As perguntas encontram sentido nas coisas aparentemente miúdas

26/01/2015 13:06

Por Sucena Shkrada Resk

Um dia estava eu na atmosfera paulista da mata atlântica, vivendo um cotidiano entre São Caetano do Sul e São Paulo, e no outro já estava fincando os pés em Alta Floresta e depois, em Cotriguaçu, na Amazônia matogrossense. Um mero deslocamento geográfico e de bioma? Não, muito mais do que isso. Mudança de vida, de trabalho, de motivações e de aspirações, mas que em cada detalhe revela ao mesmo tempo a complexidade e simplicidade de ser e estar no meio ambiente, um organismo vivo, que revela similitudes nesses diferentes espaços territoriais e geopolíticos.

Sim, essa é "Gaia" e a experiência de olhá-la por este prisma nos permite sair da zona de conforto. O antropoceno nunca ficou tão evidente. Muito filosófica esta afirmação?  Quem sabe? Mas quando colocamos a possibilidade de ter incertezas e seguir ao "inconclusivo", nos abrimos para o aprendizado que se encontra nas coisas aparentemente miúdas.

Do chão do asfalto parti para o chão de terra. Do congestionamento segui para o não-congestionamento.  Das ilhas de calor concretadas me desloquei para outras "ilhas" de mormaço e umidade, em que a verticalização e impermeabilização são substituídas pela horizontalidade das construções e por uma floresta resiliente no histórico arco do desmatamento amazônico. Antagônicos cenários, será verdade? Um rio Juruena se encontra em estado de alerta com a pressão de empreendimentos hidrelétricos e consequentes impactos socioambientais. Um Tamanduateí, um Pinheiros e um Tietê agonizam por causa da ação predatória do mesmo ser humano.

O custo de vida aqui ou lá está alto e o peso do desmatamento por décadas nesta região ao norte do país está profundamente atrelado  ao modelo de desenvolvimento do Sudeste. Afinal, quem adquire de quem, não é? Por que o frete é tão caro nessas cidades rumo ao Norte do país? Será que há tantas distâncias ou as mesmas se encurtam quando vimos em pequenos detalhes cotidianos, que causa e efeito são contínuos nestas redes de relações?

Enquanto na região metropolitana de São Paulo, os congestionamentos são implacáveis, por aqui, a logística também não deixa por menos. Rodovias, que são asfaltadas no papel, na prática, têm parte de sua
extensão ainda no chão bruto. O tempo dos cidadãos (ãs) também é consumido pelo tipo de modelo viário e de mobilidade desses diferentes brasis, que no fundo, é um só.

Apesar de estar circundada por duas importantes unidades de conservação ambiental - Parque Estadual Igarapés do Juruena e do Parque Nacional da Juruena e pelo Território Indígena do Escondido (milhares de
hectares amazônicos), Cotriguaçu - com seus 8,8 mil km2 - também tem o desafio de estruturar a manutenção de 'áreas verdes' conservadas para lazer e educação ambiental, no espaço urbano, onde vivem cerca de 15 mil habitantes. Isso lhe confere muitas semelhanças com seus pares maiores e aparentemente mais desenvolvidos do Sudeste. O município estrutura há algum tempo o seu conselho de meio ambiente e agora inicia a trajetória da pasta dedicada para o tema, atrelada anteriormente à agricultura.

À milhares de quilômetros, São Caetano do Sul, com aproximadamente 200 mil habitantes distribuídos em 15 km2 e com o melhor Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Brasil também carece de mais espaços verdes, além do Parque Municipal Chico Mendes, e tem cursos d´água poluídos, como o ribeirão dos Meninos, divisa com a adensada capital. O seu conselho de meio ambiente ainda é pouco atuante e poucos munícipes sabem de sua existência. E a São  Paulo pulsante proporcionalmente à sua área urbanizada também revela uma cidade que precisa de maior conservação de suas matas nativas e de suas bacias hidrográficas.

Tanto cá, como lá, mais similitudes fazem as convergências. Agricultores familiares buscam reconhecimento, espaço e orientação, além de melhor acesso aos serviços básicos. Não importa se os cultivos são de grãos, frutíferas ou de cana-de-açúcar. Dessa forma, tanto aqui, na Amazônia matogrossense, como nas paradas paulistas e paulistanas, no Sudeste, as miudezas facilitam que as perguntas se cruzem pois tudo está interligado. Assim as distâncias diminuem e nos tornamos parte e todo ao mesmo tempo.
*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk


© 2014 Todos os direitos reservados.

Blog Cidadãos do Mundo-Sucena Shkrada Resk