Eduardo Viola: A inércia e o conservadorismo da sociedade, por Sucena Shkrada Resk

03/11/2013 18:24

 


Eduardo Viola e Carlos Tautz, em Brasília (crédito da foto: Sucena S.Resk)

“Se o mundo é inercial, não é só porque um grupo é conservador, mas a sociedade é conservadora”. Até hoje essa frase que ouvi recentemente do sociólogo e Doutor em Economia Política Internacional, Eduardo Viola, ecoa como um sinal de alerta sobre o comodismo velado no qual vivemos na sociedade contemporânea e leva a um questionamento: qual parte cabe a cada um de nós “neste latifúndio”?  Pensando bem, tem razão. Afinal, cada um de nós é protagonista nessa engrenagem. Basta listar algumas indagações também provocativas: quem vota e ao mesmo tempo acompanha a gestão de seus candidatos e cobra plataformas? quem consome de forma consciente pensando em ecoeficiência e na justiça socioambiental? Como cada um de nós descarta os resíduos? E quem sofre as consequências do desiquilíbrio de tudo isso? Fazer essas reflexões, incomoda, não há como negar.

Para o sociológico, na atualidade “falta economia política” e ele não tem dúvida de que quando se trata da chamada economia verde é preciso não se iludir – “Alguns ganham, outros perdem (nessa balança) ou seja, não há uma relação somente do ganha-ganha. E complementa sua análise, citando que na fase inicial de transição para uma economia de baixo carbono seria necessário muito mais que 2% do Produto Interno Bruto Mundial, percentual que consta em relatório do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA).

Segundo Viola, hoje a demografia e o nível de consumo são dois problemas-chave a serem considerados e entram nos contextos complexos culturais e das religiões. Com olhar crítico sobre a condução da gestão política, ele analisa  que no panorama dos países em desenvolvimento - com destaque aos BRICS -, no Brasil há um posicionamento ambivalente, enquanto Índia e Rússia, por exemplo, são conservadoras e a China é antagônica. Uma matemática um tanto difícil de se equilibrar.

Em sua opinião, não haverá avanços, de maneira geral, nesses países e no mundo se não houver a reforma do sistema tributário mundial. Ele é a favor de que se aumente o imposto sobre a geração de poluição e emissão de carbono.

O sociólogo parte do princípio que é necessário observar questões elementares para analisar o desenvolvimento. Com relação ao Brasil, cita como exemplo, o  número elevadíssimo de veículos, que até 2012, é de uma frota de 76.137.125 unidades. “É um fator preocupante e nos últimos governos tem havido o incentivo à venda de automóveis...Ao mesmo tempo, investimentos ainda tímidos em energia limpa, como é o caso da energia solar".

No aspecto socioambiental, "o saneamento no país (em particular, o esgotamento sanitário) é uma vergonha e resulta em conseqüências desastrosas ao desenvolvimento infantil”, diz. A Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) revela que ainda 43% das residências não têm rede de esgoto.

Essas situações demonstram a fragilidade entre discurso e ações para equacionar o processo, muitas vezes, inercial em que vivemos no contexto da economia política nacional para uma sociedade de baixo carbono. No livro Sistema internacional com hegemonia das democracias de mercado: desafios de Brasil e Argentina, de autoria de Viola, que é professor de Relações Internacionais da UnB  e de Héctor Ricardo Leis, professor da Universidade Federal de Santa Catarina, há um trecho interessante que destaca: “...o tipo de relação pessoal de privilégio e segregação promovido pelas elites nacionais é nefasto para as pretensões nacionais de potência, uma vez que ‘a lentidão do Brasil cobra um forte preço em termos de prosperidade e oportunidades”. A observação é feita pelo professor de Relações Internacionais da Universidade Federal de Roraima, Thiago Gehre Galvão. Algo a se pensar.

Viola falou a respeito do tema Transição Global para uma Economia de Baixo Carbono, durante o 5º Congresso Brasileiro de Jornalismo Ambiental, em outubro, em Brasília.


*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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