Especial Desenvolvimento Sustentável (Parte 6): a longevidade diz muito

30/09/2014 16:09

Qualidade de vida e felicidade são componentes que revelam as prioridades de políticas públicas

Por Sucena Shkrada Resk

Diga a verdade! Tem muita gente que quer saber o segredo das japonesas e dos islandeses, não é? Eu me incluo, neste contingente de curiosos. Afinal, segundo o Relatório Mundial da Saúde 2014, da Organização Mundial de Saúde (OMS), as mulheres da ‘terra do sol nascente’ chegam à expectativa média de vida de 87 anos e no país nórdico, os homens, a 81 anos. São os que mais vivem no mundo, em sua maioria, lúcidos e felizes, lembrando que há nestas populações, muitos centenários. O reverso da moeda, em que a longevidade é reduzida, é retratado nos países da África Subsaariana, onde a média é de 55 anos. Por que será? Uma das respostas para isso se encontra no exercício de políticas públicas sustentáveis, que colocam a qualidade de vida como premissa de desenvolvimento. Aí está uma boa dica para os gestores avaliarem, às vésperas do Dia Internacional do Idoso (1º/10) e com a projeção de um mundo em 2050, com mais de 9,6 bilhões de pessoas.

No caso do Japão, de acordo com os pesquisadores do Departamento de Política Global de Saúde da Universidade de Tóquio, a maior expectativa de vida está relacionada ao investimento contínuo do Estado viabilizando o acesso dos habitantes a medidas de saúde pública, dieta equilibrada (arroz, peixes, vegetais e frutas...), educação, cultura e também a atitudes de higiene introduzidas nos hábitos cotidianos da população. Exercitar a mente e corpo se torna algo motivador ao longo da vida dessas pessoas, segundo relatos de seus habitantes mais velhos, em reportagens veiculadas nos últimos anos.

É pertinente destacar que este arquipélago, com 372 mil quilômetros quadrados e população na casa de 128 milhões de pessoas, está localizado no leste asiático, banhado pelo Pacífico, e é um dos países que mais enfrenta terremotos e erupções vulcânicas no mundo e está na maior parte do ano, sob temperaturas bem baixas. Apesar dessas características adversas e de ter superado os efeitos desastrosos da Segunda Guerra Mundial, está entre os países com maior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) no planeta (0,890). Essa métrica, no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU) avalia dados sobre longevidade, renda e educação e tem parâmetros de 0 a 1.

O pesquisador japonês Kenji Shibuya, que liderou o estudo sobre a longevidade, explicou em entrevista concedida à BBC de Londres, que ações públicas de campanhas, no controle da pressão arterial, na redução do consumo de sal, e a cobertura com medicamentos anti-hipertensivos e com o seguro nacional de saúde foram essenciais neste processo, iniciado nos anos 60. Por outro lado, o país também enfrenta seus desafios quanto ao aumento de casos de suicídio e de tabagismo e alcoolismo, que revelam as implicações do desemprego e da crise econômica. São os traços do capitalismo que requerem aprimoramento na contemporaneidade.

Mas com certeza, ter a vida de centenária, lúcida, como de Misao Okawa, da cidade de Osaka, que completou em 2014, 116 anos, não é para qualquer um.  O país tem mais de 54 mil centenários registrados. Algo difícil de acreditar,  mas é verdade.

Bem, por outro lado, a  pequena Islândia, com 102,8 mil quilômetros quadrados, banhada pelo oceano Atlântico Norte,  próxima ao círculo polar ártico, é também um dos países com maior IDH - 0,895 - no mundo.  Como o Japão, também é insular e vulcânico e tem forte dependência da pesca. Um traço interessante entre os dois, que revelam os desafios geográficos e climáticos que conseguem administrar. E é neste país, que está ocorrendo o mapeamento do genoma de boa parte da população. Lá o Estado tem o controle da economia, e a previdência social é considerada uma das mais avançadas.

Tanto no Japão como na Islândia, morrer por diarreia, desnutrição, parto prematuro ou de cardiopatias é mais difícil justamente porque suas políticas públicas favorecem um alicerce sólido para suas populações terem acesso à estrutura permanente de atendimento à saúde (partindo da prevenção) e educação básica até o ensino superior e nutrição balanceada. Esses aspectos são associados à valorização do indivíduo e de seu papel na coletividade, o que, de certa forma, infere o conceito de felicidade.

E falando em felicidade, acredito que de alguma forma, até subliminar,  o exemplo da Felicidade Interna Bruta, do Butão, que começou a ganhar espaço a partir dos anos 70, seja um ingrediente para essa longevidade. Nesta hora, Oriente e Ocidente se misturam. A pegada, neste caso, é visualizar o desenvolvimento econômico integrado ao psicológico, cultural e espiritual em harmonização com o planeta.

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