Pantanal: um bioma rico em serviços ecossistêmicos

18/11/2014 18:19

crédito da foto: Sucena Shkrada Resk

Reconhecimento do seu valor existe, mas a pressão ainda é muito maior

Por Sucena Shkrada Resk

Reconhecer o valor é o primeiro passo. Neste quesito, o Pantanal matogrossense – cujo dia foi celebrado em 12 de novembro - ganha visibilidade mundial ao longo do tempo, como destaca o relatório Os benefícios dos Patrimônios Naturais Mundiais (em inglês, The Benefits of Natural World Heritage), produzido pela organização não governamental International Union for Conservation of Nature (IUCN). Só em um trecho de 187,818 hectares de área protegida reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), uma amostra desta região do centro-oeste brasileiro, foram identificados  2.013 serviços ecossistêmicos que resultam em US$ 1,700 milhões por ano, valor maior do que o das exportações brasileiras de peixes (2010) e de frutas frescas (2011). O montante foi equivalente ao orçamento anual do Ministério do Meio Ambiente (2010-2012) de US$ 1,718 milhões.

Mas o desafio é bem maior para a conservação de todo o bioma, que representa 1,76% da área total do território brasileiro, presente nos estados de MT e MS, imenso aluvião inundado durante a estação chuvosa. Os pesquisadores apontam iniciativas como da criação do chamado ‘gado orgânico’, além da pesca e ecoturismo sustentáveis. Por outro lado, as unidades de conservação são outro instrumento importante contra a pressão antrópica, entretanto, incorporam somente 4,4% do bioma. Entre elas, o Parque Nacional do Pantanal Matogrossense, com 136.028 hectares, é avaliado como a maior área alagada do continente americano. No bioma, ainda há 9 parques estaduais, duas Áreas de Proteção Ambiental (APAs) e mais de 10 Reservas Particulares de Patrimônio Natural (RPPN´S). Com isso, são 900 mil ha de áreas protegidas.

Conservar esta caixa d`água não é uma tarefa fácil. Há algumas iniciativas em andamento, como  do Pacto em Defesa das Cabeceiras do Pantanal. A iniciativa é do WWF-Brasil, com apoio do Programa HSBC pela Água. O projeto visa a proteção de quatro grandes afluentes da região - os rios Alto-Paraguai, Sepotuba, Jauru e Cabaçal. Esses cursos d`água respondem por cerca de 30% do fluxo hídrico que desce ao Pantanal.

A pressão da construção de hidrelétricas, nesta região, também causa apreensão por causa dos possíveis impactos ambientais. São entorno de 154 projetos, segundo Débora Calheiros, da Embrapa Pantanal e da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Há ações pontuais dos Ministérios Público Federal e Público do Mato Grosso do Sul a respeito.

O Pantanal e sua biodiversidade

Mas o que chama mais atenção, quando se trata do Pantanal, sem dúvida, é a riqueza da biodiversidade local. Seja na água, no céu ou na terra, há sempre o que contemplar. Como não apreciar casais de araras-azuis cúmplices em suas revoadas ou o elegante tuiuiú e o olhar camuflado do jacaré-do-pantanal ou do jacaré-de-papo-amarelo? É neste paraíso da diversidade, que está o maior reduto de crocodilianos da Terra. Esse cenário ganha um ‘plus’ com o pôr do sol cinematográfico característico desta região.

Afinal é neste bioma que se mantém um dos maiores ecossistemas mundiais de zonas úmidas, banhado pelos rios Cuiabá e Paraguai. Sua vegetação incorpora traços de transição entre o cerrado e a floresta semi-decídua do sul e sudeste. Ao mesmo tempo é possível detectar registros de Cerrado, Mata-Atlântica e do bioma amazônico. A fauna é biodiversa, com mais de 132 espécies de mamíferos, 463 de aves, 113 de répteis e 263 de peixes e 41 de anfíbios, de acordo com o Ministério do Meio Ambiente (os números divergem dependendo da fonte).

Nas listas de espécies vulneráveis da IUCN, estão o cervo do Pantanal, o tamanduá-bandeira e a onça-pintada, entre outras.

Algumas ações conservacionistas visam proteger esta fauna como, por exemplo, do Instituto Onça Pintada, do Projeto Onçafari, do Projeto Arara Azul, que pude conhecer a trabalho, no Refúgio Ecológico Caiman, e do Projeto Bichos do Pantanal.

O Pantanal e sua gente

Os povos indígenas dessa região, como os Guató, os Kadiwéu e os Guarani-Kaiowá, entre outros, também são cuidadores dessa biodiversidade, ao mesmo tempo que muitos deles sofrem a pressão do homem branco. A essas comunidades se somam quilombolas, como de Jejum e de Tanque do Padre (Poconé), de Lagoinha de Cima e do Morro-do-Candambé (Chapada dos Guimarães), de Jacaré dos Pretos e de Mutuca (Nossa Senhora do Livramento).

As populações ribeirinhas se integram a este grupo. Entre elas, da Barra do São Lourenço, de Paraguai-Mirim, de Porto da Manga e da Serra do Amolar, além de comunidades extrativistas, que definem um traço cultural peculiar desta região. Em apoio a essas populações, há trabalhos interessantes, como da ONG Ecoa, da Universidade Federal do Mato Grosso e do Instituto Socioambiental (ISA).

Bem, o que resta falar? Os argumentos são mais que suficientes para que haja um olhar mais cuidadoso para este pedaço do Brasil, não é?

Veja também outros artigos que escrevi sobre este tema, no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

13/11/2014 – Manoel de Barros: o descobridor de memórias fósseis
12/11/2014 – Justiça socioambiental: um grande gargalo no Brasil
16/10/2014 – Guaranis-kaiowás resistem à dinâmica da desigualdade, mas até quando? 
01/02/2013 – Conservação da Zonas Úmidas: Brasil tem 11 sítios de Ramsar
*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

© 2014 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-Sucena Shkrada Resk