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Rubem Alves e a Escola da Ponte: a desconstrução de paradigmas, por Sucena Shkrada Resk

13/08/2014 17:43

“Quero uma escola retrógrada...em que a aprendizagem e o ensino sejam um empreendimento comunitário, uma expressão de solidariedade...e não uma linha de montagem”. Compreender o sentido amplo destes anseios de Rubem Alves (1933-2014) requer a libertação de amarras conceituais e fazer uma imersão no ‘desaprender’ e no ‘desensinar’, como dizia o educador. 

E tudo começa em maio de 2000, na Vila das Aves, em Negrelos, Portugal, quando o desejo se tornou realidade. Um dia para nunca mais ser esquecido. Sensação que o psicanalista, pedagogo e escritor mineiro teve e transmitiu aos seus leitores ao conhecer a Escola da Ponte. Ele ficou ‘apaixonado’ pelo que vivenciou ao se deparar com a quebra prática de paradigmas dos conceitos herméticos de educação, em uma instituição pública criada nos anos 70, sem o modelo hierárquico, em que os protagonistas são os alunos de educação básica, e que sobrevive ao modelo tradicional.

A experiência resultou em cinco crônicas que Alves publicou primeiramente no Correio Popular de Campinas, que depois compuseram a sua obra ‘A Escola com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir’, pela Papirus Editora, em 2012, que chega agora à sua 13ª edição. São textos que emocionam por traduzir como um homem da academia consegue se despir de todos os seus títulos e reconhecer na simplicidade a forma mais refinada do universo educacional. No alto de sua maturidade, se dedicou a escrever e conviver com os pequenos. “A velhice me abriu os olhos...Crianças têm um olhar encantado...Seus olhos são dotados daquela qualidade que, para os gregos, era o início do pensamento: a capacidade de se assombrar com o banal...”, dizia.

Para encontrar sentido em sua fala, há mais um trecho de sua obra, que é bem ilustrativo neste sentido, quando diz – “...Gente de boa memória jamais entenderá aquela escola. Para entender é preciso esquecer quase tudo o que sabemos. A sabedoria precisa de esquecimento. Esquecer é livrar-se dos jeitos de ser que se sedimentaram em nós, e que nos levam a crer que as coisas têm de ser to jeito que são. Não. Não é preciso que as coisas continuem a ser do jeito como sempre foram...”.

O livro ainda tem textos de Ademar Ferreira dos Santos (educador da Escola da Ponte), do jornalista Fernando Alves, de Pedro Barbas Albuquerque e de José Pacheco, um dos precursores da instituição, além do Centro de Formação Camilo Castelo Branco, localizado na Vila Nova de Famalicão, em Portugal. Os relatos contribuem para a compreensão dos princípios que regem essa forma arrojada de enxergar o propósito da educação.

Rubem Alves definiu o que presenciou e ouviu  na Escola da Ponte como um momento de ‘iluminação', que segundo ele, ocorre quando acontece o lapsus (a queda, segundo a psicanálise), uma fratura no discurso lógico.

Isso se deu ao ouvir de uma criança, com autonomia, a apresentação da escola e que com desenvoltura e com uma clareza desconcertante responder às suas perguntas. Em salas amplas, o educador avistou a multiplicidade de alunos ‘pequenos’ e grandes’ (incluindo colegas com síndrome de down) compartilhando um mesmo espaço, que não seguiam um conteúdo curricular produzido e regras de convivências pelos adultos, mas por eles mesmos. O desprendimento era tanto, que no quadro de avisos, as crianças se sentiam à vontade para colocar seus nomes quando tinham necessidade de ajuda em dado tema e no outro, se dispondo a ajudar.

Vários professores convivem com os estudantes em um único espaço, na Escola da Ponte. Lá não existe a figura de um único educador para cada disciplina. Pode-se se dizer que as mesmas se mesclam e são construídas pela leitura dos alunos constituída do prazer que têm por aprender ângulos dos temas de conhecimento que os tocam, a partir das próprias experiências e pesquisas.  Rubem Alves faz a seguinte observação sobre este modelo de transversalidade – “...que a ciência que se aprende a partir da vida, não é jamais esquecida”. E após ler o seu relato e conhecer um pouco mais sobre essa unidade de ensino portuguesa, que já tem adeptos em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil, é possível compreender como é possível fazer releituras importantes que cheguem mais próximo do que é uma educação cidadã e democrática.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk 

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