Manoel de Barros: o descobridor de memórias fósseis

13/11/2014 12:41

Poeta pantaneiro falece aos 97 anos e deixa sua poesia rica em humanidade e vivência próxima à natureza

Por Sucena Shkrada Resk

“...A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos. Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos... Queria que a minha voz tivesse um formato de canto. Porque eu não sou da informática, eu sou da invencionática. Só uso a palavra para compor meus silêncios...”. Esses trechos de poesias do cuiabano Manoel de Barros, agora, ressoam como uma lembrança agradável deste ‘escrevinhador’ que cativou gerações. Aos 97 anos, partiu hoje para uma nova jornada e deixa uma obra rica em simbologia e simplicidade, que descreve os sentimentos e dúvidas existenciais humanas.

A sua biografia revela que a vivência durante a infância e o cotidiano de fazendeiro no Pantanal lhe proporcionou uma característica singular desde a fase da adolescência, nos anos 30, que passou para as palavras. Essas, sempre escritas, na ponta do lápis, como gostava de frisar.

Criativo, era dado a neologismos, de vez em quando. Externalizava, de alguma forma, a contribuição de sua convivência com a natureza, da fase dos ‘pés descalços’ em confronto com  o cotidiano da ‘modernidade’. A fauna, a flora, as águas faziam parte constantemente de seus escritos. Suas poesias mantinham a sutileza de metáforas. Segundo ele, era como se estivesse descobrindo memórias fósseis. Durante sua carreira literária, produziu 28 obras e foi agraciado com diferentes prêmios. Entre eles, o Jabuti de Literatura.

Ao observar mais alguns trechos de suas obras, é possível ver traços que demonstram a riqueza do trabalho desse brasileiro praticamente centenário, que se fazia entendido por leitores de diferentes idades, preenchendo ‘vazios’ e ‘silêncios’.

“..Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas). Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil. Fiquei emocionado.Sou fraco para elogios...”. E em outra poesia, diz: “...Chegou por vezes de alcançar o sotaque das origens.Se admirava de como um grilo sozinho, um só pequeno grilo, podia desmontar os silêncios de uma noite!”. Esse era, é e será Manoel de Barros (1916-2014).

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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