar um avião supertanque/cisterna, considerado o maior do mundo, que tem como um dos objetivos principais, isolar uma termoelétrica, do fogo que se alastra por lá, traz muitas reflexões. Isso se acentua, porque apelou para que o Brasil e Paraguai adotem ações na zona compartilhada pelos três países, sobre a hidrovia Paraná-Paraguai.

E como o nosso país, de tamanho continental, está se portando em todos estes quesitos de prevenção e combate às queimadas e incêndios? O que se sabe é que de um total de 1,3 mil brigadistas que foram contratados pelo Ibama, neste ano, mais da metade está atuando nas áreas de ocorrência de fogo na floresta amazônica. E os investimentos que têm sido feitos em roupas e equipamentos desses profissionais, incluindo caminhões especiais que o Centro Nacional de Prevenção e Combate aos Incêndios Florestais (Prevfogo) vieram do Fundo Amazônia, conforme reportagem do jornalista André Borges, no Estadão, publicada recentemente.

Fundo este, administrado pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que passa por uma situação de incertezas de sua permanência, pois foi colocado em xeque pelo próprio governo e pelo ministério do meio ambiente. Já os investidores do fundo – Alemanha e Noruega, por enquanto, anunciaram a suspensão de novos recursos.

Desta forma, o governo fica responsável pelos salários e outras despesas desses profissionais. E no caso dos estados? Qual é o preparo e retaguarda para estes trabalhos brigadistas. Aí a situação fica mais complexa.

Diante da pressão que ganhou uma projeção internacional, hoje o governo federal anunciou que dará início a uma operação de garantia da lei e da ordem para combater as queimadas/incêndios na Amazônia, com validade, em princípio, até 24 de setembro. Segundo o anúncio, militares poderão atuar em áreas de fronteira, terras indígenas, unidades de conservação e em outras áreas da Amazônia Legal. Amazonas, Acre, Mato Grosso, Pará, Rondônia, Roraima e Tocantins (atualizado até 25.8 - 12h) já pediram este apoio. Uma das primeiras ações aconteceria em Rondônia, com 30 bombeiros da Força Nacional que estão sendo enviados, para atuar com uma aeronave.

Muitas perguntas ainda a serem respondidas: Alguma vez foi pensada a aquisição ou aluguel de aviões supertanques, como na Bolívia, por exemplo? Ou de ações compartilhadas entre as nações da panamazônia? E de ações conjuntas permanentes de combate ao desmatamento, o ano todo? Afinal, pertencemos ou não pertencemos a esta região? Fica a reflexão.


*Sucena Shkrada Resk - jornalista, formada há 27 anos, pela PUC-SP, com especializações lato sensu em Meio Ambiente e Sociedade e em Política Internacional, pela FESPSP, e autora do Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk (https://www.cidadaosdomundo.webnode.com), desde 2007, voltado às áreas de cidadania, socioambientalismo e sustentabilidade.

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk: 
14/08/2018 - O mercúrio nas veias da amazônia
07/05/2018 - O aumento de casos de malária e sua associação à pressão socioambiental sobre a Amazônia
11/12/2017 - Direito indígena: coordenadora da Coaib destaca: protocolos de consultas de diferentes povos indígenas na Amazônia são instrumentos por direitos
02/11/2017 - As mudanças climáticas sob o olhar indígena
18/10/2017 - Do papel à realidade, existe um gap na mitigação e adaptação aos eventos extremos no Brasil
05/09/2016 - A longevidades em tempos de mudanças climáticas
28/08/2016 - Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus
20/09/2015 - Amazônia: um lamento dos sem-árvore
30/08/2015 - Rumo à COP21: o desmatamento na Amazônia continua a ser um desafio
19/07/2015 - Extrativismo sustentável, dobradinha que inclui conservação e geração de renda
08/02/2015 -Castanheira viva: um sinal de floresta em pé
15/10/2014 - Especial biodiversidade (Parte 1) - Protocolo de Nagoya passa a valer sem o Brasil
04/11/2014 - Decisões geopolíticas definem o caminho das mudanças climáticas
25/06/2013 - Um olhar sobre a Venezuela megadiversa
16/06/2013 - Sr. Pedro, o barqueiro, por Sucena Shkrada Resk
10/03/2012 - Refugiados climáticos: do alerta do fato


 

Pesquisar no site

Blog

11/10/2017 11:35

Arpilleras: a defesa dos direitos tecida com a sensibilidade da arte

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro Maria Alacídia, 52 anos, de Altamira, Pará, e Claides Helga Kohwald, 76 anos, do Rio Grande do Sul e que hoje mora no Paraná, vivem a milhares de quilômetros de distância, mas têm suas vidas ligadas por um bordado e por uma “linha histórica” em comum. A...
09/10/2017 17:53

Justiça socioambiental: centenas de vozes ecoam homenagem póstuma à pescadora Nicinha, no Rio de Janeiro

Por Sucena Shkrada Resk, no Rio de Janeiro  A pescadora Nilce de Souza Magalhães, mais conhecida por Nicinha, liderança feminina do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), no estado de Rondônia, defendia os direitos das populações afetadas pelo Complexo Hidrelétrico, no rio Madeira e seus...
25/09/2017 12:22

Gameleira traz um exemplo propositivo de afirmação identitária quilombola

PÍLULAS SOCIOAMBIENTAIS Por Sucena Shkrada Resk O Museu Gídio Veio, da Comunidade de Remanescentes Quilombolas de Gameleira, em São Tomé, no Rio Grande do Norte, é uma prova de que o senso de pertencimento étnico ao território pode ser ‘perpetuado’ por meio de ações proativas, que tragam o resgate...
21/08/2017 16:06

Ser quilombola: um diálogo com a memória ancestral

Por Sucena Shkrada Resk, em Eldorado (SP) - 20/08/2017 “Eu tenho uma memória ancestral que diz quem eu sou”, destaca o quilombola Ronaldo dos Santos, coordenador executivo da Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (CONAQ). Essa afirmação nunca foi tão...
01/08/2017 11:40

Mobilização nacional defende comunidades remanescentes quilombolas contra retrocessos em direitos estabelecidos

Por Sucena Shkrada Resk Nos últimos anos, está sendo construído um cenário de retrocessos no campo dos direitos humanos no Brasil, que ferem a Constituição de 1988. Atualmente, uma causa que ganha visibilidade é a das comunidades remanescentes quilombolas. Isso acontece, porque o julgamento...
09/07/2017 18:10

O discurso da invisibilidade no contexto da injustiça socioambiental e no campo

Por Sucena Shkrada Resk Vivemos tempos de invisibilização acentuada de povos e comunidades tradicionais e indígenas promovida pelos modus operandi das políticas de infraestrutura, que ferem os direitos instituídos legalmente, no âmbito nacional e internacional. Algumas das agendas com maior número...
22/01/2017 18:21

O ônus socioambiental da contemporaneidade “Flex”

  Por Sucena Shkrada Resk   Quando dizemos que um indivíduo ou uma nação têm "palavra", o sentido implícito nesta frase implica retidão, ética e relação de confiança. Mas nos deparamos hoje na contemporaneidade com uma fragilidade que reflete um mundo em que leis, direitos instituídos e...
18/12/2016 10:34

Guerra na Síria: o retrato da desumanização no século XXI

Por Sucena Shkrada ReskQuem cura as cicatrizes das feridas profundas das guerras civis que marcam o século XXI, em especial, na Síria? Os acordos geopolíticos demonstram que impera a crueldade imposta pelas polaridades, que armam os lados opostos internos com aparato bélico e financiamento e causam...
12/12/2016 21:38

A legislação socioambiental sob o ataque da artilharia ruralista no Congresso Nacional

Por Sucena Shkrada Resk Agora, querem destruir as regras do licenciamento ambiental O desgaste político brasileiro na agenda socioambiental chega a beirar o surrealismo. Tal qual uma artilharia, com tanque de guerra, a bancada ruralista tem assumido o ataque, por meio de projetos que tramitam no...
05/09/2016 17:41

A longevidade em tempos de mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk Caso fôssemos fazer uma enquete para saber se as pessoas querem envelhecer em um planeta com o aumento da temperatura média acima de dois graus Celsius até o final do século com relação à era pré-industrial, muitas talvez não tivessem a noção do que essa pergunta significa....
28/08/2016 16:31

Savanização da Amazônia mato-grossense a olhos nus

Por Sucena Shkrada Resk Mais de 15 mil focos de incêndio/queimadas, neste ano, colocam o Mato Grosso em primeiro do ranking no país atualmente. E boa parte destes registros ocorre no bioma amazônico ao norte e noroeste do estado. Colniza, a pouco mais de mil quilômetros de Cuiabá, é o município que...
26/06/2016 22:35

Mortes de ativistas socioambientais não podem se perder nas estatísticas

Por Sucena Shkrada Resk Muitos nomes em algumas lápides por este Brasil podem ser anônimos para a maioria de nós, mas representam o descaso cada vez maior com a vida de cidadãos e cidadãs, que fazem parte de comunidades indígenas, que pleiteiam a demarcação de terra que se estende em processos...
24/04/2016 14:53

Agrotóxicos – Parte 2: mais um projeto polêmico na Câmara

Por Sucena Shkrada Resk Quando imaginamos que está chegando o momento de bonança, vem mais uma notícia que exige um olhar atento da sociedade quanto à temática dos agrotóxicos e a tentativa de mudança de nomenclatura e regras, que ferem o direito do consumidor. Tramita na Câmara dos Deputados, o...
11/04/2016 12:44

Estão calando aos poucos as raízes indígenas: a memória oral é um caminho necessário

Por Sucena Shkrada Resk Quando anunciam que dezenas de línguas indígenas podem morrer, como centenas já desapareceram no Brasil, dá uma sensação de vazio. O processo de extermínio das raízes vem se acelerando, desde o “Descobrimento do Brasil”, quando se estima que havia o registro entre 1.500 e...
03/04/2016 09:44

Agrotóxicos-transgênicos: um rolo compressor está sendo passado sobre o direito do consumidor

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto o cenário político brasileiro enfrenta uma de suas maiores crises na história democrática no país, nos bastidores, a orquestração no Congresso de grupos políticos, que representam predominantemente interesses de mercado, consegue aprovar projetos que prejudicam o...
23/02/2016 20:34

Esgotamento sanitário mais uma vez relegado a segundo plano no Brasil

Por Sucena Shkrada Resk Bactérias, vírus e parasitas, coliformes fecais, produtos químicos, metais pesados...  Sinto muito dizer, mas 42% da população convivem com este contexto de saneamento, porque não têm acesso a um direito mínimo, que é a coleta de rede de esgoto. O endereço dessa...
09/02/2016 07:27

As lamas da mineração: a caixa de pandora foi aberta

Por Sucena Shkrada Resk Três meses se passaram e a conclusão a que se chega é que a expressão “tragédia anunciada” se materializou no acidente do rompimento da barragem de rejeitos minerais(de ferro) do Fundão, operada pela Samarco, controlada pela Vale e pela anglo-australiana BHP Biliton, , em...
31/01/2016 14:00

Aedes aegypti - lá se vão quinze anos e uma constatação: o Brasil baixou a retaguarda

Por Sucena Shkrada Resk Lembro como se fosse hoje. O ano era 2002 e trabalhava como repórter no Diário do Grande ABC. Uma das pautas que mais cobri, neste período, foi com relação à epidemia de dengue e aos diversos focos do mosquito fêmea do Aedes aegypti que havia na região e no país. Em outras...
26/12/2015 15:58

Implementação é a palavra-chave após a COP21

Por Sucena Shkrada Resk Esta é uma fase de amadurecimento de reflexões. Os últimos dias após o acordo firmado na 21ª Conferência das Partes (COP-21) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima (UNFCCC) e da 11ª Reunião das Partes no Protocolo de Quioto (MOP-11), em...
07/12/2015 21:32

COP21: as mudanças climáticas e as vidas em xeque

Por Sucena Shkrada Resk Enquanto nas salas climatizadas da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP-21), em Paris, tudo vai hipoteticamente bem, obrigado, do lado de fora, a realidade é bem outra. Essa constatação vem por meio de dados do recente...

© 2018 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-jornalista Sucena Shkrada Resk