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IDH: 24 anos depois, reflete um mundo cada vez mais desigual, por Sucena Shkrada Resk

31/07/2014 14:29

O mundo contemporâneo tem um termômetro da desigualdade, que vigora há 24 anos, por meio dos relatórios do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), publicados pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD). Apesar de ainda ser superficial, é a métrica (baseada em dados de renda, educação e saúde) mais próxima da realidade geral nos diferentes países no planeta e da constatação de que as distâncias aumentam entre as nações mais desenvolvidas e as mais exploradas e pobres historicamente.  Quando se faz uma análise dos 187 países constantes no atual documento “Sustentar o Progresso Humano: Reduzir as Vulnerabilidades e Reforçar a Resiliência”, divulgado neste mês, isso se torna mais claro e aponta em mais uma direção. Mesmo os mais avançados têm apresentado um quadro crescente de vulnerabilidade, em parte, na área socioambiental.

Numa ponta se destacam com as melhores classificações (o parâmetro é de um – mais avançado a zero – menos avançado):

1 – Noruega

2- Austrália

3- Suíça

4- Países Baixos

5 – EUA

6 – Alemanha

7 – Nova Zelândia

8 – Canadá

9 – Singapura

10 - Dinamarca
 

No outro extremo, estão:

178 – Moçambique

179 – Guiné

180 – Burundi

181 – Burkina Faso

182 – Eritrea

183 – Serra Leoa

184 – Chad

185 – República Centroafricana

186 – República Democrática do Congo

187 – Níger

Segundo o relatório deste ano,  mais de 2,2 bilhões de pessoas estão em situação de pobreza ou próxima desta condição, sendo que 1,2 bilhão de pessoas sobrevivem com 1,25 dólares ou menos por dia. Ao mesmo tempo, quase 80% da população mundial não conta com proteção social integral. É um dado grave, demonstrando que a qualidade de vida da nossa civilização está sendo prejudicada, em parte, pelas próprias atividades humanas descontroladas e predatórias. O desafio é fazer com que aumentem sua resiliência frente a tantas adversidades, que têm de ser diminuídas.

O conceito de vulnerabilidade tem um caráter transversal nos princípios do documento. Nesta categoria estão pobres, trabalhadores socialmente excluídos, além de mulheres, pessoas incapacitadas, migrantes, minorias, crianças, idosos e jovens, comunidades inteiras e regiões. A fragilidade está relacionada a diferentes condicionantes, como os desastres naturais, as mudanças climáticas, as pressões industriais a conflitos e distúrbios civis. Para se ter ideia, cerca de 1,5 bilhão de pessoas, ou seja, um quinto da população mundial vive em países afetados por conflitos.

Um dos grupos mais sacrificados é o infantil. De cada 100 crianças que vivem em nações em desenvolvimento (onde se concentram 92% de todo este contingente), sete não ultrapassam os cinco anos de idade e 50 não obtiveram seu registro de nascimento. Um total de 68 não recebeu educação na primeira infância, 17 nunca se matricularam em uma escola primária e 30 sofreram atraso no crescimento e 25 vivem na pobreza.

O mais impactante é saber que em torno de 156 milhões de crianças sofrem atraso no crescimento por causa da desnutrição e de infecções, comprometimentos relacionados com a deficiência de distribuição e produção de alimentos, geração de renda e de infraestrutura de saneamento ambiental.

Relatar numericamente esta sucessão de privações parece algo frio mas é preciso estabelecer uma conexão com rostos, histórias de vida e aí percebemos que muitas delas estão próximas em nosso próprio país, que figura na 79ª colocação (tem melhorado ao longo dos anos na região, mas longe do ideal), atrás de outros países sul-americanos, como Argentina (49ª) e Uruguai (50ª).

E o que está sendo feito para reverter este quadro, de certa forma, engessado nessa diminuição de abismos? Ações pontuais de alguns governos avançam, outras retrocedem e dependem do campo diplomático. Neste quesito, a morosidade é ainda maior, tendo como exemplo as iniciativas em curso decorrentes de negociações, durante as conferências das partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.

Apesar de 195 nações estabelecerem que é preciso limitar o aumento médio de temperatura do planeta em menos de dois graus com relação aos níveis pré-industriais, as medidas efetivas para a redução de emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) são ainda muito aquém do necessário. Os cientistas do Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas já estabelecem quadros bem desfavoráveis, neste século, tendo em vista, esta falta de comprometimento mais efetivo. Nos campos da adaptação e mitigação (redução de danos), os países mais vulneráveis carecem de maior apoio dos desenvolvidos. Foram criados alguns dispositivos, como o Fundo Verde, mas o aporte financeiro ainda é bem limitado.

Um horizonte mais otimista é esperado como resultado da Conferência das Nações Unidas sobre Desenvolvimento Sustentável (Rio+20), realizada em 2012. Durante o encontro, no Rio de Janeiro, foi decidida pelos países integrantes do sistema ONU, a criação de uma Agenda Pós-2015, que está em fase de construção, com 17 temas. Estas metas deverão substituir os Objetivos do Desenvolvimento do Milênio, cujo prazo termina no ano que vem, e tem oito eixos voltados principalmente para o combate à extrema pobreza.

A Cúpula Humanitária Mundial está programada para 2016 e até lá pode ser que haja elementos novos para construir novos cenários, mas por enquanto, não há espaços para ufanismos e comemorações ilusórias.

Veja também outros artigos que escrevi sobre este tema no Blog:
01/07/2014 - Uma relação humana a ser repensada: número de refugiados aumenta

16/03/2014 – Mujica: um presidente que não se enquadra em estereótipos

17/11/2013 - A COP-19 e a tragédia filipina: realidade cobra eficiência da política mundial

19/03/2013 - Costa Rica: exemplo de cultura de paz e socioambiental

08/09/2010 - Precisamos nos reconhecer sul-americanos (II)

13/02/2010 - É preciso muito mais do que ortografia

06/12/2008  -  Os desafios da regionalização

03/11/2007 - Os bastidores do IDH, entre outras.

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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