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Refugiados climáticos: do alerta ao fato, por Sucena Shkrada Resk

10/03/2012 08:07

O anúncio feito pelo governo insular de Kiribati (arquipélago no Pacífico), em 2010, começa a se concretizar em 2012...Esse é um fato real, poucos meses antes da Rio+20. O líder do governo anunciou que o país deve adquirir 20 km² de terras em Fiji, para poder levar aos poucos a sua população de cerca de 113 mil. Essa remoção, que implica a complexidade das adaptações culturais, geração de empregos e tantas outros ângulos, não integra a pauta principal da agenda internacional. É a realidade que cerca tantas outras nações que já passam pelo mesmo problema.

A situação dos refugiados climáticos ou ambientais será uma das prioridades da conferência, em junho, com o vigor que o fato merece ou ficará "perdida" nas exaustivas negociações na COP18, já que suas reivindicações não receberam o tratamento devido nas edições anteriores? E quem se lembra de Tuvalu, por exemplo? É bom marcar esse nome, porque, talvez, não faça mais parte do mapa-múndi daqui a algum tempo, como Kiribati.

A memória para alguns é mais presente do que para outros, quando se trata do contexto do avanço dos comprometimentos humanos e territoriais, que envolvem as alterações do clima. Poucas centenas, talvez, se recordem da manifestação durante a 17ª Conferência das Partes (COP-17) da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, em Durban, na África do Sul, em dezembro de 2011. Lá, centenas de pessoas lotaram os saguões em solidariedade às reivindicações dos africanos e de representantes dos países insulares.

Em 2010 (COP16), no México, Dessima Williams, presidente da Aliança dos Pequenos Estados Insulares (Aosis), que representa 43 países, também tentou, em vão, sensibilizar as nações poluidoras sobre a necessidade de mitigação (redução de danos) e adaptação, limitando a 1,5 graus a temperatura média no planeta.

E a pequena Tuvalu, de 26 km 2, encravada também no Pacífico, ganhou notoriedade na mídia, durante a COP15, em Copenhague, apelando para que o mundo olhasse para a situação dessas nações ,que ficam em arquipélagos no meio do oceano, que estão sendo engolidas literalmente pelo mar, por causa do nível das águas que aumenta a cada ano.

No gerenciamento de perdas e danos, é preciso ir mais longe e sem discursos demagogos "do vamos ajudar, somos solidários". As situações mais emergentes estão no Chifre da África, na Ásia. As pessoas vagam milhares de km em busca de refúgio. Algumas morrem pelo caminho, outras vão parar em campos de refugiados. O que as leva para esse estágio de penúria? Além da situação climática, sofrem com governos ditatoriais e guerras civis. Tudo se interliga. Basta ver o estado em que se encontra o maior campo de refugiados no mundo - Dadaab, no Quênia. Uma bomba-relógio prestes a explodir.

E o Brasil, nessa história? Fez discursos de apoios a esses países vulneráveis, mas...Por aqui, as tragédias também começam a se acumular no histórico dos últimos anos, com a intensificação das chuvas em vários pontos do país, com o avanço do mar em sua costa, a devastação dos manguezais, a savanização na Amazônia...A seca está cada vez mais presente, não só no Nordeste, mas no Sul do país. Tudo isso deveria ser argumento suficiente para medidas mais incisivas, de curto a longo prazo.

Neste mês, foi aprovada na Câmara, a Política Nacional de Proteção e Defesa Civil e que autoriza a criação do Sistema de Informações e Monitoramento de Desastres. Alguns podem dizer - "Antes tarde, do que nunca". Mas o concreto é que o país está muito atrasado no quesito de adaptação...Basta relembrar: Vale do Itajaí, serras fluminenses, Atafona...e tantos outros cenários de enchentes e secas, em todas as regiões. Mais um quadro de incertezas é gerado com o processo de votação do Projeto de Lei do novo Código Florestal, na Câmara.

E voltando a Kiribati, a Tuvalu...quem se importa coma população dessas nações mesmo?

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