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Perito Moreno, um gigante ainda resiliente às mudanças climáticas, por Sucena Shkrada Resk

27/07/2014 16:23

crédito e acervo pessoal de imagens: Sucena Shkrada ReskPerito Moreno - 17/04/12 - crédito: Sucena Shkrada Resk

Um traçado escuro forma uma fenda, como uma grande cicatriz, naquele imenso azul de gelo. De repente, o som é algo parecido com um grande ranger de dentes e em alguns minutos...um estrondo e o grande bloco se desprega do glaciar Perito Moreno, no Parque Nacional Los Glaciares, na Patagônia Argentina, localizada na Província de Santa Cruz. A visualização desse processo, que acontece em intervalos de meses e de anos, é inesquecível, e vivi a experiência em abril de 2012. O mais surpreendente nesta dinâmica é que esse maciço de água doce, com cerca de 250 quilômetros quadrados de superfície e com 70 metros de altura em alguns pontos, represa parte do Lago Argentino e ainda resiste às mudanças climáticas. Será uma resiliência impressa pela natureza que fala mais alto? Quem sabe?...

Perito Moreno - Patagônia - 17/04/12 - Sucena Shkrada Resk

A visão é cinematográfica. Os tons de azul mais claro se fundem com mais escuros em várias saliências. A geleira leva o nome do cientista Francisco Pascasio Moreno (1852-1919), fundador da Associação Científica Argentina, e ficou mais famosa entre os demais glaciares da região, por causa da facilidade da visualização, na entrada do próprio parque, criado em 1937. Lá percorri uma rede de acessos, com várias passarelas e escadarias. Para chegar a este trecho, como também ao do passeio em embarcação na parte do lago (para visualizar o complexo dos demais blocos), o ponto de partida é El Calafate, uma cidade hospitaleira predominantemente horizontal, com casas e montanhas. O conjunto dessa unidade de conservação argentina merece a designação de Patrimônio Mundial da Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO), concedida em 1981.

Sucena Shkrada Resk - passeio dos glaciares - 04/2012

Na parte navegável, partimos de Porto Bandeiras, e a cada momento aparecem blocos de gelo dispersos nas águas. Alguns parecem esculturas por causa dos seus formatos diferenciados. Quando vimos um grande paredão, o guia sinaliza que estamos avistando o outro ângulo de Perito Moreno. A partir daí é que se retorna ao ponto de partida da navegação. De um lado e de outro, nessa viagem, na ida e vinda, o que nos circunda são os grandes glaciares, como Upsala, Spegazzini e o imponente Viedma. Durante todo o trajeto, o frio e o vento são cortantes, mas o cenário compensa as baixas temperaturas.

Glaciares - 04/2012 - crédito: Sucena Shkrada Resk

Outras geleiras dos Andes tropicais, por sua vez, não estão resilientes, como Perito Moreto, e sofrem forte pressão dos eventos extremos. Elas ficam localizadas entre Peru, Bolívia, Equador, Colômbia e Venezuela. Um dos estudos que avalia esse cenário de alerta é o 'Current state of glaciers in the tropical Andes: a multi-century perspective on glacier evolution and climate change’. O documento foi divulgado no periódico The Cryosphere, por um grupo de pesquisadores, em 2013.

Agora, resta saber até quando o grande glaciar patagônico resistirá à velocidade impactante das mudanças climáticas, que atinge todo o mundo.

Veja também outros artigos que escrevi no Blog a respeito desta viagem:

20/07/2014 - O condor da Patagônia argentina

30/04/2012 - Rumo à Rio+20: Um olhar sobre Perito Moreno

A caminho de Perito Moreno - 17/04/12 - Sucena Shkrada Resk

* Fiz um pequeno registro desta experiência em vídeo, que pode ser conferido em: http://youtu.be/oIcuTYEEVP8.

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