Decisões geopolíticas definem o caminho das mudanças climáticas

04/11/2014 15:13

Caso continue o desenvolvimento pautado pelos combustíveis fósseis e pelo desmatamento, se desenha o pior cenário até o fim do século; posição brasileira é estratégica neste desafio

Por Sucena Shkrada Resk

Tudo junto, tudo misturado. Até onde vai a extensão da postura geopolítica mundial e sua contribuição para os quadros da mudança climática? Cresce cada vez mais uma linha tênue, que determina o processo acelerado dos eventos extremos no planeta. Para alguns pode parecer redundante, mas é preciso repetir: o problema está calcado na opção prevalente por matrizes energéticas com combustíveis fósseis, monoculturas e pastagens extensivas, uso de agrotóxicos, desmatamentos para todos os fins, manutenção de lixões a céu aberto etc. Uma coisa tem a ver com a outra, e muito, por sinal. E o detalhe que faz toda a diferença, nesta história: as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEEs) decorrentes destas atividades não têm fronteiras e, ao mesmo tempo, apresentam efeito acumulativo. Então, mitigação (redução de danos) e adaptação são decisões políticas. Não há como negar.

O que acontece na Amazônia afeta a região Sudeste brasileira, a África Subsaariana e vice-versa. O degelo no Ártico tem a ver com a desertificação na Caatinga, com o provável desaparecimento de países insulares. Parece sem nexo? Então, se surpreenda. As relações de causa e efeito são reais. A casa é uma só: o planeta Terra. O 5º Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC) aponta no cenário mais drástico, seguindo o atual modelo de desenvolvimento, a elevação da temperatura média da Terra, em 5 graus centígrados, até 2100. Diante desta projeção, a única alternativa é zerar a produção de carbono para conseguir chegar nos 2 graus, o que se tornou um limite aceitável, de acordo com os cientistas. É algo factível?

O período de 1983 a 2012 foi provavelmente o mais quente nos últimos 1400 anos, no Hemisfério Norte (onde os cientistas creditam que os dados são mais confiáveis), mas as projeções se estendem ao Sul. Isso quer dizer, em miúdos, que a situação está cada vez mais complicada, por causa da ação antropogênica. Computando o período da Revolução Industrial até 2012, o aquecimento chegou na casa de 0,85 graus centígrados.  Os oceanos, por sua vez, aumentaram em 26% sua acidez.  Para completar esse quadro, os cientistas afirmam que as concentrações de dióxido de carbono, metano e óxido nitroso são as maiores até hoje, sem precedentes em, pelo menos, 800 mil anos.

Deslocados e refugiados climáticos

A aceleração da carbonização está criando uma categoria chamada informalmente de deslocados (internamente) e de refugiados (externamente) climáticos e ambientais. As leis e tratados internacionais ainda não oficializaram essa situação, que já existe, e ao mesmo tempo é reconhecida em estudos do Direito Internacional.  Entre essas pessoas se encontram populações afetadas por empreendimentos hidrelétricos e pelos extremos climáticos, entre outras situações. Mais que vítimas de ‘desastres naturais’, são vítimas do desenvolvimento predatório atrelado aos mesmos, que faz com que o que demoraria séculos, se intensifique em anos. 

“Infelizmente o avanço para o reconhecimento dessa situação não tem sido como gostaríamos. Há um vazio jurídico. O que se vê atualmente são iniciativas pontuais, como na Costa Rica e e na Alemanha, para que possam ser estabelecidas formas políticas para mediar este tema em um futuro próximo”, disse Andrez Ramirez, representante do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), no Brasil, ao Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk. Ele foi um dos palestrantes do III Congresso Internacional de Direito Ambiental Internacional – Unisantos, realizado em São Paulo, no último dia 31 de outubro.

O Protocolo Mundial de Cartagena sobre Refugiados esta completando 30 anos, e o desafio é que atualize a cobertura específica a essas condições provenientes dos desastres naturais. A discussão, entretanto, tem sido feita dentro do ACNUR, desde 2009,  quando foi lançado o documento Mudanças Climáticas, Desastres Naturais e Deslocamento Humano.

Segundo o IPCC, os riscos amplificados daqui por diante são de estresse por calor, tempestades, inundações costeiras, deslizamentos de terra, poluição atmosférica, escassez de água e aumento do nível do mar, entre outras ocorrências.

“...É preciso estudar a vulnerabilidade dos diferentes setores diante desse aumento das mudanças climáticas. A temperatura do mar está aumentando e isso me preocupa muito. Estão se movendo gigantes e frear isso é muito difícil. Pode levar séculos”, disse  o Mestre em Meteorologia Gilvan Sampaio, do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), durante o 3º Seminário sobre Mudanças Climáticas, realizado pelo Planeta Sustentável e o Fórum Clima, no final do mês passado.

Documentário retrata lugares já ameaçados

Não é preciso sugestionar o que pode acontecer no futuro, tendo em vista, que o  hoje já reflete o processo. O documentário recém-lançado “Caminhando Sobre a Terra - Uma viagem a 10 lugares ameaçados no Planeta”, com direção de Thiago Cóstackz, ilustra como as ações antrópicas desenham um planeta que dificulta gradativamente a existência de diferentes tipos de vida. Na Groenlândia, a segunda maior capa de gelo do planeta, atrás da Antártica, terra onde vivem os Inuítes, é um exemplo clássico. Depois de explorações de toda ordem, nos últimos 100 anos, no Ártico,. O que se vê é um degelo rápido. O comprometimento não pára por aí. Resíduos químicos estão sendo encontrados por lá, como mercúrio, chumbo, DDT, que entram na cadeia alimentar e já foram detectados até no leite materno das mulheres da comunidade.

A Rússia, que tem 63% de seu território composto por permafrost (solo permanentemente congelado a séculos), na Sibéria, também está derretendo e emitindo metano, com poder devastador mais de 20 vezes superior ao carbono.

No Atlântico Sul, na Barreira dos Corais, encontrados entre o Maranhão e sul baiano, a poluição doméstica proveniente das cidades, está destruindo esse patrimônio natural. O efeito destruidor afeta os demais corais no mundo.

Talvez a prova mais visível a olho nu, a nós brasileiros, sejam os efeitos nos biomas nacionais, da Caatinga à Mata Atlântica. Esses cenários são mostrados no filme, de cerca de 1h20, que promove uma reflexão sobre a inação humana diante do que já é tão evidente, que recobra um alerta contínuo também sobre a conservação da Amazônia, onde é desmatado o equivalente ao Estado de Sergipe anualmente.

O Brasil e o papel da Amazônia 

Mais um trabalho que traz uma discussão importante sobre a rede de relações das mudanças climáticas e a importância da conservação ambiental do bioma, é o  relatório científico “O Futuro Climático da Amazônia”, produzido pelo pesquisador Antonio Nobre, para a Articulação Regional Amazônica. O autor reforça a posição estratégica da região com os chamados “rios voadores’, que irrigam regiões distantes no verão hemisférico e que possuem uma ‘bomba biótica’ (que mantêm as chuvas em qualquer circunstância), que impedem que haja furacões e similares.

O pesquisador do Centro de Ciência do Sistema Terrestre (CCST) do INPE e do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (INPA) é contundente. É preciso zerar o desmatamento por lá e restaurar a floresta destruída, para que haja a regeneração. Segundo ele, hoje o desmatamento por corte raso já atingiu 20% da Amazônia brasileira e mais 20% da floresta também já foi comprometida em sua cobertura original. De acordo com o cientista, essa situação está associada a situações de seca em outras regiões, como o Sudeste.

Então, fica mais fácil compreender que o grau de conservação da Amazônia, da Mata Atlântica, da Caatinga, do Cerrado, do Pantanal, do Ártico, da Antártica, da África Subsaariana e dos países insulares fazem parte de uma rede interligada. Tudo junto, tudo misturado. Quando observamos as decisões governamentais brasileiras, como a opção pela extração do Pré-Sal, no Brasil, com investimentos significativamente maiores (bilionários) com relação a energias limpas e renováveis, há um peso a considerar nesta matemática mundial.

Esse novo cenário de emissões deverá ser quantificado nos novos relatórios de emissões nacionais, que até então, só computavam o desmatamento na Amazônia e que gradativamente está computando outros biomas. Entretanto, saber exatamente a conta será mais difícil, porque no documento não se observa o recorte das exportações. A explicação é do consultor ambiental Tasso Azevedo, ao Blog Cidadãos do Mundo, durante o 3º Seminário sobre Mudanças Climáticas, promovido pelo Planeta Sustentável e pelo Fórum Clima, no final de outubro.

Segundo estudos do Greenpeace, com projeção até 2020, a expectativa é que se tripliquem as emissões, colocando o Brasil na terceira posição entre os maiores emissores de GEEs, atrás de China e dos EUA. Hoje figura na sexta colocação.

Na matriz energética nacional, apesar da participação de renováveis ainda ser significativa, 42,4%, a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), do Ministério de Minas e Energia (MME), informou no Balanço Energético Nacional 2013, que houve um pequeno decréscimo de 2011 a 2012, por causa da menor oferta de energia hidráulica e de etanol. Em contrapartida, a oferta maior de energia é fóssil: petróleo e derivados (39,2%), gás natural (11,5%), carvão mineral (5,4%) e urânio (1,5%).

Ainda há pesos tímidos para fontes eólicas e solares, por exemplo. Segundo a Associação Brasileira de Energia Eólica, a energia eólica deverá passar a 11% do total de fontes nacionais em uma década. Hoje representa 4,1% entre as renováveis. No caso da solar, que nem configura em percentuais nos relatórios, após tentativas anteriores frustradas, um leilão público conseguiu contratar 1.048 W de capacidade. Já é uma luz no fim do túnel.

A Conferência das Partes da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (COP20), em Lima, no Peru, está chegando. Dezembro está aí. Mas com a velocidade lenta de alterações da maior parte das nações, incluindo o Brasil, para uma sociedade de baixo carbono, o que não se sabe é até quando o país vai conseguir se manter com níveis de emissões abaixo de 1990 (segundo relatórios atuais, com relação ao desmatamento, sem contar com o cenário de 2014). Trata-se de seguir outros caminhos de modelo de desenvolvimento. Isso dependerá essencialmente de esforço técnico e político. Entretanto, já contabilizamos um déficit de tempo considerável para que haja implementações.

Veja também alguns dos artigos que escrevi sobre estes temas, no Blog Cidadãos do Mundo – jornalista Sucena Shkrada Resk:

29/10/2014 – Especial Biodiversidade Parte 2: declínio de espécies ecoa alerta
16/09/2014 - Especial Desenvolvimento Sustentável (Parte 3): de olho na justiça climática
12/09/2014 - Especial - Desenvolvimento Sustentável: como sair do círculo dos gabinetes?
29/08/2014 - Alerta vermelho ao estado de conservação da biodiversidade costeira e marinha brasileira
07/08/12 - Políticas fragmentadas e mudanças climáticas intensificam crise na África
14/10/2013 - Água: um bem depreciado na sociedade do desperdício

14/01/2013 - Reflexão: a desertificação e o consumo inconsciente
27/08/2012 -No contexto das nove fronteiras
20/08/2012 - Eventos naturais extremos: prevenção no centro da pauta
07/08/2012 - Políticas fragmentadas e mudanças climáticas intensificam crise na África
23/05/2012 - Riomais20 - Como tratará da realidade da África Subsaariana
10/03/12 - Refugiados climáticos: do alerta ao fato
09/11/2011 - Refletindo sobre o Estado do Futuro
04/03/2012 - Pensata - Rio+20: agora é a vez do como
13/01/2012 -Rio+20: O que fazemos com tanta informação?
27/12/2011 - As teias que ligam a COP17 com a Rio+20
10/12/2011 -Relatório de Adaptação do IPCC: será que eles leram
09/11/2011 - Refletindo sobre o Estado do Futuro/Projeto Millennium
07/10/2011 – Russell Mittermeier-p1: foco em conservação das espécies e áreas protegidas
27/09/2011 - Quem quer fazer parte da estatística fatal provocada pela poluição?
13/09/2011 - A Rio+20 sob o olhar de quem esteve na ECO 92
07/08/2011 - O que se fala sobre vulnerabilidade climática (parte 1)
31/07/2011 -  Um diálogo com a Ecosofia
22/07/2011 - Alerta sobre o flagelo africano
28/06/2010  - A relação das APPs e as enchentes nordestinas
01/02/2010 -  Esp.FSM 2010 - Qual é a nossa conjuntura ambiental?
22/12/2009 - Especial COP15: Agora é a vez do panettone
19/12/2009 - Especial COP15 - O desacordo sela encontro
13/12/2009 - Especial COP15 - O balanço dos antagonismos
10/12/2009 - Especial COP15 - Lembrem bem deste nome – Tuvalu
06/12/2009  - Copenhague vira o centro do planeta
29/11/2009 - O caminho da economia verde
22/11/2009 - EIMA7: Como sair na contramão dos rumos das mudanças climáticas?
22/11/2009 - EIMA7: Entrevista: Giovanni Barontini sobre a COP-15
13/09/2009 - Qual 'casa' podemos construir para nós?
18/05/2009 - Especial II FCS - 3 - Um jornalismo mais comprometido
10/12/2008 - DHs: começam pelo princípio de dar dignidade à vida
29/07/2008 - Parte 2 - Plano Nacional de Mudanças Climáticas vai à consulta pública
01/04/2008 - Parte 1 - No caminho da Política Nacional de Mudanças Climáticas
05/09/2007 - As fronteiras das zonas de conflito

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