Ararapira: um ex-vilarejo no canal do Varadouro, por Sucena Shkrada Resk

19/06/2014 14:43

crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

À primeira vista, aquelas dunas enormes, algumas ruínas aparentes e a ponta da torre da antiga igreja histórica de São José, construída no século XIX, me aguçaram a curiosidade. Eu estava prestes a conhecer o pequeno vilarejo de Ararapira, também chamado de comunidade fantasma, localizado na abrangência do Parque Nacional do Superagui, ao longo do Canal do Varadouro (criado artificialmente na década de 50), que liga Superagui, em Guaraqueçaba (PR) ao litoral paulista até Cananeia. Era um dia ensolarado e o céu de brigadeiro favoreceu a gravação dessa bonita imagem em minha mente, nas proximidades da Ilha do Cardoso. E pensei – ‘Afinal, qual era o segredo desse pequeno pedacinho do Brasil?’.

Para contar um pouco desta história, quem nos recepcionou foi o falante Josias, um nativo que resolveu permanecer por lá, depois que toda a comunidade, em sua maioria de famílias de pescadores, deixou suas casas para trás para viver em outros lugares com melhores condições, como na outra margem do braço do mar, em Ariri, do lado paulista.

“As pessoas foram saindo porque não chegava luz, infraestrutura mas eu quis ficar aqui, porque me sinto bem com essa natureza e meus pequenos animais. Quando dá saudades, visito meus parentes em Superagui”, disse ele. As restrições na área se devem ao fato de o vilarejo pertencer a uma área de conservação ambiental federal, que existe desde 1989. A comunidade, entretanto, historicamente surgiu bem antes, em meados do século XVIII,  e faz parte dos bastidores da história do Brasil. Essa situação de ‘abandono’ já gerou manifestações, como da Associação de São José de Ararapira, que defendeu sua revitalização.

Ao caminhar pelo traçado do que restou do vilarejo, rodeado pela mata Atlântica, casas de alvenaria e algumas de madeira fechadas vão se sucedendo neste cenário ‘bucólico’, algumas, inclusive, com estruturas de energia solar. Um pequeno riacho de águas límpidas, com as rochas que se destacam ao fundo, dá um charme especial a esse lugar. Em uma área mais reservada, o antigo cemitério, guarda as histórias de vida de parte desta gente que um dia viveu por lá. Ah, e claro, a bela igrejinha, logo na entrada do vilarejo, funciona como uma bússola que sinaliza a vida cultural e tradições do povo de Ararapira, que de alguma forma ainda sobrevive.

Saí de lá, de volta ao barco, com a sensação de déjà vu, e de que talvez seja necessário haver um aprofundamento de estudos nas áreas protegidas brasileiras, para que se concilie melhor a relação com as comunidades tradicionais.

*Crédito das fotos: Sucena Shkrada Resk

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*Blog Cidadãos do Mundo - jornalista Sucena Shkrada Resk

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