Suassuna, um brasileiro travestido de “esperança”

21/08/2014 11:08

Por Sucena Shkrada Resk


Foto (Acervo pessoal: Sucena Shkrada Resk/abril 2011)

“O otimista é um tolo. O pessimista, um chato. Bom mesmo é ser um realista esperançoso”. Frase inesquecível do dramaturgo, poeta e romancista paraibano Ariano Suassuna (1927-2014), que penetra em nossas reflexões, por causa de sua sutileza ao definir a sua maneira de interpretar a vida. Eu me lembrei dele hoje ao ver imagens de semblantes de crianças nos seus primeiros meses reluzindo o quê? Justamente essa esperança, que começa a ser construída a partir do momento que nascemos, quase como uma concepção poética.

Em 23 de julho deste ano, aos 87 anos, esse nordestino ‘aperreado’, que se sentia realizado como um contador de histórias, se despediu destas paragens, mas continua muito presente no imaginário do povo brasileiro, em especial, nordestino. Com a sua voz rouca e sorriso fácil mas sem perder a ironia refinada, ele viajou por vários cantos deste país, levando sua leitura de mundo, por meio de suas aulas-espetáculos. Inesquecíveis, pois nelas se entregava por inteiro numa relação próxima ao público, fazendo com que cada um que o assistisse tivesse a sensação de fazer parte daquele universo de tantas histórias presentes em seu repertório. 

Cativante. Assim era Suassuna. O seu olhar brilhava a cada lance de memória de passagens de sua vida de paraibano, com muito orgulho. Via na simplicidade do  povo nordestino, de seus artistas e escritores,  a maior matéria-prima para sua mente incansável. Assim, criou o Movimento Armorial, valorizando a literatura de cordel, os pífanos, as rabecas, as belíssimas xilogravuras, em 1970. Iniciativa que defendeu até o fim. Com esse estilo peculiar, bem antes, em 1955, havia escrito o Auto da Compadecida, que virou filme, sob direção de Guel Arraes e roteiro de Adriana Falcão (1999) e peça teatral, ganhando reconhecimento internacional.

Como esquecer do personagem João Grilo? E do desabafo ‘singelo’ de Chicó?

“Chicó – João! João! Morreu! Ai meu Deus, morreu pobre de João Grilo! Tão amarelo, tão safado e morrer assim! Que é que eu faço no mundo sem João? João! João! Não tem mais jeito, João Grilo morreu. Acabou-se o Grilo mais inteligente do mundo. Cumpriu sua sentença e encontrou-se com o único mal irremediável, aquilo que é a marca de nosso estranho destino sobre a terra, aquele fato sem explicação que iguala tudo o que é vivo num só rebanho de condenados, porque tudo o que é vivo morre. Que posso fazer agora? Somente seu enterro e rezar por sua alma.”

Inesquecível. Assim será Suassuna, para a cultura brasileira. Homem que traduzia o sentido do respeito às raízes e à justiça social.

“Tenho duas armas para lutar contra o desespero, a tristeza e até a morte: o riso a cavalo e o galope do sonho. É com isso que enfrento essa dura e fascinante tarefa de viver” (Ariano Suassuna).

Veja também o artigo que escrevi sobre ele, quando tive a oportunidade de assistir a sua aula-espetáculo, em São Paulo, e depois pude entrevistá-lo, no ano de 2011. Naquele momento,  lá estava eu eternamente grata por ter conseguido encontrar em suas palavras, um sentido de brasilidade, que nunca irei me esquecer:

01/05/2011 - Suassuna, em verso e prosa

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk 

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