Memória socioambiental: o legado de “Realidade”, por Sucena Shkrada Resk

02/06/2013 11:33

A encadernação é delicada e para folheá-la o cuidado tem de ser redobrado. Afinal 43 anos se passaram. Estou falando da edição de maio de 1970 da Revista Realidade, da Editora Abril, que traduzia em suas matérias as facetas de um Brasil que ainda permanecem pouco alteradas, se formos colocar uma lente ampliada sobre as pautas. Estou relendo esse exemplar que adquiri em um sebo em Belo Horizonte, há alguns anos, o que me permite fazer uma reflexão histórica pelos tortuosos caminhos da sustentabilidade. As reportagens ganham vida até hoje em novas leituras porque exprimem trabalhos de apuração de um jornalismo vivencial enriquecidos por fotos humanizadoras. Uma dobradinha salutar.

“A Alma do Nordeste” (texto e fotos: Hamilton Ribeiro e Luigi Mamprin); “Terra, trabalho: fazenda” (texto: Jorge Andrade e fotos: Maureen Bisilliat); “Eles se odeiam por lei (Luís Edgar de Andrade); “No fundo da Rocha – a dois mil metros –a quarenta e um graus – Ouro(texto: Talvani Guedes da Fonseca e fotos: Jean Solari) e “Sós, com Deus” (texto: Rodolfo Konder e fotos de Chico Aragão), entre outras matérias expressam a história brasileira e mundial, que por muitas vezes, eram e são generalizadas nos livros oficiais.

Nessa escola de jornalismo, o profissional se torna um “contador de histórias” nato e demonstra o quanto é imprescindível ter um olhar racional e sensibilizado por qualquer assunto que deva relatar. O x da questão é compreender os meandros socioeconômicos e de fundo político, pois tudo está interligado, nos bastidores da notícia. Naquela época, o país vivia o regime da Ditadura e no mundo as preocupações com o que chamamos hoje de "pegada ecológica" já se acentuavam com o Clube de Roma, se estruturando na Conferência de Estocolmo em 1972.

Agora, no ano de 2013, o que se observa? A população nordestina, principalmente, no agreste, vive hoje a pior seca nos últimos 50 anos, passa em muitas localidades, as privações de décadas atrás, com  fisiologismos políticos que emperram o desenvolvimento. Como contextualizar esses tempos históricos que concentram esse tema? Eis aí uma provocação. A água se transformou no ouro azul e vimos a poluição nos nossos cursos d`água e em nossos aquíferos a soma desse tempo histórico. A savanização na Amazônia se agrega a essa rede de relações climáticas e antrópicas.

O racismo e o apartheid até hoje são marcas difíceis de apagar. Sucessões de experiências nesse contexto ocorrem pelo mundo, com o chamado racismo ambiental, que ganha novo tônus, com o conceito de justiça socioambiental. Se formos ver o tema da mineração, a pauta por aqui é o novo Código de Mineração e até onde se permite o extrativismo e o que isso reflete sociambientalmente falando e nas divisas” do país. O que realmente mudou ou mudará?

Exemplos de práticas de hortas orgânicas, comunitárias e caseiras deixam de ser a exceção e começam a se destacar nos grandes centros urbanos e no campo com a agricultura familiar x a monocultura em grandes extensões de terra e sistemas de irrigação obsoletos. As mudanças de comportamento se aplicam à exigência que se acirra com a explosão demográfica vigente e em projeções para as próximas décadas e com a trajetória dos agrotóxicos que se multiplica pelos anos. Nunca  é demais lembrar da “Primavera Silenciosa”, da bióloga Rachel Carson, na década de 50. Essas experiências exigem novos comportamentos da relação do homem com a natureza, que se traduzem na qualidade de vida ou melhor, na falta dela.

O que é perceptível em tudo isso é que as histórias se repetem com outros personagens. A maneira de operar em muitas situações, pouco se transformou. Vieram novas siglas, nomenclaturas, cargos, políticas, entretanto, a base dos problemas permanece. Somos capazes de fazer essas análises isentas de paixões e partidarismos na atualidade?

Diante desse déjà vu, acredito que alguma coisa é possível aprender. Fazer diferente é salutar, mas esquecer, jamais. Essas pontes no tempo são necessárias para que o excesso de fragmentos não destrua a capacidade de um jornalismo que comunica e que acima de tudo, instiga na outra ponta, aquele “chacoalhão” que permite refletir e não se acomodar.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

 

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