Esp.Educom 2012:Ismar Soares e a educomunicação na academia e fora de seus muros, por Sucena S.Resk

08/04/2012 13:58

O professor Ismar de Oliveira Soares, mestre e doutor em Ciências da Comunicação, durante bate-papo com o Blog Cidadãos do Mundo, fala sobre as recém-criadas licenciatura em educomunicação e especialização na Universidade de São Paulo (USP), das quais é coordenador, e do panorama da formação na área no Brasil. Desde 1996, desenvolve ações voltadas à difusão dessa área do conhecimento, no Núcleo de Comunicação e Educação da Escola de Comunicações e Artes (NCE/ECA/USP). A conversa aconteceu, durante o Encontro Paralelo de Educomunicação, no VII Fórum Brasileiro de Educação Ambiental, em 28 de março, na cidade de Salvador.

Blog Cidadãos do Mundo – Como ocorreu o processo que levou à decisão de se constituir o curso de licenciatura em educomunicação na USP?

Ismar de Oliveira Soares – A criação da licenciatura foi resultado de um trabalho que a própria universidade construiu, desde o início dos anos 90 até recentemente. Entre 1989 e 1991, realizamos o primeiro curso de especialização em educação e comunicação, e a partir de então, começamos a desenvolver alguns programas, como da criação da revista do segmento e do curso de gestão de processos comunicacionais. Formamos 30 turmas e somado a isso, algumas pesquisas do universo imaginário, de quem trabalhava a relação de educação e comunicação, de uma forma alternativa à já constituída nos sistemas tradicionais. E com a identificação da educomunicação como uma prática social bem definida, em termos teóricos e mercadológicos, coube ao próprio NCE/ECA/USP, o diálogo com a sociedade e com o poder público, que resultou em cursos que atenderam a cerca de 30 mil pessoas, entre 2000 e 2010. Tudo isso levou a universidade a refletir sobre sua posição de trazer a discussão para a graduação.
Com isso, reconhece que existe um saber profissional a ser compartilhado, porque a graduação existe em função de saberes e práticas de atendimento às necessidades da população.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o objetivo deste curso e o que ele agregará ao profissional que se formar nele?

Ismar de Oliveira Soares - A educomunicação foi reconhecida pela USP como campo de interface entre a educação e comunicação. Ao criar a graduação, inicialmente, desenhamos um perfil de curso para bacharelado, em que o especialista trabalharia como contratado, consultor na interface na mídia no terceiro setor e na própria assessoria de escolas. No entanto, entendemos que o bacharel tem dificuldade de entrar no espaço escolar, que é aberto ao licenciado. Identificamos, que a Lei de Diretrizes e Bases (LDB), nos parâmetros curriculares, especialmente no ensino médio, identificava a comunicação como área de interesse para 25% de sua grade curricular . Entretanto, ninguém preparava o profissional para assumir esse papel. O próprio Ministério da Educação, com a divulgação desse coeficiente comunicativo, tratava isso como informática educativa. Não entendia a dimensão da própria legislação. A falta desse profissional foi sentida a partir dos anos 90. Então, a graduação assumiu a figura de licenciatura híbrida, neste curso. Forma o professor para dar aula em escolas de ensino médio, como também, o consultor da mídia e do terceiro setor. Já estamos na segunda turma de iniciantes no curso.

Blog Cidadãos do Mundo – Há outros cursos universitários na área de educomunicação no Brasil?

Ismar de Oliveira Soares – Existe um bacharelado na Universidade Federal de Campina Grande, na PB, que futuramente deverá agregar a licenciatura. Foi iniciada simultaneamente à licenciatura da USP. Há um terceiro curso em formação, já em fase de contratação de professores, na Universidade Estadual de Santa Catarina. Lá está sendo criado um curso à distância de Educomunicação. É uma proposta muito inovadora. Existe um vínculo entre essas propostas e a nossa. A Universidade Estadual Paulista Júlio de Mesquita Filho (UNESP) de Assis também anunciou que criará uma licenciatura na área.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o objetivo da Especialização em Educomunicação na USP?

Ismar de Oliveira Soares – Em 2012, está sendo iniciada a especialização (pós-graduação lato sensu) em Educomunicação na USP, com 360 horas, a quem já tem formação universitária. A proposta é ter duas turmas por ano. São dois semestres com núcleos teóricos e práticos e o terceiro para a elaboração da monografia. Destina-se a quem não tem condições de fazer uma nova graduação. Como a profissão não é regulamentada, tanto a graduação e a especialização cumprem o mesmo papel de reconhecimento. O aluno conviverá com pesquisadores e terá uma grade curricular bem direcionada para o entendimento e prática do conceito até a elaboração do projeto. O objetivo é promover a ampliação do número de especialistas para a difusão da educomunicação no país.

Blog Cidadãos do Mundo – Como a formação acadêmica dialoga com os saberes populares?

Ismar de Oliveira Soares – Na verdade, a universidade se inspira nos saberes populares. Tanto assim, que os alunos da Licenciatura da USP têm o trabalho de imersão semestralmente, num período de 14h, em convivência com movimentos populares, complementando a educomunicação, no âmbito escolar e midiático. Há um profundo respeito nessa relação e troca. Para o movimento popular diretamente, a USP já colabora, desde a década da Educomunicação. Houve atendimento, como citei anteriormente, a cerca de 30 mil pessoas, com cursos de extensão ou socialização, que continuarão, numa base construtivista na prática. A licenciatura e a especialização não vieram para competir com os movimentos populares.(Numa visão mais ampla), a universidade cumpre o papel de legitimação ou exclusão, em alguns casos, quando teses circulam e pesam no imaginário e nas políticas públicas. Quando a instituição decide pela Educomunicação, por exemplo, o poder público começa a se interessar sobre essa área e com isso, favorece a expansão do conceito e da prática (o que é positivo). A sociedade, no entanto, deve estar sempre vigilante com relação à universidade (seja qual for), pois tem suas regras próprias. O perigo é que haja a predominância mercantilista em sua condução, desvirtuando seu papel principal.

Blog Cidadãos do Mundo – Qual é o papel da educomunicação ambiental?

Ismar de Oliveira Soares - O ambiente natural da educomunicação é a prática da educação ambiental, levando em consideração que a própria educomunicação é a busca pela utopia. As pessoas e os grupos lutam para se expressar e dominar a utilização dos equipamentos, para implementar a difusão democrática de processos e circulação de informações. Existe um esforço de ideal de mudança. Por outro lado, a educação ambiental também se alimenta da meta por um mundo melhor, mais habitável, portanto, há uma preocupação com as gerações futuras. Aí entra uma questão fundamental que é a cultura. Como mudar a cultura para que as novas gerações possam conviver com o planeta, levando em conta que as gerações do passado praticamente o destruíram? Com isso, a educomunicação ao se aproximar da educação ambiental, traz a vontade da luta e uma visão holística dos processos. A ação do educomunicador faz com que ele se sinta duplamente envolvido. Isso é percebido pelos adolescentes.
Na experiência radiofônica do Educom Rádio em São Paulo, com cerca de 3,6 mil produções, praticamente 70% delas eram sobre o meio ambiente. Os jovens decidiram sobre o conteúdo de seus trabalhos. Reconheceram problemas da área ambiental e demonstraram estar atentos a isso e usaram a comunicação para tentar encontrar a solução. O educomunicador formado na universidade terá condições de atuar em assessoria em órgãos públicos, empresas, ONGs e nas próprias escolas, para auxiliar soluções mais adequadas socioambientais. Entra em nova perspectiva, ao considerar a complexidade do mundo da Ciência, que leva à busca imprescindível de diálogos. É o profissional do presente, que tem o papel de mediador e tem condições de assumir lideranças e de provocar lideranças.


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