Um dia no “Velho Chico”

04/04/2015 20:18

Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

Por Sucena Shkrada Resk

“Descoberta e sensação de pertencimento”. Essas talvez sejam as palavras certas para definir o que me acompanhou há alguns meses, em uma viagem ao Nordeste, quando parti para a navegação fluvial no “Velho Chico”. Até hoje, essa experiência ecoa como uma lembrança permanente, que criou raízes. O rio, com seu tom azulado, se desnudou para mim, após a abertura da eclusa da Hidrelétrica de Sobradinho (BA). Aquele portal imenso se abriu ao compasso cronometrado, que dava certa ansiedade, pois literalmente revelava um divisor de águas. Entre algo que o ser humano construiu e o que a natureza nos presenteou.

Superado o desnível de quase 33 metros, dali por diante, foram algumas horas, de viagem física e mental, olhando uma margem e outra alternadamente e à frente, com um único pensamento: estava interagindo com o rio da integração nacional até chegar à Petrolina (PE) e Juazeiro (BA), divididos por uma ponte, a cerca de 40 km de distância de lá. Sim, ainda vivo, simbolicamente o São Francisco cobrava mais atenção de mim e de toda a sociedade e do poder público para que no futuro não se torne apenas uma lembrança ou menção em livros de história.

O cantor regional entoava as canções nordestinas, que vinham impregnadas de causa e relação, porque o São Francisco, lá estava demarcado nas letras das músicas. Essa atmosfera propiciava certa sensação de pertencimento. Algo bom de sentir. 

Campos, árvores, casas de madeira, construções mais sofisticadas, pequenas canoas e ribeirinhos se banhando. Aves fazendo voos rasantes. Trechos com e sem mata ciliar. Pequenas prainhas de água doce invadidas por turistas. Esses cenários se alternavam. Lá estava eu, nesta relação de reconhecimento de um rio que não nasceu retilíneo ou pediu para ser retificado pelo homem, que sobrevive e se enquadra em novas molduras.

Tantos pensamentos passaram. Da abundância, da seca, da transposição, das mudanças climáticas... Do que um dia foi, do que é e do que será...o “Velho Chico”. 

Ao chegar às margens de Juazeiro (BA) e Petrolina (PE), um novo cenário apareceu. A verticalização em ascendência, do lado pernambucano e um traçado mais horizontal, no baiano. A urbanização revelando a pressão por muitas vezes silenciosa no desenho do rio. E aí...o pensamento voltou a fazer uma pergunta. Até quando o “Velho Chico”, a biodiversidade e o ecossistema em toda sua extensão suportarão as intervenções, desde a Serra da Canastra (MG) ao oceano Atlântico, em 2,8 mil quilômetros, atravessando cinco estados?

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*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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