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Especial Biodiversidade (Parte 2): declínio de espécies ecoa alerta

29/10/2014 21:16

Situação está interligada com a pegada ecológica do ser humano e consequentemente ao quadro crescente das mudanças climáticas

Por Sucena Shkrada Resk

A fauna presente na América Latina está declinando nas últimas quatro décadas de forma ascendente, mais que em todo o globo. O silêncio começa a ocupar o lugar dos sons, dos movimentos, da vida animal terrestre e marinha. De certa forma, reflete um grito contido. Esse cenário de extrema vulnerabilidade é refletido pelo seguinte quadro: cerca de 83% das populações de peixes, aves, mamíferos, anfíbios e répteis da região é afetada por esta diminuição. Esse decréscimo é percentualmente superior ao declínio global de 52% no período, que avalia a situação de 10.380 populações de 3.038 espécies de vertebrados (sendo que no mundo, há o registro de 62.839). A maior parcela afetada é de espécies de sistemas de água doce. Os dados integram o recente Relatório Planeta Vivo 2014, da organização não governamental (ONG) WWF, que tem periodicidade bienal.

Algumas situações são extremas. Na China, por exemplo, a espécie Baiji ou golfinho do rio Yangtze (Lipotes vexillifer) é agora considerada extinta. A constatação foi feita em pesquisa realizada em 2006, quando não se conseguiu encontrar quaisquer indivíduos no rio Yangtze. Uma das causas considerada mais provável é de que a morte foi ocasionada pela pesca predatória.

No Brasil, segundo o Livro Vermelho da Fauna Brasileira, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), existem 135 espécies ameaçadas de água doce, sendo a maior parte da família Rivulidae (52), que se encontra principalmente entre a foz do rio São Francisco e os rios litorâneos do Estado de Santa Catarina.

No mundo, o que se observa são indícios de que a pressão à fauna nas zonas tropicais é maior, onde houve a redução de 56% , entre 1970 e 2010, ou seja, atingiu uma população de 1.638 espécies de um total de 3.811. Já no caso das zonas temperadas, o declínio foi de 36% correspondentes a 1.606 em um universo de 6.569 espécies. Entre as principais causas dessa redução, estão a perda e degradação de hábitat e a exploração por meio de caça e pesca (intencionalmente para o alimento ou esporte, ou acidentalmente, por exemplo, como as capturas acessórias),  a introdução de espécies invasoras e o processo acelerado das mudanças climáticas, que está se agravando, de acordo com o Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas da Organização das Nações Unidas (ONU).

Não existem dúvidas de que o quadro de vulnerabilidade está associado à pressão antrópica global. A sobrecarga da pegada ecológica é grande: usamos o equivalente hoje a 1,5 Terras ou 18,1 bilhões de hectares. Assim, a conta não bate. E em 2050, quando seremos entorno de 9,6 milhões de indivíduos, é um contexto que já causa apreensão.

A métrica utilizada para se chegar a esses cálculos reúne dados sobre áreas construídas, estoques pesqueiros, florestas, pastagens, áreas de cultivo e carbono. Nesta matemática de subtração, a pegada de carbono é a mais predatória. E entre os países, com maior emissão, estão El Salvador, Jordânia, Myanmar, Equador, Tunísia e Colômbia. Só para se ter noção, em 1961, o carbono respondia por 36% de nossa pegada total, enquanto em 2010, o percentual era de 53% no mundo.

As 25 nações com maiores pegadas ecológicas (com população superior a um milhão de habitantes) são justamente as mais ricas e é aí que o conceito de desenvolvimento tem de ser repensado. Como exemplo, o Catar, que está no segundo lugar neste ranking, depois do Kwait, consome nada mais, nada menos, que 4,8 planetas.

Por incrível que pareça, as maiores perdas ecossistêmicas, no entanto, não ocorrem onde mais se explora, mas nos países de baixa renda. A relação de desigualdade se dá da seguinte maneira: essas nações acabam sustentando o estilo de vida das mais ‘desenvolvidas’. Nessa balança, as perdas recaem sobre a própria população. Atualmente, cerca de um bilhão de pessoas passam fome e 768 milhões não têm acesso à água limpa. Ao mesmo tempo, 1,4 bilhões também não têm acesso a fontes de energia limpa.

E no final das contas, o que se percebe com isso tudo é que as intervenções humanas,  que comprometem a diversidade biológica, são um ‘tiro no pé’ do ser humano, ou seja, nós. Aí está um dos inúmeros ângulos que integram a agenda complexa da Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP-20), que acontece em dezembro, no Peru. E alguém ainda tem dúvida de que tudo está interligado?

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*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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