Conhecendo a nossa ‘Barbados’, por Sucena Shkrada Resk

25/05/2014 15:50

crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

O nome Barbados remete em um primeiro momento ao país insular no Caribe, que com grande resiliência tenta se adaptar às mudanças climáticas. Mas a ‘Barbados’, que estou tratando aqui,  é também uma ilha, só que brasileira, onde uma comunidade tradicional caiçara, vive na área de abrangência do Parque Nacional de Superagui, na região da baías dos Pinheiros, em Guaraqueçaba, no Paraná, que pude conhecer no início de maio. De certa forma, também tem um traço de resiliência ao lutar para conservar sua existência e tradições sem conflitos com as legislações ambientais, tendo em vista que a unidade de conservação é de proteção integral.

Um dia esse pedaço de terra se chamou Sambaqui e é o lar de 25 famílias, a maioria de pescadores, em que uma personagem se destaca: é o senhor Antonio Lopes, 72 anos, um dos mais antigos moradores da vila. Ele é conhecido pela arte de cultivar ostras, há oito anos. O segredo, segundo ele, está no processo: “Primeiro, o cultivo é no mangue e quando a ostra está grande para engorda, é colocada na água salgada, com o apoio de uma tela, onde recebe sol”, diz.

O molusco fica carnudo e ganha um preparo especial no espaço comunitário rústico da família, que tem um conceito de turismo de base comunitária. Na área, sua mulher e filhos colocam a mão na massa. O ambiente é simples e aconchegante, onde nas paredes de madeira estão estampados cartazes com campanhas de defesa da biodiversidade local. O local é envolto por um rico pomar. Lá tem de tudo um pouco: abacateiro, banana, pé de laranja, de mexerica, de carambola e de pimenta...mais uma pequena horta de temperos dentro da floresta de mata Atlântica, que atrai aves de diferentes espécies.

Mas quando a gente pensa que  a história do senhor Lopes acaba por aí, atrás de uma pequena porta de madeira está uma das preciosidades de que ele não abre mão. É a antiga casa de farinha criada por seu bisavô. As peças estão praticamente intactas. “Quando temos a colheita de mandioca, volto a usar”, conta ele orgulhoso, mostrando cada detalhe.

E é nesse universo tradicional, que a tecnologia chega aos poucos, mas com alguns problemas, como ele cita. “O Governo do Estado (por meio da concessionária de energia) providenciou a instalação da placa solar, mas o equipamento não dá conta da demanda de energia para manter o refrigerador funcionando. Por causa disso continuamos a usar o gerador. Cai muito a energia. Fizemos um abaixo-assinado para os técnicos do governo fazerem a manutenção e verificarem o que está acontecendo”, conta. Ao mesmo tempo, há restrições a instalações devido à legislação ambiental.

Enquanto espera uma resolução, o cultivador de ostras vai tocando a sua vida, entre o mar e a floresta, longe do centro urbano, onde vai algumas vezes para visitar três dos seus cinco filhos. Essa comunidade isolada revela uma das características cativantes do Brasil tradicional e vive um dilema, que é descrito no trabalho de pós-graduação Argonautas do Superagui: identidade, território e conflito em um parque nacional brasileiro, de Letícia Ayumi Duarte, pela Universidade  do Estado de Santa Catarina (Udesc).

*Fotos: crédito: Sucena Shkrada Resk

Veja também no Blog Cidadãos do Mundo:
Uma tarde de prosa com 'dona' Narzira

*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

 

© 2014 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-Sucena Shkrada Resk