Ilha Deserta: o conceito de deserto revisitado, por Sucena Shkrada Resk

29/06/2014 14:44

Um, dois, três...lá se foram mais ou menos 20 quilômetros (ida e volta) de caminhada em um dia na Praia Deserta, em Superagui, no PR, no mês de maio. Momento de pura imersão e contato com a natureza e de revisitar o próprio conceito de deserto. Afinal, com tanta abundância de vida, da mais microscópica a outros elementos, como considerar que a figura humana pode determinar o sentido de uma palavra? Foi nesta direção que os pensamentos foram se alinhando e o meu olhar ganhou novas dimensões, dando espaço ao material e imaterial, tornando o passeio, na verdade, algo maior: um aprendizado de sensibilização para a conservação de um dos locais mais belos no Brasil, com extensão de 38 quilômetros em uma ilha que guarda mangues,  mata Atlântica, berçário de aves e uma vasta biodiversidade marinha.

Depois de andar no trecho de praia da comunidade da Ilha de Superagui, onde fica o Parque Nacional de mesmo nome, pequenas piscinas de água salgada começaram a aparecer, com peixes minúsculos, e eu estava prestes a chegar na “curva” que iria me direcionar a uma extensão de praia praticamente intocada, em que ao se avistar, num primeiro momento, me dava a dimensão de um horizonte e oceano sem fim. O que poderia ser uma paisagem monótona começou a ter proporções inusitadas.

Ora aparecia uma grande estrela marinha, ora centenas de conchas se transformavam em um mosaico na areia... Além das ondas, aparecia o traçado da Ilha do Mel ou uma embarcação de turismo ou de um pescador artesanal. Na parte interna da ilha, o que se escondia sob a paisagem era a riqueza dos manguezais.

 

A revoada de aves marinhas me remetia a cenas lidas no romance de Fernão Capelo Gaivota. Aquela liberdade incontida e curiosidade de ver além. Em certo momento, essa interatividade chegava a transcender.

 

Volta e meia, depois de longos minutos e até horas aparecia mais um ‘ser humano’, como eu, de carne e osso, caminhando ou andando de bicicleta. Quando decidi descansar, lá estava um tronco de árvore, onde sentei e observei que tudo aquilo tinha sintonia e vida e o nome deserto ganhou somente um sentido figurado. A cadeia ecossistêmica estabelecida e conservada se mostrava desnudada, como tinha de ser.

 

Dei continuidade à caminhada, parecia que algo maior me levava para frente. Depois de cerca de dois quilômetros, algo me chamou a atenção. Estava chegando perto de uma grande quantidade de aves adultas e filhotes agrupados, perto de um curso d`água em direção ao mar. Com cuidado me aproximei para poder fazer o registro, que ilustrou a contemplação desse momento. Por mais uma vez, obtive a seguinte constatação: nós, seres  humanos, não somos o centro de tudo. E me dei por feliz e aí segui de volta à comunidade de Superagui, certa de que havia participado de uma aula prática de educação ambiental em um dos locais mais bem conservados deste bioma ameaçado.

 

Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

Veja também outros artigos que escrevi sobre esta viagem que fiz em maio deste ano:

19/06/2014 - Ararapira: um ex-vilarejo no Canal do Varadouro 

25/05/2014 – Conhecendo a nossa ‘Barbados’

11/05/2014 – Uma tarde de prosa com ‘dona’ Narzira

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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